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O rei da caxemira “made in Italy”

Salva das ruínas hÁ 20 anos atrÁs por um empresÁrio utópico, Solomeo, uma cidade minúscula do centro de ItÁlia, abriga hoje uma das empresas líder no mercado da caxemira “made in Italy”, tendo sido capaz de aliar capitalismo e humanismo. Em 1985, Brunello Cucinelli, jovem proprietÁrio de uma pequena empresa de caxemira, comprou um castelo em ruínas para restaurar neste burgo medieval às portas de Pérouse, para onde transferiu, dois anos mais tarde, a sua actividade. Ateliers e escritório estenderam-se ao fim de algum tempo a uma dezena de outras casas de Solomeo. Brunello Cucinelli, que a imprensa italiana baptizou de o rei da Caxemira», emprega hoje 440 assalariados, colabora com 1.300 subcontratados na região de Ombrie e em 2007 facturou de cerca de 116 milhões de euros. Queria ter um local de trabalho um pouco especial, para explorar uma nova via e tornar mais humana a relação entre empregados e patrão. E assim voltar a dar ao trabalho a dignidade que lhe foi retirada», explica um sorridente Brunello Cucinelli, 54 anos. A empresa aboliu» também os títulos hierÁrquicos e o picar do ponto». Em Solomeo, quase todos os funcionÁrios têm a chave dos ateliers. Têm salÁrios mais altos do que a média. Acabam às 18 horas porque é preciso tratarem da sua alma» e do seu corpo fazendo desporto ou adquirindo mais cultura para não perderem a criatividade que cada um possui». E sobretudo, devem ter tempo para jantar na cantina da cidade onde, à volta de grandes mesas, um “exército” de funcionÁrios com camisolas de caxemira vem devorar, por 2,5 euros, os pratos confeccionados por cozinheiros locais. Podemos dizer que somos privilegiados, a nossa situação não é comparÁvel à que vemos noutros lados, os nossos salÁrios são mais altos, temos vantagens em termos de vestuÁrio… e trabalhamos com produtos sublimes», indica timidamente Patrizia, ligada ao controlo de qualidade. Temos necessidade de um pouco mais de humanidade, para podermos realizar belas obras em conjunto», resume Brunello Cucinelli, pontuando as suas frases com citações de Sócrates e Santo Agostinho, rolando entre os dedos mechas de lã em bruto, branca no caso da proveniente da Ásia, castanha para a que vem da Mongólia. Retirada da zona da garganta das cabras, onde o pêlo é mais macio, a caxemira chega em bruto da China e da Mongólia para ser fiada em ItÁlia, havendo a preocupação de controlar o mais a montante possível a qualidade das cerca de 755.000 peças produzidas por ano pela empresa. No centro do castelo do século XIV, imensas fotografias de cabras com pêlo longo parecem vigiar as longas prateleiras com rolos de lã colorida, que serÁ tecida a dois fios para camisolas em malha fina e até dez para camisolas mais grossas. Alguns trabalhadores tratam dos últimos detalhes das delicadas peças, enquanto que outros controlam a qualidade das peças recebidas de subcontratados, aos quais a empresa recorre cada vez mais devido ao aumento das encomendas. Com as suas luxuosas colecções – a loja da cidade não revela os preços – Brunello Cucinelli conseguiu implantar-se no pequeno nicho da gama alta italiana ainda com pouca concorrência, sobretudo por falta de know-how por parte dos exportadores chineses. Uma fórmula que o empresÁrio descreve de forma simples: basta apenas ser muito rÁpido e eficaz, propor um produto quase feito à medida, artesanal e de muito boa qualidade. E sobretudo que saiba “contar” a ItÁlia».