Início Notícias Têxtil

O que esperar de 2020

O ano de 2019 terminou com alguma incerteza, por entre mudanças no consumo e nuvens na economia. 2020, contudo, poderá trazer uma maior estabilidade, à medida que as marcas mas também as empresas produtoras, incluindo em Portugal, se ajustam a uma nova realidade.

De acordo com a consultora IHS Markit, o crescimento da economia mundial desacelerou para 2,6% em comparação com 3,2% em 2018 – um abrandamento provocado pelas guerras comerciais e pelas dificuldades enfrentadas pelas economias emergentes, mas o panorama para 2020 é de uma maior estabilidade. «O ponto positivo na economia mundial são os gastos do consumidor e melhores condições financeiras», aponta Nariman Behravesh, economista-chefe da IHS Markit.

Em termos regionais, e no que diz respeito à Europa, a IHS Markit antevê não só a estabilização mas também uma ligeira recuperação da economia. «A queda no crescimento da Zona Euro em 2019 para 1,2%, em comparação com 2018 (1,9%) foi alarmante, com algumas grandes economias, nomeadamente a Alemanha e a Itália, a ficarem perigosamente perto da recessão», revela Behravesh. «Contudo, há alguns sinais de que o pior pode ter passado», afirma.

Como tal, a IHS Markit prevê que o crescimento da Zona Euro estabilize em cerca de 0,9% em 2020, antes de aumentar para 1,1% em 2021.

Moda cresce

Já a indústria da moda, especificamente, continuou a crescer em 2019 e deverá manter essa rota em 2020, embora mais lentamente. O McKinsey Global Fashion Index prevê que o mercado aumente 3% a 4% em 2020, um ritmo ligeiramente mais baixo do que a estimativa de 3,5% a 4,5% em 2019.

César Araújo

Este abrandamento resulta, segundo o estudo The State of Fashion 2020, realizado em parceria pela consultora McKinsey & Company e o Business of Fashion, de uma prudência crescente por parte dos consumidores, provocada pela incerteza macroeconómica, perturbações políticas em diversas partes do mundo e a continuação da ameaça de guerras comerciais.

No ano passado, um tema foi mais forte do que todos os outros na indústria da moda – sustentabilidade – e o movimento deverá prolongar-se nos próximos 12 meses e mesmo depois. «Pela primeira vez, a sustentabilidade encabeçou a lista dos maiores desafios enfrentados pela indústria e foi também nomeada como a maior oportunidade», destaca o estudo.

Nos últimos anos, os consumidores ficaram cada vez mais conscientes do impacto da moda no ambiente e mostraram o seu descontentamento com o mesmo, procurando marcas e produtos menos prejudiciais. Segundo o estudo da McKinsey, o foco crítico em 2020 deverá ser criar uma definição clara do que é a sustentabilidade e comunicar essa mensagem aos consumidores, muitos dos quais referem não serem capazes de distinguir as marcas sustentáveis.

«Apesar de algum progresso modesto, a moda ainda não leva suficientemente a sério as suas responsabilidades ambientais», sublinha a McKinsey, referindo que este ano «os players da moda têm de trocar as banalidades e barulho promocional por ações com significado e cumprimento regulamentar, ao mesmo tempo que enfrentam a procura do consumidor por uma mudança transformadora».

Portugal na dianteira

O tema teve também destaque em Portugal em diversos eventos, o último dos quais batizado Sustainability Talks, que teve lugar no início de dezembro. Mas mais do que consciente das mudanças que esta obrigação veio trazer, a indústria portuguesa encara a sustentabilidade como uma oportunidade. «Portugal já começou a dar esse passo. A sustentabilidade e a preocupação com a pegada ecológica já fazem parte do nosso dia a dia», garante César Araújo, presidente da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção, que acredita que o sector do vestuário «está no pelotão da frente».

Mário Jorge Machado

«A indústria têxtil tem muito boas práticas em termos de produção sustentável e estamos bem posicionados, ao nível da concorrência internacional», afirma igualmente Mário Jorge Machado, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. «Temos que dar visibilidade às ações que as empresas têm tomado, às ações que o país tem tomado», sublinha, citando, entre outras, as fontes de energia renováveis.

Isso não implica que não haja desafios, como destaca Amadeu Fernandes, presidente da ANIT-Lar – Associação Nacional das Indústrias de Têxteis-Lar. «A economia circular, no caso dos têxteis-lar, não é nova – sempre se aproveitou tudo. Todos os desperdícios que saem dos teares, todos os desperdícios de confecionar um lençol… Há uma empresa em Famalicão, a Recutex, que aproveita isso tudo e faz fios para serem usados depois em colchas e outros têxteis-lar», admite. No entanto, «as alterações climáticas estão a criar uma alteração dos hábitos de consumo. O inverno sendo tardio, os artigos de inverno não se vendem tanto nos têxteis-lar como no vestuário. O mesmo acontece no verão. Tudo isso teve influência no ano passado», reconhece.

Amadeu Fernandes

A isto soma-se a mudança de mentalidade, e até a demografia, dos consumidores. «A população na Europa está a ficar muito envelhecida e a população envelhecida não consome. Os atos de consumo da juventude também se estão a modificar totalmente. A roupa e, no nosso caso, os têxteis-lar, não são tão importantes como um telemóvel», exemplifica Amadeu Fernandes.

Entre os desafios, César Araújo refere também «o desequilíbrio que existe na Europa a nível das importações», nomeadamente no que diz respeito à entrada de artigos de vestuário de diversos países low-cost. «A indústria de vestuário portuguesa tem de se afirmar mais a nível global, criar músculo para competir», sublinha, algo que já fez em 2019, «um ano em que reafirmamos a nossa excelência, mostramos que o sector é dinâmico e inovador e reforçamos a nossa notoriedade», resume.

Um conjunto de eventos no último trimestre do ano contribuíram para essa notoriedade, dentro e fora das fronteiras nacionais.