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O tempo da roupa que sente

O vestuário é muitas vezes apresentado como uma espécie de segunda pele. Contudo, por mais que a sua cor ou ajuste denunciem o utilizador, as roupas não reagem como a cútis. Entretanto, as diferenças têm vindo a ser esbatidas pela intervenção da Caress of the Gaze, uma peça impressa a três dimensões (3D) que responde às interações sociais.

Desenvolvida pela designer Behnaz Farahi durante a sua residência na oficina criativa Pier 9 da Autodesk, São Francisco, fisicamente, a peça faz lembrar um porco-espinho. «Foi inspirada pela contemplação do comportamento e das propriedades da pele», explica Farahi à Fast Company. «A ideia era criar uma pele artificial inspirada na natureza, com uma funcionalidade melhorada, o que poderia funcionar como uma extensão da nossa pele, proporcionando novas formas de interação entre o nosso corpo e o ambiente envolvente», acrescenta.

A peça – uma espécie de gola ou xaile – funciona graças a um algoritmo com tracking facial, que pode detetar o sexo, a idade e a direção do olhar da pessoa que a está a ver.

Dependendo de quem está a olhar, e de como olha, uma rede de malha interligada de Shape Memory Alloy (um material que tem memória e recupera a forma original) faz com que a peça de vestuário ondule, como se de um mecanismo de resposta da pele se tratasse. Por exemplo, a gola pode encolher timidamente sob um olhar crítico, ou pavonear-se à frente de um olhar apreciativo.

Farahi escolheu o olhar de espectador como mecanismo que desencadeia a interatividade do vestuário para destacar o seu papel na sociedade – um olhar pode comunicar respeito, atração, desprezo, raiva, afeto, humor, entre outras emoções.

A pele reage ao corar, ao arrepiar-se, ao aquecer e, no dia a dia, a roupa disfarça muitas dessas reações. A Caress of the Gaze, no entanto, chama a atenção para este tipo de feedbacks. «Para mim, o futuro da moda está na promessa de ser dinâmica e interativa com o utilizador», revela Farahi. «As tecnologias wearable estão a mudar a nossa noção daquilo que os nossos corpos podem fazer». Com isso, argumenta a designer, a moda está a transformar-se numa interface entre o corpo e ambiente circundante, facilitando novas formas de comunicação.

Além da exploração da interatividade na moda, Farahi criou a peça para mostrar como a impressão 3D está a permitir novos tipos de peças de vestuário. A designer afirma que, sem impressoras 3D, a forma e a morfologia da peça e o seu movimento teriam sido impossíveis de conseguir. «Acho que os avanços na impressão 3D vão permitir avançar [na moda] para lá da imitação de formas já presentes na natureza», possibilitando «uma compreensão mais profunda dos seus comportamentos».