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O renascer da ITV em Angola

O conglomerado japonês de trading e investimento Marubeni Corp estabeleceu uma parceria com a consultora americana Werner International para juntos reabilitarem uma fábrica têxtil em Angola que irá produzir malhas e denim. Este projeto é parte integrante de um plano a longo prazo do governo angolano para restaurar a indústria têxtil e de vestuário do país, que sofreu um declínio considerável com a Guerra Civil do país, entre 1975 e 2002.

Angola está à procura de diversificar a sua economia para além do petróleo, analisa o just-style.com. Dados do governo relativos a 2015 revelaram que o petróleo representava mais de 95% das receitas de exportação e 52% das receitas do governo, deixando o país verdadeiramente vulnerável à queda dos preços mundiais do petróleo que marcaram os últimos 18 meses.

O aperto financeiro levou também o governo angolano a abrir negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que pretende ajudar a financiar um programa de crescimento económico no país. O FMI anunciou que iria «apoiar um pacote de políticas abrangentes para acelerar a diversificação da economia, salvaguardando a estabilidade macroeconómica e financeira».

O trabalho conjunto do Marubeni com a Werner International vem neste encadeamento. O grupo japonês está a trabalhar num contrato avaliado em 229 milhões de dólares (aproximadamente 207,8 milhões de euros) pelo Ministério da Geologia e Minas de Angola para conseguir que a unidade têxtil do Dondo, no centro de Angola, seja reativada.

«A unidade deverá produzir 2 milhões de t-shirts, 2 milhões de polos e cerca de 6 milhões de metros de denim por ano», afirmou Kuniyoshi Matsui, porta-voz do Marubeni, em Tóquio. «Angola foi atingida pela Guerra Civil e o seu negócio do algodão tem sido muito prejudicado», acrescentou, destacando que «o governo angolano tem procurado reavivar a indústria têxtil do país e criar postos de trabalho no sector da agricultura». O Marubeni foi convidado a participar no projeto desde a fase de planeamento, referiu ainda Matsui.

No âmbito do projeto, as instalações existentes estão ser alvo de uma renovação e modificação e a unidade de produção será equipada com um parque de máquinas de ponta para fiação, tecelagem e tinturaria.

O projeto industrial de Dondo é a terceira e última fase de um acordo entre o Marubeni e o governo angolano, com os projetos anteriores a envolver a restauração de unidades de produção em Luanda e Benguela.

Depois de a fábrica retomar a produção, o projeto permitirá que Angola reduza a importação de alguns produtos têxteis – para camisas e uniformes, toalhas e lençóis – e os substitua por artigos de produção doméstica.

Matsui revelou também que a fábrica pode empregar cerca de 1.000 pessoas quando estiver operacional.

Apoio japonês

O governo angolano tem vindo a cortejar a ajuda japonesa, numa altura em que procura reconstruir uma indústria têxtil e vestuário dinâmica. Em setembro último, o ministro da Administração Pública, Emprego e Segurança Social angolano, António Pitra Neto, congratulou-se com os benefícios sociais e económicos dessa assistência, quando recebeu 14 máquinas de costura da embaixada japonesa em Luanda, destinadas a três novas fábricas.

O ministro acredita que a investida poderá inspirar o desenvolvimento da formação profissional para que as novas unidades contem com pessoal qualificado – de acordo com Pitra Neto, as unidades vão empregar 3.500 pessoas. A iniciativa é boa, «não só para a diversificação do programa económico em curso, particularmente na indústria, mas também para o sistema nacional de formação profissional», sublinhou.

Legislação laboral

Pitra Neto indicou ainda que as iniciativas serão auxiliadas pela nova Lei Geral do Trabalho de Angola n.º 7/15, que entrou em vigor no passado mês de setembro. No que diz respeito aos contratos de trabalho, a legislação prevê uma contratação por tempo determinado, ao contrário da anterior. Os contratos oferecidos por qualquer empresa podem ser de até cinco anos de duração e para médias, pequenas e microempresas de 10 anos.

O governo angolano está também a adotar uma estratégia de desenvolvimento a longo prazo, batizada “Angola 2025” pelo Ministério do Planeamento e Desenvolvimento Territorial. Com esta estratégia, o governo compromete-se a aumentar as exportações de têxteis e vestuário, especialmente para os países vizinhos da África austral.

O plano refere que tal deve ser alcançado através da criação de clusters competitivos de produtores de têxteis e vestuário, além de cadeias de aprovisionamento domésticas eficazes, da substituição das importações, de benefícios e incentivos para impulsionar as exportações e de uma proteção em relação às taxas de importação.

Um documento da Organização Mundial do Comércio (OMC) relativo à política comercial angolana revelou que, em 2015, a média das taxas de importação para produtos têxteis em Angola foi de 9,5%, 12% no vestuário e 9,4% no calçado.