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O que planeia Boris Johnson para o retalho?

O novo primeiro-ministro do Reino Unido promete ajudar «a salvar a high street britânica» da invasão das compras online. Contudo, com a crescente possibilidade de uma saída da União Europeia sem acordo, a indústria da moda do país está a questionar que importância dá realmente Boris Johnson ao retalho.

Boris Johnson

«Este é o momento Donald Trump do Reino Unido», afirma Fergus Patterson, diretor geral para a Europa do Norte da Gant, à Drapers. «Será que estamos sequer no radar de Boris Johnson, relativamente às reformas das taxas sobre propriedades não residenciais ou estará a pressionar os senhorios a pensar de forma diferente acerca do cálculo das rendas? Não acredito que [as empresas britânicas] estejam na sua agenda do futuro próximo», acrescenta.

Segundo noticia o Sourcing Journal, Boris Johnson revelou um plano, com três desígnios, para potenciar o crescimento das lojas físicas, ao introduzir reformas que permitam facilitar a “mudança de uso” das propriedades, o que poderá aumentar as oportunidades para os senhorios e potenciar a adesão às lojas.

O primeiro-ministro britânico também propôs libertar as empresas das taxas sobre as caixas multibanco, para que os compradores possam retirar dinheiro sem pagar mais por isso, assim como dar «um uso imediato» ao Future High Street Fund, de 675 milhões de libras (aproximadamente 732 milhões de euros), para ajudar as lojas da high street e os centros comerciais de toda o território britânico. «As high streets são uma parte essencial do Reino Unido, mas têm estado sob uma grande pressão devido ao crescimento das compras online, especialmente em áreas mais rurais», referiu Boris Johnson, em junho. «Temos que ter uma visão arrojada para rejuvenescer as nossas lojas e garantir que continuam a existir sítios onde as pessoas querem ir, encontrar-se e gastar o seu dinheiro», apontou.

Na verdade, um em cada cinco libras gastas em compras britânicas são agora despendidas online. Dados recentes do gabinete de estatísticas do Reino Unido revelam que as compras digitais representam um máximo histórico de 18,2% de todas as vendas no retalho. O encerramento de lojas físicas este ano – até ao momento foram 50.828 – atingiram máximos dos últimos cinco anos, segundo a Local Data Company. «Quando sairmos da União Europeia (UE), a 31 de outubro, poderemos proceder a estas arrojadas mudanças. As lojas físicas são o coração de muitas cidades de todo o país – um espaço para as pessoas se encontrarem e apoiarem os negócios locais. É uma oportunidade extremamente entusiasmante dar uma nova vida à nossa comunidade e devemos agarrá-la com as duas mãos», assegurou Boris Johnson.

Consequências de uma saída sem acordo

No entanto, um Brexit sem acordo, do qual Boris Johnson parece ser adepto, poderá significar um desastre para a indústria de moda britânica, que vale 32,3 mil milhões de libras e emprega 890 mil pessoas. Uma pesquisa da Walpole mostra que a saída da UE sem acordo iria significar que a indústria da moda de luxo do Reino Unido iria perder cerca de 6,8 mil milhões de libras por ano, ou seja, um quinto do seu atual valor de exportações. «Sair da UE sem acordo significa não apenas que as taxas e a burocracia envolvida no envio de artigos para o bloco europeu iria mudar de um dia para o outro, como também alteraria os acordos comerciais do Reino Unido com o resto do mundo», sublinhou, em março, Caroline Rush, CEO do British Fashion Council, à GQ. «Já perdemos postos de trabalho e investimento da UE no Reino Undo devido ao Brexit», afiançou.

Fergus Patterson

Outros agentes estão preocupados com a forma como o novo primeiro-ministro poderá prejudicar a evolução da negociação acerca das reformas das taxas sobre as propriedades não residenciais, que tem como objetivo reduzir os impostos sobre as mesmas, como em lojas e escritórios. «Os retalhistas empregam cerca de 3 milhões de pessoas no Reino Unido, fazendo desta a indústria o maior empregador do sector privado do país e o peso das taxas sobre propriedades não residenciais e outros custos colocam estes postos de trabalho e as high streets em perigo», explicou Helen Dickinson, CEO do British Retail Consortium (BRC), à Drapers. «Com o retalho a passar pelas maiores dificuldades da última década, o novo primeiro-ministro deve tomar medidas para apoiar uma reinvenção bem-sucedida dos espaços de retalho e as comunidades locais. Esperamos que a nova liderança se comprometa a uma revisão completa do falhado sistema de taxas sobre propriedade não residenciais e colabore com o BRC numa estratégia para potenciar a indústria do retalho nesta altura de grandes mudanças», defendeu.

Apesar das promessas iniciais, nas quais garantiu que os cidadãos da UE teriam o direito a viver e trabalhar no Reino Unido mesmo com uma saída sem acordo, Boris Johnson ainda não clarificou como irá ajudar as empresas, como as casas de moda e os produtores, que dependem de mão de obra qualificada europeia, a manterem os seus talentos dentro de portas. «Ouvimo-lo falar sobre um sistema extrajudicial», recordou o porta-voz do primeiro-ministro, recentemente, ao The Guardian. «Queremos que as pessoas estejam registadas e estamos a fazer um esforço para garantir que os seus direitos são protegidos», asseverou.