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O que mudou no comércio da ITV em 2021

Com o pico da pandemia para trás, o comércio de têxteis e vestuário aumentou no ano passado e, apesar de alguma disrupção, o covid não alterou o pódio dos países exportadores, revela uma análise aos dados da Organização Mundial do Comércio, que aponta ainda outros padrões.

[©Unsplash-Venti Views]

Afetados pela pandemia em curso e pelas estratégias em evolução de produção e aprovisionamento das empresas em resposta às mudanças do ambiente de negócios, os padrões mundiais de comércio de têxteis e vestuário em 2021 incluem continuidades e novas tendências. Num artigo publicado no Just Style, Sheng Lu, professor associado de Estudos de Moda e Vestuário na Universidade do Delaware, nos EUA, faz uma análise destes padrões com base nos dados do World Trade Statistical Review 2022, da Organização Mundial do Comércio, e das Nações Unidas (UNComtrade).

O primeiro padrão mostra que houve um aumento das exportações mundiais de vestuário à medida que a economia se foi recuperando da pandemia, enquanto as exportações mundiais de têxteis cresceram muito mais devagar devido a um elevado volume comercial registado no ano anterior. «Especificamente, graças à forte procura dos consumidores, as exportações mundiais de vestuário em 2021 voltaram totalmente ao nível pré-covid», escreve Sheng Lu, ultrapassando os 548,8 mil milhões de dólares, um aumento de 21,9% em relação a 2020.

Em comparação, o valor das exportações mundiais de têxteis cresceu apenas 7,8% em 2021, para 354,2 mil milhões de dólares), ficando atrás da maioria dos sectores. Contudo, sublinha o professor, este «padrão é compreensível, uma vez que o comércio têxtil manteve um nível alto em 2020, impulsionado pela elevada procura por equipamentos de proteção individual (EPI) durante a pandemia».

No entanto, antecipa Sheng Lu, o comércio mundial de têxteis e vestuário pode enfrentar fortes ventos contrários devido à desaceleração da economia mundial e à diminuição da procura por parte dos consumidores. «As principais entidades económicas internacionais, do Banco Mundial ao Fundo Monetário Internacional (FMI), preveem unanimemente uma desaceleração da economia em todo o mundo. Da mesma forma, a Organização Mundial do Comércio (OMC) projeta que o crescimento do comércio mundial de mercadorias baixe para 3,5% em 2022 e caia ainda mais, para apenas 1%, em 2023. Como resultado, o comércio mundial de têxteis e vestuário provavelmente irá enfrentar dificuldades com a estagnação do crescimento ou um declínio modesto nos próximos dois anos», aponta o professor.

Tudo igual no pódio

[©Unsplash-Allan Wadsworth]
Um segundo padrão que emerge dos dados é que a pandemia não mudou significativamente o cenário competitivo das exportações têxteis, mas afetou a estrutura das exportações de produtos. Ao mesmo tempo, algumas mudanças estruturais de longo prazo nas exportações mundiais de têxteis continuaram em 2021.

China, União Europeia (UE) e Índia permaneceram como os três maiores exportadores têxteis do mundo no ano passado, um padrão que se mantém estável há mais de uma década. Juntos, representaram 68% das exportações mundiais de têxteis em 2021, uma quota semelhante aos 66,9% antes da pandemia (2018-2019) . A lista dos dez principais exportadores em 2021 também é a mesma de 2020 e de antes da pandemia (2018-2019).

No entanto, a taxa de crescimento dos dez maiores exportadores têxteis variou significativamente em 2021, entre uma queda de 5,5% da China e um crescimento de 47,8% da Índia. Segundo Sheng Lu, «a mudança da procura de EPIs para fios e tecidos relacionados com vestuário foi um fator crítico que contribuiu para o fenómeno».

Por outro lado, prosseguindo uma tendência já surgida antes da pandemia, os países em desenvolvimento com rendimentos médios continuaram a desempenhar um papel mais significativo nas exportações têxteis, enquanto os países desenvolvidos perderam quota de mercado. Por exemplo, os EUA, a Alemanha e a Itália lideraram as exportações mundiais de têxteis na década de 2000, respondendo por mais de 20% da quota de mercado. Em 2019, a quota desses três países caiu para 12,8% e voltou a cair em 2021, para 11,3%. Em comparação, países como a China, o Vietname, a Turquia e a Índia entraram no estágio de desenvolvimento da expansão da produção têxtil. Como resultado, a sua quota de mercado nas exportações mundiais de têxteis aumentou continuamente.

