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O sacrifício da moda

Nem toda a publicidade no mundo da moda é boa publicidade, por isso o site de Internet de Tommy Hilfiger tem uma secção chamada “Práticas Globais de Trabalho”, e é também por isso que a Gap Inc, o grupo que detém a Gap, Banana Republic e Old Navy, tem uma secção chamada “Responsabilidade Social”. Tal como muitos outros retalhistas e produtores de vestuário, enfrentam a realidade de terem lucros à custa da exploração dos seus trabalhadores em países em vias de desenvolvimento. A Nike, por exemplo, foi acusada de usar crianças para trabalhar no Cambodja; a Adidas de usar o trabalho de prisioneiros na China; a Benetton de usar crianças na Turquia. Apenas o segmento de luxo, na sua maioria, escapa a tais críticas, como a Hermés, cujas carteiras são fabricadas à mão em França, e os vestidos da Moschino são feitos no norte da Itália.

 

Mas as marcas de luxo podem pagar o uso de mão-de-obra mais cara nos seus próprios países. Marcas menos exaltadas (e ainda, algumas das linhas mais baratas das marcas de luxo) não o conseguem. No mercado de gama mais alta, a aritmética comercial permite uma certa dose de liberdade. Por exemplo, designers como Proenza Schouler define um preço para a Barneys que é o dobro do custo do trabalho e materiais; a Barneys depois vende às lojas por um preço 2,6 vezes superior ao que pagou a Proenza Schouler. E porque o consumidor final está disposto a pagar dois mil dólares pelo vestido, toda a gente fica feliz. Mas, se formos para o mercado de gama mais baixa, à Gap e Macy’s na América, ou Top Shop na Grã-Bretanha, ou Printemps em França, o que conta, essencialmente, para o público é na maioria das vezes, o preço. Daí, a competitividade entre os retalhistas e os produtores de forma a encontrar o fornecedor mais barato, que é o mesmo que dizer, os trabalhadores mais baratos.

 

Um operador de máquina de costura em Bangladesh, por exemplo, terá direito, por lei, a ganhar um salário mínimo mensal de 18.53 dólares. Nas Honduras, um trabalhador da indústria exportadora terá direito a um salário mensal de 139 dólares por mês. Em Guangdong, uma província da China, o salário mínimo é de 63.75 dólares.

 

Quando se comparam estes salários com o salário mínimo dos Estados Unidos, que é de 893 dólares por mês, com 40 horas de trabalho semanais, não é de admirar que tantas empresas americanas tenham mudado a sua produção para estes países. Após 150 anos de negócio, a empresa Levi Strauss, por exemplo, já não produz jeans na América. Incapaz de pagar 12 dólares por hora, encerrou a sua última fábrica nos Estados Unidos, em Janeiro. No entanto, nos anos 80 a Levi’s tinha mais de 60 fábricas nos Estados Unidos.

 

Mas, esta pressão relativamente aos custos não afecta apenas as empresas americanas. Um estudo recente, elaborado pela francesa CEPII, calculou que o custo de mão-de-obra para produzir uma camisola em França, para o mercado francês ficaria por mais de metade do custo final da mesma. Se a mesma camisola fosse produzida, aqui, em Portugal, o custo ficaria abaixo de metade mas, se esta fosse produzida na China, o custo da mão-de-obra ficaria em cerca de 28 por cento do total. Mesmo com as taxas e custo de transporte, o custo da camisola na China ficaria a menos de metade do que produzida em França.

 

O problema maior que as empresas do primeiro mundo enfrentam ao procurar fornecedores no terceiro mundo, é o risco de prejudicarem a sua imagem, logo, as suas vendas. No passado mês de Dezembro o Comité Nacional do Trabalho – National Labour Committee (NLC), sediado em Nova Iorque, acusou Sean Combs de usar uma fábrica nas Honduras para fabricar as suas t-shirts da marca Sean John. Uma das trabalhadoras da fábrica das Honduras, chegou a dizer que os trabalhadores eram pagos apenas a 24 cêntimos por cada t-shirt de 50 dólares; podiam ir apenas duas vezes por dia à casa de banho; tinham de fazer horas extraordinárias sem ganhar; não podiam formar um sindicato; estavam proibidos de falar uns com os outros e eram obrigados a fazer testes de gravidez, HIV, diabetes e anemia. Os que tivessem testes positivos eram despedidos.

 

O dono da empresa negou tudo e o ministro do Trabalho das Honduras considerou as afirmações da trabalhadora como exageradas. No entanto, o ministro mandou investigar a empresa e prometeu cortar todas as ligações com a mesma, se fossem provados quaisquer comportamentos errados. Não fez, como é lógico, nenhum favor aos trabalhadores.

 

A NLC recomenda que as empresas de países ricos deveriam persuadir os seus subcontratados estrangeiros a e reformular e respeitar os padrões razoáveis de trabalho. Daí, o código de “Responsabilidade Social” da Gap, que foi introduzido após a revelação, pela NLC, em 1995 de que os trabalhadores da América Central estavam a ganhar apenas 12 cêntimos por cada camisola de 20 dólares da Gap, que fabricavam.

 

Actualmente, a Gap tem mais de 90 agentes, na maioria das vezes recrutados pela NGO, de forma a informar-se sobre possíveis fornecedores e assegurar-se que têm padrões de trabalho decentes. No ano passado conduziram mais de 13 mil inspecções em 3.000 empresas em 50 países. «Quando encontramos um problema», afirma a porta-voz da empresa, «tomamos medidas. Na maioria dos casos, trabalhamos com as empresas de forma a melhorar as práticas e condições. Mas se não melhorarem, deixamos de trabalhar com eles». No ano passado 120 empresas deixaram de trabalhar com a Gap. 

No entanto, estas fábricas vão cortar nos preços e conseguir contratos com outras empresas americanas ou europeias. A realidade é que há uma corrida para conseguir contratos, e o ritmo deverá acelerar no próximo ano, altura em que os membros da OMC acabarem com as quotas nos têxteis e vestuário. Com vestuário importado, que deverá ser cerca de 15 por cento mais barato, os consumidores ricos terão motivos para sorrir. Mas quem não irá sorrir, serão com certeza os pobres que fazem as roupas.