Início Destaques

O verde é o novo preto

O sportswear foi o foco escolhido pela Première Vision Paris, que acolheu milhares de compradores de 17 a 19 de setembro, mas foi a sustentabilidade que roubou as atenções nas coleções das produtoras de tecidos e malhas para o outono-inverno 2020/2021.

A conclusão é da própria organização do certame, que reuniu 56.154 visitantes e 2.056 expositores de todo o mundo em Paris. Um inquérito realizado junto apenas dos expositores na área Première Vision Fabrics revelou que a moda está a responder ao abrandamento económico e às incertezas internacionais com abertura e compromisso. Neste cenário mais cinzento, há ainda um ponto “verde” que brilha cada vez mais forte: as marcas estão empenhadas na moda sustentável.

Entre os mercados que manifestam mais interesse neste tipo de artigo, os expositores apontaram a França, a Alemanha e a Escandinávia, com compradores destes países aparentemente mais atentos a esta evolução. Nos diversos stands do salão de tecidos, as propostas sustentáveis marcaram pontos. A italiana Omniapiega destacou um poliéster reciclado biodegradável e certificado, enquanto a conterrânea Lisa referiu que as compras de materiais reciclados e sustentáveis são «uma realidade». A empresa apresentou uma coleção de tecidos de viscose EcoVero, poliéster reciclado e algodão com certificação GOTS ou BCI. «O interesse sentido durante o lançamento ficou claramente refletido na feira nos mercados de gama alta francês e italiano», revelou Sara Canobbio, assistente do presidente da Lisa.

Portugueses sustentáveis

João Abreu (Crispim Abreu)

Junto das empresas portuguesas de malhas e tecidos, a sustentabilidade deu igualmente cartas. «Temos muitos materiais ecológicos», confirma Helena Azevedo, administradora da Luís Azevedo & Filhos. «Já tínhamos nas coleções anteriores, mas agora reforçamos bastante», explica ao Jornal Têxtil.

«Obviamente o tema do momento são as fibras sustentáveis: algodões orgânicos e reciclados, poliéster reciclado e fibras como liocel e modal», aponta João Abreu, administrador da Crispim Abreu.

A empresa apostou em malhas mais pesadas e estruturadas, com novidades no design que prosseguem os desenvolvimentos realizados nas coleções anteriores.

«Os clientes já conhecem o nosso trabalho e, portanto, é a continuação. Temos novos desenvolvimentos, mas vão de encontro àquilo que temos vindo a fazer. Penso que os clientes estão satisfeitos com as novidades apresentadas», acredita.

Antonino Pinto (Trimalhas)

A verdade, sublinha Antonino Pinto, administrador da Trimalhas, é que «os reciclados e os orgânicos são produtos que têm de estar sempre presentes em qualquer coleção. A sociedade está muito preocupada com o ambiente em que vivemos, logo há um cuidado muito grande em utilizar produtos recicláveis».

Como tal, a coleção proposta pela produtora de malhas está focada nos artigos sustentáveis. «As pessoas estão a ter uma boa receção à nova coleção», afirma o administrador, mas ressalva que «os reflexos de uma coleção não podem ser medidos num espaço muito curto».

Novos materiais e processos

Mário Jorge Silva (Tintex)

A Tintex devotou a sua atividade à sustentabilidade e as novas propostas refletem isso mesmo. «Esta nova coleção tem a ver com a individualidade e, ao mesmo tempo, com o mundo que nos rodeia enquanto pertencentes a uma coletividade preocupada com a sustentabilidade e em, todos juntos, contribuirmos para a redução da pegada ecológica e para a reutilização», elucida o CEO Mário Jorge Silva. 95% das propostas da Tintex são sustentáveis, incluindo elastanos, algodões e poliésteres reciclados.

«Estamos também a lançar a nossa coleção Colorau, que é uma seleção de cores sem corantes químicos, apenas com extratos vegetais e produtos naturais», adianta. «Apresentámos aos clientes soluções, não é só apresentar malha, mas toda uma coleção-solução. Uma proposta em que se conta já a história, que toda a malha e acessórios são rastreáveis e são o mais sustentáveis possível: usam menos água, têm a certificação PETA e são também atrativos», destaca Mário Jorge Silva.

João Carvalho (Fitecom)

O mesmo conceito de sustentabilidade é transversal às propostas das produtoras de tecidos. «Hoje em dia, a palavra de ordem é ecologia», garante João Carvalho, CEO da Fitecom.  Como tal, dentro da coleção, que contempla cerca de 250 referências diferentes por estação, a produtora de lanifícios propõe agora uma linha sustentável. «É uma linha que pretendemos implantar e dar-lhe um brilho maior. Acreditamos que o futuro próximo passe muito por isto – neste momento a palavra “sustainable” é transversal a todo o mundo», assevera. Apresentadas em diversos certames, as propostas da Fitecom têm sido bem acolhidas. «O balanço que fazemos é francamente positivo. Aquilo que temos visto dos clientes, de uma forma geral, é que fazem uma seleção bastante alargada de artigos», confessa o CEO.

Carla Pimenta (Texser)

Embora focada no mercado algodoeiro, a coleção de tecidos da Texser inclui, para a próxima estação fria, a aposta na lã. «Apesar de já termos vindo a introduzir esta fibra, este ano é com mais força», indica a CEO Carla Pimenta. Entre as novidades da empresa estão a introdução de fios moulinés, chenille e bouclés, assim como a viscose Eco-Vero. «Estamos a introduzir fios orgânicos e a fazer a nossa certificação GOTS», afiança.

Embora a sustentabilidade seja um denominador comum, há outras tendências que estão também a marcar a evolução do mercado, incluindo a influência do sportswear e a diversificação de género, com as empresas portuguesas a investirem em servir melhor os segmentos de moda masculina e de moda feminina.