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O triste estado da moda

Paris esteve muito movimentado com os shows bianuais de moda de alta-costura. A série de desfiles teve início a 24 de Janeiro e contou pela primeira vez com o estilista italiano Giorgio Armani. O movimento causado pelos inúmeros desfiles foi superado pelo burburinho gerado pela preocupação da indústria relativamente ao seu futuro. Os fashionistas europeus questionam por quanto tempo mais é que a alta-costura vai conseguir sobreviver. Com uma carteira de clientes cada vez menor e com cópias rapidamente disponíveis nas cadeias de lojas de vestuário que conseguem ter ciclos de produção rápidos, tornou-se quase impossível obter ganhos com o vestuário feito à medida.

Givenchy, Yves Saint Laurent, Versace e Valentino estão todos a registar perdas. A Chanel parece ser a única marca que continua a obter alguns ganhos. Após vários anos sem alcançar lucro a Ungaro está agora à venda e a 25 de Janeiro a Moët Hennessy Louis Vuitton (LVMH) vendeu a Christian Lacroix, outra marca em queda, a retalhistas americanos por um preço simbólico. A Prada dissociou-se de Helmut Lang depois de perdas constantes. Há dez anos atrás mais de vinte casas de alta-costura realizavam desfiles, actualmente apenas uma mão cheia delas pode continuar a promovê-los.

O ‘negócio europeu de trapos’ está em apuros há mais de cinco anos. Os grupos de artigos de luxo dependem de empresas com nomes sonantes. A Valentino, por exemplo, pertence à Marzotto, o maior grupo de vestuário e têxtil italiano; a Yves Saint Laurent pertence a Pinault-Printentemps-Redoute, o rival francês da LVMH.

No segmento inferior da cadeia a conjuntura também não é muito animadora. Os produtores dos mercados de massas também não podem sofrer perdas. As pequenas e média empresas na França, Itália e Espanha estão a diminuir a produção ou a deslocalizá-la e outras empresas tentam reduzir os custos fundindo-se ou baixando a qualidade dos seus produtos. Dúzias não sobreviveram e muitas mais têm a sua subsistência ameaçada.

Os efeitos da China

A causa principal dos distúrbios no mercado de massas é a China, uma vez que os produtores não podem igualar o baixo custo da sua mão-de-obra. Os efeitos podem ser devastadores, afirma Didier Grumbach, da Federação Francesa de Costura, a principal associação francesa de moda.

Com a liberalização do comércio dos têxteis no início deste ano a situação pode ainda piorar e os membros da União Europeia esperam um grande aumento das importações chinesas. Actualmente a UE é o maior exportador mundial de têxteis e o segundo maior exportador de vestuário. Em 2003 a indústria empregava 2,7 milhões de pessoas e tinha um volume de negócios de mais de 225 mil milhões de euros. No entanto, entre 2001 e 2003, as importações da UE de têxteis e vestuário chineses quase duplicaram, parcialmente devido à eliminação faseada das quotas iniciada há dez anos atrás. A OMC prevê que dentro de dois anos a China poderá controlar cerca de 50 por cento do mercado têxtil mundial.

Sede de mais de metade das empresas têxteis europeias, a Itália deverá ser o país que mais vai sofrer com a nova liberdade da China. Cerca de 50.000 empresas situam-se em Biella, Como e outras regiões italianas, sendo na sua grande maioria pequenos negócios familiares que empregam em média dez pessoas. Quase dois terços da sua produção são exportados.

Muitas das empresas já sentiram os efeitos. Fratelli Piacenza, uma empresa de caxemira situada na região de Biella, está a deslocalizar a produção para países de baixo custo. Outras empresas reduziram a produção e eliminaram postos de trabalho esperando-se assim que o desemprego no sector aumente ainda mais este ano. «A Itália está agora a passar a crise que a França sofreu há oito anos atrás», diz Mário Boselli, presidente da Câmara Nacional da Moda, a maior associação de moda italiana.

Na França, centenas de empresas encerraram entre 1993 e 2003, altura em que se perderam cerca de um terço dos postos de trabalho da indústria. Actualmente mais de 60 por cento das marcas francesas são produzidas no estrangeiro. A Kindy, um produtor de meias, começou a transferir parte da sua produção para o norte de África e Portugal nos anos 90. Agora pretende produzir ainda mais barato deslocalizando 30 por cento da sua produção para a China nos próximos três anos.

As associações de moda italiana e francesas são rivais de longa data, mas a 17 de Janeiro assinaram um acordo para minimizar o choque causado pelo fim das quotas têxteis. Pretendem colaborar na batalha conta a contrafacção e lutar por mais medidas para impedir o grande fluxo de importações têxteis de fraca qualidade.

O lobby mais eficiente da indústria é a Euratex, uma organização de comércio sedeada em Bruxelas. Durante os últimos meses tem lutado pela imposição de algumas medidas de salvaguarda, instrumento controverso usados para impedir a ‘invasão’ das importações chinesas. As cláusulas de salvaguarda foram inseridas no acordo que os EUA assinaram com a China em Novembro de 1999 como condição para a sua entrada na OMC. A Turquia decidiu usar as medidas de salvaguarda a 9 de Janeiro em 43 das categorias de têxteis chineses e a Argentina impôs recentemente quotas semelhantes nas importações de têxteis oriundas da China. A Euratex tem a certeza que muito brevemente surgirá um caso que invocará estas medidas na UE. Entre 2002 e 2003 as importações de anoraques da China aumentaram três a quatro vezes enquanto os preços caíram até 75 por cento. (As quotas relativas aos anoraques terminaram mais cedo do que noutros produtos).

Peter Mandelson, comissário europeu do comércio, tem se oposto até então à reimposição de restrições. Thierry Noblot, da União das Indústrias Têxteis (principal lobby da indústria francesa), afirma que a Comissão Europeia diz estar a trabalhar em linhas de orientação para a imposição de salvaguardas, contudo esta ideia está a ser transmitida já há três meses.

A própria China está a considerar impor restrições: estabelecer preços mínimos nalgumas exportações de vestuário e também impostos de exportação de 2-4 por cento nalguns têxteis, contudo nenhuma destas medidas deve surtir grandes efeitos. As empresas europeias têm de continuar a reestruturara-se para enfrentar o novo mundo têxtil, têm de se focar na qualidade e na inovação, as suas únicas vantagens competitivas sobre a China. A região italiana de Biella está a gastar 2,8 milhões de euros numa campanha de mercado para promover “a arte da excelência”.

A necessidade de inovação e excelência é também o melhor argumento para a sobrevivência da alta-costura europeia. Agora que Giorgio Armani esteve finalmente presente nos desfiles de Paris tem de repetir ininterruptamente a sua participação.