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O sucessor de Marc Jacobs

Era um rumor e agora é uma certeza. A Louis Vuitton confirmou o francês Nicolas Ghesquière como substituto do norte-americano Marc Jacobs. O ex-diretor criativo da Balenciaga, pertencente à rival Kering, «vai trazer uma visão criativa moderna às coleções femininas da casa, com base nos valores de refinamento, know-how e qualidade extrema, que norteiam a Louis Vuitton desde 1854», afirmou a marca de luxo. «Compartilhamos uma visão e valores comuns. Mal posso esperar por me juntar à equipa», sustentou, por seu lado, Ghesquière. «Juntos, vamos construir o futuro da marca, preservando a sua preciosa herança», acrescentou. A primeira coleção feminina assinada pelo novo diretor criativo da LV será apresentada na passerelle parisiense em março de 2014, nos desfiles de pronto-a-vestir femininos para o outono-inverno 2014/2015. Marc Jacobs deixou a Louis Vuitton no mês passado depois de uma carreira de 16 anos à frente dos destinos criativos da casa de moda francesa. Sob a sua liderança, a marca tornou-se símbolo supremo do luxo, especialmente no mercado asiático, onde a “Vuittonmania” provoca frequentemente longas filas de clientes à volta das lojas. O criador de moda norte-americano deverá agora concentrar-se na marca epónima, na qual a LVMH detém igualmente uma quota, e preparar a entrada da mesma em Bolsa. Após a saída de Jacobs, a direção criativa da Louis Vuitton foi dividida em três: Kim Jones ficou responsável pelo vestuário masculino, Darren Spaziani pela marroquinaria de luxo e agora Ghesquière terá sob a sua batuta os desfiles, as coleções de pronto a vestir, acessórios e calçado para mulher. A Louis Vuitton representa mais de 70% das vendas anuais da divisão moda e artigos de couro da LVMH, que também inclui no seu portefólio as marcas Celine, Givenchy, Fendi ou ainda Kenzo. A Louis Vuitton é atualmente a marca mais rentável do império erigido por Bernard Arnault, com vendas estimadas em 7,3 mil milhões de euros no ano passado, mas desde então tem sentido dificuldades em gerar crescimento, nomeadamente na China. Deste modo, tem procurado reposicionar-se para melhor responder a consumidores de luxo com um nível de exigência em crescendo, que mostram cada vez menos apetência por logos e mais por produtos exclusivos sem logos. Serge Carreira, professor no Instituto de Estudos Políticos de Paris (IEP), em declarações à AFP, considera que a chegada de Ghesquière constitui «um desafio para ambos os lados». «Para a Louis Vuitton trata-se de encontrar um novo impulso, transformar-se em profundidade para oferecer mais qualidade excecional, mais criação pura» com o objetivo de subir de gama, explica o especialista em luxo. «Para Ghesquière, o principal desafio será mudar de função, de criador para diretor criativo». Deverá assim «dar um novo impulso já que a herança de Marc Jacobs é rica e não negligenciável». Nicolas Ghesquière abandonou inesperadamente a Balenciaga em novembro do ano passado, depois de ter dado um novo fôlego à casa de moda ao longo dos 15 anos aí passados e construído uma reputação de designer prodígio e visionário com a sua moda vanguardista. O designer francês não virou todavia esta página da sua carreira profissional já que a marca detida pelo grupo Kering apresentou uma queixa no Tribunal de Grande Instância de Paris por violação do dever de confidencialidade depois da entrevista que Ghesquière deu à System Magazine, na qual denegria a Balenciaga. A casa de moda reclama, segundo a AFP, uma indeminização de sete milhões de euros ao seu ex-diretor criativo. Para além dos 32 milhões de euros pela compra das suas ações, Ghesquière recebeu cerca de 6,5 milhões de euros de indeminização por rotura de um contrato que proibia exatamente «qualquer declaração que pudesse prejudicar os interesses da outra parte». Autodidata desconhecido quando “recebeu” a herança de Cristobal Balenciaga aos 26 anos, Ghesquière amava repetir nos seus anos passados à frente dos destinos criativos da casa de moda que «o luxo é elitista, é uma noção a defender, o que é consistente com a exclusividade. Nunca um designer francês, ou europeu, tinha conquistado tão rapidamente o outro lado do Atlântico, a começar pela todo-poderosa editora da Vogue US, Anna Wintour. Em 2011, foi distinguido pelos seus homólogos norte-americanos como “International Designer of the Year”, ganhando a Karl Lagerfeld e a Alexander McQueen. Seduziu ainda atrizes como a francesa Charlotte Gainsbourg e a norte-americana Kirsten Stewart, que se tornaram imagens da Balenciaga. Ghesquière nasceu no norte da França em 1971, ano da morte de Coco Chanel. Apanhou o vírus da moda aos 14 anos e estagiou com Agnès B e Jean-Paul Gaultier, que se tornaria um dos seus “mestres”. Começou em 1995 na Balenciaga, desenhando vestidos para o mercado japonês e roupa de couro para a América do Sul e, dois anos depois, sucedeu a Josephus Thimister na direção criativa da casa. «Trouxe novas ideias, um olhar verdadeiro sobre o vestuário, sobre a silhueta», explica Serge Carreira, que destaca «o seu lado intransigente e virtuoso» e «a sua exigência». Nicolas Ghesquière é «alguém que sabe muito bem para onde vai», confiam, por sua vez, os seus próximos.