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O quotidiano do denim inteligente

O blusão de denim inteligente Levi’s Commuter x Jacquard by Google fruto da parceria entre a gigante da tecnologia e a marca de denim, e o respetivo anúncio publicitário foram dos principais atrativos da recente edição da Denim Première Vision, que decorreu nos dias 26 e 27 de abril, em Paris.

A feira apresentou várias inovações no campo das tecnologias wearable, como um casaco impermeável com faixas da proteção solar e um cabo num dos bolsos para carregar o smartphone ou jeans que regulam a temperatura corporal.

Outrora circunscrita ao vestuário e calçado de performance, auxiliando o utilizador no treino ou monitorizando a sua saúde e bem-estar, a nova tendência é que os designers possam transformar o vestuário casual, de uso quotidiano, com as novas tecnologias.

Nestes wearables, gestos simples, como tocar ou deslizar os dedos sobre a roupa, enviam um sinal para o aparelho móvel do utilizador, ativando funcionalidades, como silenciar chamadas ou enviar uma mensagem de texto.

A empresa de moda francesa Spinal Design, por exemplo, criou jeans que podem dar aos utilizadores direções sem que estes necessitem de consultar o telemóvel a cada nova interseção. «O utilizador insere um destino numa app (e) os sensores vão vibrar se este precisar de virar à direita, de virar à esquerda», explicou o diretor de inovação da Spinal, Romain Spinal, à agência noticiosa AFP.

Já em 2015, esta empresa de Mulhouse projetou um biquíni que informava as utilizadoras quando era hora de aplicar mais protetor solar. A peça está à venda por 149 euros e vem com um pequeno sensor ultravioleta destacável que, com a ajuda de um smartphone ou tablet, envia um “alerta” quando a pele precisa de mais protetor solar. O detetor é calibrado de acordo com o tipo de pele da utilizadora e com o bronzeado que esta pretende obter, e está «virtualmente desprovido de qualquer radiação», afirmou Spinal.

Os jeans da Spinal, produzidos em França, custam 150 euros e também têm capacidade de notificação via e-mail. «Vibrarão de forma diferente dependendo se a mensagem recebida é da família, dos amigos ou do trabalho, pelo que o utilizador não terá de verificar constantemente o e-mail nos fins de semana ou nas férias», revelou o diretor de inovação da Spinal.

A Google e a Levi’s, por seu lado, esperam lançar o seu blusão de denim ainda este ano, que custará cerca de 350 dólares (aproximadamente 319 euros), devido em parte ao seu tecido interativo. O Levi’s Commuter x Jacquard by Google resultou do Projeto Jacquard, iniciativa do grupo de Tecnologia e Projetos Avançados (ATAP) da Google e tem como objetivo superar as limitações da tecnologia wearable.

Pensado para ciclistas urbanos, o casaco permitirá aos utilizadores atender chamadas, controlar mapas e ouvir música através do toque numa das mangas, graças aos fios condutores do tecido. Estes fios, que combinam ligas metálicas finas com fibras naturais e sintéticas como algodão, seda e poliéster, podem ser tecidos numa vasta gama de tecidos e concebidos para se destacarem ou serem invisíveis, adaptando-se às aspirações dos designers. Para além de uma etiqueta destacável, o casaco interativo é lavável e durável. Além do mais, interage com a aplicação Jacquard, que permite ao utilizador personalizar a sua experiência, reproduzir música ou obter uma hora estimada de chegada a um determinado destino.

Batizado em memória de um mecânico francês que no século XIX construiu um tear inteiramente automatizado, a Levi Strauss foi a primeira parceira do Projeto Jacquard.

Preocupações ambientais

Usando tecido termorregulado e a microfibra popular no vestuário desportivo, a Vicunha Têxtil apresentou jeans que regulam a temperatura corporal do utilizador. Já a americana Cone Denim misturou denim com fibras de equipamentos usados em motocicletas – para melhorar a resistência do tecido.

No entanto, estas empresas reconhecem que o denim inteligente não pode ser só uma inovação, deve ser ambientalmente amigável. «O consumidor exige maior rastreabilidade e ecologia, especialmente quando se trata de denim, porque é um produto controverso», reconheceu Marion Foret, diretora de produtos de moda da Première Vision Paris. O denim é um produto «que nem sempre tem a melhor reputação, pelo que os fabricantes são forçados a usar processos mais ecológicos», como produzir denim com algodão orgânico ou reduzir a utilização de água e de corantes poluentes dos solos, acrescentou Foret.

Em consonância com estas exigências, a designer de moda holandesa Pauline van Wongen fabricou denim reutilizando jeans usados. Outros procuram manter os consumidores mais informados, como a produtora paquistanesa Artistic Fabric Mills, que desenvolveu uma aplicação para retraçar a história dos jeans.

Para alguns estudantes de moda, o futuro do denim não se esgota na tecnologia.

«Conectar jeans a um smartphone não é necessariamente o que queremos», admitiu Aurelia Martin, que estuda moda em Bruxelas. «Existem problemas que são mais preocupantes em termos de produção, corantes, algodão, longevidade e qualidade», apontou.