“Próxima China” ainda sem certezas

Sheng Lu identifica como terceiro padrão o facto de países com capacidade de produção em grande escala se terem destacado nas exportações mundiais de vestuário em 2021, ao mesmo tempo que ainda não há um vencedor claro entre os países exportadores que competem para ser uma alternativa à China.

[©Unsplash-M0851]
A crescente procura dos consumidores e as interrupções na cadeia de aprovisionamento relacionadas com o covid afetaram significativamente os padrões mundiais de exportação de vestuário em 2021. Como as marcas e retalhistas de moda estavam ansiosos para encontrar capacidade de fornecimento, países com capacidade de produção em larga escala e uma oferta relativamente estável tiveram o crescimento mais rápido. Por exemplo, com exceção do Vietname, que sofreu com vários meses de confinamentos, todos os outros cinco principais exportadores de vestuário tiveram um crescimento superior a 20% das exportações, nomeadamente a China (cerca de 24%), Bangladesh (cerca de 30%), Turquia (aumento de 22%) e Índia (mais 24%).

Uma outra tendência relevante é que muitas marcas e retalhistas internacionais de moda têm tentado reduzir o aprovisionamento de vestuário na China, em resposta a vários fatores económicos e não económicos, incluindo tensões comerciais e razões geopolíticas. Por exemplo, apesar do forte desempenho em 2021, a China representou apenas 23,1% das importações de vestuário dos EUA entre janeiro e setembro de 2022, muito abaixo dos 36,2% em 2015. Da mesma forma, as quotas de mercado da China na importação de vestuário da UE, do Japão e do Canadá também caíram no mesmo período, sugerindo que este é um fenómeno mundial.

As empresas de moda têm, por isso, procurado ativamente destinos de sourcing alternativos, mas os dados comerciais mais recentes sugerem que ainda não há um vencedor claro. O Vietname e o Bangladesh, os dois candidatos mais populares a serem a “próxima China”, foram responsáveis por 6,5% e 5,7% das exportações mundiais de vestuário em 2021, ainda muito atrás da China (32,1%). Curiosamente, de 2015 a 2021, os quatro maiores exportadores de vestuário do mundo atrás da China, ou seja, o Bangladesh, o Vietname, a Turquia e a Índia, não ganharam substancialmente quota de mercado. Em vez disso, o mercado perdido pela China foi preenchido pelo “resto do mundo”.

«Estudos recentes mostram que muitas empresas de moda voltaram à estratégia de diversificação de sourcing em 2022, à medida que a gestão de risco e a melhoria da flexibilidade no aprovisionamento se tornam prioridades mais urgentes. Por outras palavras, o mercado mundial de exportação de vestuário pode ficar mais “lotado” e competitivo nos próximos anos», afirma Sheng Lu.

Sourcing regional ganha força

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Um último padrão apontado pelo professor revela que as cadeias de abastecimento regionais continuam a ser características críticas do comércio mundial de têxteis e vestuário. Vários fatores sustentam e moldam os padrões regionais de comércio de têxteis e vestuário. Primeiro, como a produção de vestuário precisa, muitas vezes, de estar perto de onde os materiais têxteis estão disponíveis, muitos países em desenvolvimento produtores de vestuário dependem fortemente de materiais têxteis importados, principalmente de economias mais avançadas da mesma região. Em segundo lugar, através da redução das barreiras comerciais, os acordos regionais de comércio livre também encorajaram financeiramente os produtores de vestuário, particularmente na Ásia, na UE e no Hemisfério Ocidental, a usarem materiais têxteis produzidos local ou regionalmente. Além disso, o interesse das empresas de moda no near-shoring está a apoiar o desenvolvimento de cadeias de abastecimento regionais e os respetivos fluxos comerciais de têxteis e vestuário entre os países vizinhos.

Nesse sentido, o padrão regional de comércio de têxteis e vestuário na UE (ou o chamado comércio intra-UE) está em «boa forma», descreve o professor. Em 2021, 50,8% das importações de têxteis dos países da UE e 37% das importações de vestuário vieram de outros membros da UE. «Este padrão mudou pouco na última década, graças ao empenho de muitos países da UE em manter a produção local de têxteis e vestuário, em vez de fazer outsourcing», conclui Sheng Lu.