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O regresso da Mulberry

A estimular o retorno aos eixos do sucesso está a coleção de estreia do novo diretor criativo Johnny Coca, apresentada no passado fim-de-semana em Londres. A marca britânica adotou ainda a estratégia vigente no consumo de moda, proporcionando o acesso dos consumidores a alguns produtos numa questão de semanas.

A Mulberry está a tentar reencontrar-se com as suas raízes enquanto marca britânica de luxo de bolsas resistentes e elegantes, depois de uma investida em produtos com preços mais elevados ter levado a uma quebra nos lucros e à demissão do CEO e equipa criativa.

O primeiro desfile depois de dois anos turbulentos surge numa altura em que as marcas de moda estão a tentar encontrar abordagens alternativas de levar as roupas e os acessórios até ao consumidor de forma mais rápida e para os diferentes climas à volta do globo.

A Burberry e a Tom Ford (a francesa Vêtements apresentou depois uma tática semelhante) anunciaram este mês que iriam encenar apenas dois desfiles de moda por ano, com a apresentação simultânea das coleções feminina e masculina – posicionando-se de forma alternativa ao calendário tradicional da moda (ver Burberry com nova velocidade). A medida consubstancia-se num modelo “ver agora/comprar agora” destinado a uma geração de consumidores interessados ​​em comprar artigos vistos na passerelle no imediato e com recurso a dispositivos móveis.

As marcas de luxo estão assim a responder aos rivais da fast fashion, como a Zara, que encaminha para as suas lojas artigos inspirados nos produtos do luxo antes dessas mesmas coleções chegarem às prateleiras e sem as despesas acrescidas com diretores criativos e desfiles de moda. «O cliente entra na loja e diz “já vi isto e por menos dinheiro”», advogou Thierry Andretta, CEO da Mulberry, à agência Reuters. «Penso que todas as marcas vão estar a pensar sobre isto», acrescentou. «O anúncio de Christopher Bailey terá impacto sobre o pensamento das pessoas. Mas cada marca vai encontrar a própria solução».

A nova guarda da Mulberry

Thierry Andretta, um veterano na indústria da moda que tem no seu currículo marcas como a Lanvin e a Céline, foi contratado no ano passado para revitalizar a Mulberry. A sua estratégia é posicioná-la como uma marca britânica por excelência que faz produtos que oferecem “valor” por “dinheiro” – respondendo às críticas crescentes dos consumidores em relação à descartabilidade da moda. Andretta sublinhou ainda que a marca tem dezenas de artesãos disponíveis para a reparação das bolsas, serviço oferecido por um seletivo grupo de marcas luxo, como a Hermès e a Louis Vuitton.

Cerca de metade dos produtos da Mulberry são produzidos em Somerset por cerca de 600 trabalhadores qualificados, revelou o CEO da marca. Os restantes são produzidos também dentro da Europa. Andretta ajudou a Mulberry a contratar o designer espanhol Johnny Coca, ex-Louis Vuitton e Céline, cuja coleção de estreia – inspirada pela obra de Shakespeare – foi apresentada no domingo durante a Semana de Moda de Londres.

A Mulberry, conhecida pelas clássicas bolsas de couro castanhas inspiradas pela bolsa de um carteiro, foi fundada em 1971, em Somerset, no sudoeste da Inglaterra. A marca é designada segundo o nome da árvore pela qual o fundador, Roger Saul, passava todos os dias quando ia para a escola. Hoje, é detida em 56% pelo casal de bilionários de Singapura Christina Ong e Ong Beng Seng.

Os fabricantes de artigos de couro topo de gama como a Mulberry enfrentam atualmente uma forte concorrência de marcas mais acessíveis, como a Furla, a Longchamp e a Kate Spade, que oferecem aos clientes a aparência e sensação de luxo a preços mais baixos. A Mulberry perdeu muitos clientes quando o ex-presidente Bruno Guillon, vindo da Hermès, aumentou o foco em bolsas com preços mais elevados que chegavam às 1.800 libras (aproximadamente 2.327 euros), mais do que o dobro da média de preços praticados pela marca.

Atualmente, 70% das bolsas Mulberry tem um preço inferior a 1.000 libras, afirmou Andretta. A mini-bolsa Lily em pele natural custa 350 libras, enquanto as versões maiores custam 650 libras. A best-seller Bayswater ronda as 895 libras.