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O repto da sustentabilidade

A diversidade de sistemas agrícolas de algodão à escala mundial exclui o desenvolvimento de um plano global padronizado de sustentabilidade, revela um novo relatório.

O relatório “Medir a sustentabilidade nos sistemas agrícolas de algodão: rumo a um quadro de orientação” é o produto de três anos de esforço colaborativo do Comité Consultivo Internacional do Algodão (ICAC) e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). O relatório inclui uma lista de 68 indicadores que contemplam os principais pilares da sustentabilidade, mas – na sequência de discussões entre os diversos membros ICAC – afirma que os comités nacionais devem discuti-los e, em seguida, considerar um quadro para a realização de um teste piloto.

Nos comentários introdutórios, José Sette, diretor executivo do ICAC, descreve o relatório como um «gigantesco passo em frente na nossa compreensão dos inumeráveis componentes que fazem parte do conceito evasivo de sustentabilidade, quando aplicado ao mundo do algodão». Porém, Clayton Campanhola, diretor da divisão de produção e de proteção fitossanitária da FAO, adverte que «a diversidade de sistemas agrícolas em diferentes áreas geográficas, a especificidade dos desafios da sustentabilidade e da relação sinérgica entre os diferentes componentes da sustentabilidade impede o desenvolvimento de um projeto ou de uma abordagem única». Ao invés, afirma, o relatório enuncia «elementos-chave» que auxiliarão os diversos stakeholders na compreensão das possíveis ameaças à sustentabilidade, bem como dos mecanismos de medida e esforços de sustentabilidade de referência.

«[O relatório] fornece uma estrutura e uma linguagem comum para comunidades agrícolas que prosseguem o duplo objetivo de alcançar uma produção sustentável e melhoria de vida», resume Campanhola. O relatório argumenta que a padronização de indicadores de sustentabilidade irá melhorar a capacidade da indústria de entender, reportar e melhorar o seu desempenho social, ambiental e económico. Uma lista internacionalmente acordada de indicadores poderá auxiliar a avaliação atual de desempenho da sustentabilidade e, simultaneamente, rastrear melhorias futuras. No entanto, a lista de 68 indicadores «não pretende ser uma lista global absoluta», a ser utilizada por todos os países produtores de algodão, nem tão pouco pretende estabelecer uma lista de níveis de «aprovação/reprovação», ou avaliar os méritos das estruturas de sustentabilidade e iniciativas existentes.

«O foco deve estar sobre a monitorização de melhorias contínuas, utilizando padrões acordados, para os quais este relatório fornece uma estrutura», refere o documento. «Pela sua própria natureza, a sustentabilidade é um alvo em movimento e é difícil, se não impossível, defini-la conclusivamente. No entanto, este relatório apresenta o estado da arte atual, no que diz respeito à aferição da sustentabilidade do algodão, que esperamos que venha a melhorar a vida de cerca de 250 milhões de pessoas em todo o mundo, envolvidas na produção desta cultura valiosa», explica Sette. Na elaboração dos 68 indicadores, o relatório abrange os três pilares da sustentabilidade – ambiental, económica e social – que, por sua vez, se dividem em diversas temáticas. A categoria ambiental inclui o controlo de pragas e pesticidas, a gestão da água e do solo, biodiversidade e uso da terra e, por fim, a mudança climática.

A temática económica envolve a viabilidade económica da produção, a redução da pobreza, segurança alimentar e gestão do risco económico. Os temas sociais contemplam os direitos e normas laborais, a saúde e segurança do trabalhador; equidade e género, e organização de agricultores. A iniciativa baseia-se, simultaneamente, num inventário de indicadores retirados de cinco programas de algodão: o Better Cotton Initiative (BCI), Cotton Made in Africa (CMIA), Fairtrade Cotton, Organic Cotton e o programa australiano myBMP, bem como quatro programas mais amplos de agricultura sustentável.