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O rasto azul da moda

Conduzido pelo ambientalista Mark Angelo, o foco do novo documentário River Blue – recentemente apresentado na Wear Conference 2017, em Toronto – é, como o seu título deixa perceber, o impacto da indústria do denim nos rios de geografias como o Bangladesh ou a China.

Através do olhar crítico do ambientalista Mark Angelo, o documentário segue os cursos de água poluídos na China, Índia, Bangladesh, Indonésia, Zâmbia, Inglaterra e EUA e cataloga as diferentes vias pelas quais estes são afetados pela indústria da moda.

Os rios tóxicos e poluídos, como River Blue clarifica, estão a deteriorar as condições de vida das populações próximas e, mais lentamente, o planeta.

São necessários aproximadamente 11.000 litros de água para fabricar um par de jeans, aos quais acrescem químicos essenciais à produção. Por outro lado, cada indivíduo tem, em média, sete pares, o que agrava o problema de sustentabilidade associado à produção. A par da indústria de denim, também os metais pesados utilizados no curtimento do couro são, muitas vezes, despejados diretamente nos rios em países nos quais a regulamentação ambiental não é tão severa ou devidamente aplicada.

Recorrendo a entrevistas com ambientalistas locais e a muitas imagens de rios tingidos ou cobertos de espuma, o documentário River Blue estabelece uma relação entre a indústria da moda e a crise ambiental enfrentada por alguns dos principais destinos globais de aprovisionamento.

«Os cursos de água estão a pagar o preço do desenvolvimento [económico]», afirma o consultor Stuart Bunn durante o documentário. «A posição que foi tomada … focada primeiro no desenvolvimento e na economia, foi tomada com o conhecimento total do que faria ao meio ambiente», acrescenta.

Os problemas

As preocupações ecológicas com a vida animal local são as mais óbvias. Em rios como o Buriganga, no Bangladesh, que muitas vezes serve como local de descarga para produtos químicos da indústria de vestuário do país, não há praticamente vida animal.

No entanto, há também impactos na vida humana a ter em consideração.

Mark Angelo conta a história de local que estava a limpar peixes – com os quais planeava alimentar a família ou mesmo vender no mercado – que havia encontrado mortos no rio devido a uma descarga química de uma fábrica.

As águas poluídas pelas fábricas de curtumes do rio Ganges, na Índia, são usadas para irrigar terrenos agrícolas nas quais se cultivam culturas para consumo humano.

Ambos os exemplos demonstram como os produtos químicos tóxicos podem afetar a flora e a fauna aquáticas e acabar por ser integrados na cadeia alimentar humana.

Contudo, o facto de grande parte dos danos serem causados a pessoas e em geografias afastadas dos clientes ocidentais que realmente consomem moda é particularmente relevante.

«Se todos neste planeta vivessem “à americana”, precisaríamos de oito planetas», assegura a designer de moda sustentável Nicole Bridger no documentário.

As soluções

Tendo em consideração a questão da sustentabilidade, as empresas estão cada vez mais conscientes da necessidade de implementação de práticas e tecnologias sustentáveis nas respetivas cadeias de aprovisionamento.

Várias empresas estão já a desenvolver tecnologias e processos que permitam reduzir o impacto da produção de denim sobre o meio ambiente e saúde dos trabalhadores da indústria. Gradualmente, estas unidades produtoras dedicam-se à criação de fibras mais ecológicas, assim como a corantes que necessitam de uma menor quantidade de água e produtos químicos mais seguros.

Não se limitando apenas à adoção de fibras mais sustentáveis, o desafio de produzir um método de tingimento que reduza o consumo de água é, também, prioritário.

Nos últimos 10 anos, três tecnologias mudaram completamente as possibilidades e a forma como os jeans são produzidos, pelo menos na Jeanalogia, empresa de tecnologia sustentável espanhola (ver Denim em transformação). Essas técnicas são o laser, o ozono e o eFlow, que permitem restringir os impactos ambientais do sector.

O uso da tecnologia a laser na criação de um denim de aspeto usado foi divulgado em 1999, em Itália. Atualmente, de acordo com a empresa espanhola, cerca de 25% da produção de jeans globais utiliza esta tecnologia e deverá atingir os 50% nos próximos dois anos.

A tecnologia Light Scraper da Jeanologia, lançada em 2015, confere diferentes efeitos a um tecido de denim através do simples pressionar de um botão e pode reduzir o tempo de lançamento do produto no mercado em cerca de quatro semanas. Esta tecnologia incorpora uma lixa virtual que substitui o processo manual, causadora de tendinite crónica, problemas musculares e dificuldades respiratórias nos trabalhadores, que é ainda extensamente usado na Ásia.

Já a tecnologia G2 Dynamic Ozone permite o branqueamento de jeans sem recurso a químicos. Criada na década de 1990, foi adotada pela indústria de denim apenas em 2005 e é utilizada em 5% da produção de jeans. Esta tecnologia permite ultrapassar os obstáculos frequentemente associados às técnicas de branqueamento mediante a utilização de ozono.

A terceira revolução foi o eFlow, processo que transforma ar atmosférico em nanobolhas. Os químicos e a água distribuem-se naturalmente na superfície das bolhas, formando uma camada de nanobolhas. O eFlow atua como um veículo de transmissão das nanobolhas para o tecido ou peça de vestuário através de um método otimizado e eficiente, que utiliza uma quantidade ínfima de água.

River Blue estreou no dia 19 de novembro em 20 cidades globais e será lançado online no iTunes a 27 deste mês.