Início Notícias Mercados

Onda sul-coreana – Parte 1

Da música pop à cozinha, dos filmes à tecnologia, a Coreia do Sul está a ganhar relevância no mercado mundial, com as suas marcas de moda a alimentarem o fenómeno da expansão e da promoção da cultura do país um pouco por todo o mundo.

Kwon Ji-Yong analisa a multidão. Dezenas de milhares de fãs a gritar estão à sua frente, alguns empunhando cartazes a professar o seu amor, muitos com cabelo pintado num tributo ao ídolo e ainda mais a imitar o seu sentido de estilo. A multidão em delírio está expectante, presa a cada palavra que sai da sua boca, excitada com cada movimento que ele faz. É uma situação que o homem mais conhecido por G-Dragon experiencia várias vezes em casa, mas não estamos na Coreia do Sul: este é o terceiro dos concertos esgotados na AsiaWorld-Expo, em Hong Kong.

Há três anos, a revista Time chamou à pop da Coreia do Sul a sua principal exportação. Na altura, a afirmação provocatória podia ter sido desvalorizada como uma forma de chamar a atenção, esquecendo o sucesso das gigantes de consumo Samsung, LG e Hyundai. Contudo, à medida que G-Dragon e a sua banda, a Big Bang, vai desfiando os êxitos e os movimentos de dança em frente a 36 mil fãs em Hong Kong vestidos como as estrelas, a fazerem download das apps (cada um tem um jogo de marca com compras dentro da app) e a adquirir o merchandise, é claro que a pop coreana tornou-se uma obsessão cultural e comercial, com a moda cada vez mais no centro.

O exuberante Psy foi o Cavalo de Troia cultural, convencendo o mundo em 2012 a dançar o Gangnam Style. Mas talvez uma ilustração melhor do apelo mundial da pop coreana e da moda do país está na crescente popularidade do Kcon, um evento ao estilo das convenções que se realiza anualmente nos EUA e no Japão desde 2012. Este ano, o Kcon, onde atuaram as Girls Generation, Super Junior e Jun K, atraiu 90 mil pessoas, incluindo 58 mil pessoas aos espetáculos no Staples Centre em Los Angeles.

Depois da II Guerra Mundial, a Europa Ocidental ficou obcecada com tudo o que era americano: filmes do James Dean, rock ‘n’roll, saias rodadas para as raparigas e o look da brilhantina para os rapazes, hamburgers e Coca-Cola. Os historiadores descrevem esse período como “a Coca-colonização” da Europa e o seu poder de influenciar, embora não seja tão forte ou reverencial como no passado, ainda é muito visível. Algo semelhante à “Coca-colonização” está a acontecer na Ásia Oriental. Quer seja no cinema, no supermercado ou na televisão, é quase impossível evitar o poder do estilo da Coreia do Sul moderna.

A parte mais visível, audível e óbvia deste sucesso cultural tem sido a música e as modas que vêm com ela. As estrelas pop coreanas têm arrasado nos tops de Hong Kong e do continente e entrado no Ocidente, estando na frente de uma onda coreana ou Hallyu (um termo cunhado pela imprensa chinesa) na Europa e na América do Norte. Os designers coreanos estão também a dar cartas nas tradicionais capitais da moda, com o desfile Concept Korea, na última Semana de Moda de Nova Iorque a atrair a atenção para designers como Lie Sang-bong, Lee Suk-tae e Lee Ji-yeon.

O que começou com a pop transformou-se numa obsessão mundial com a televisão e o cinema coreanos. Uma moda que rapidamente se tornou numa tendência e depois num movimento. Superestrelas coreanas como Kim Soo-hyun, protagonista do programa My Love from the Star, está em outdoors gigantes a publicitar de tudo um pouco, desde automóveis a telemóveis em Hong Kong, Singapura, Xangai e Tóquio. Inevitavelmente, veio a moda. Os fãs queriam vestir-se como os seus ídolos coreanos.

«A Hallyu é indefinível sem a moda», considera a cantora Jiyul, da girlsband coreana Dal Shabet. «A moda influenciou a pop coreana de tantas formas, permitindo que celebridades, como eu, estivessem no seu melhor quando estão no palco. A pop coreana não estaria onde está hoje sem a moda», acrescenta.

As marcas ocidentais têm sentido a enorme influência de estrelas como Jiyul, com as vendas a aumentarem com simples fotografias no Instagram ou referências nas redes sociais. Muitas formalização a ligação e colaboraram em coleções especiais. A produtora italiana de calçado Giuseppe Zanotti, por exemplo, fez uma parceria com o G-Dragon, nomeado uma das 500 pessoas mais influentes no mundo da moda pelo Business of Fashion, para criar uma linha de loafers.

Este entrelaçar da moda, música, cinema e televisão permitiu que Seul se tornasse na cidade com mais influência em termos de moda e cultura da Ásia, tirando o título a Tóquio. Em termos de vendas online, a retalhista matchesfashion.com afirma que Seul superou Hong Kong como o maior mercado asiático e o terceiro maior mercado mundial.

A Chanel, sob a batuta de Karl Lagerfeld, deu mais provas tangíveis desta mudança para Seul em maio, quando revelou a sua coleção cruise para 2016 na capital sul-coreana. E a próxima Conferência Internacional de Luxo da Condé Nast terá lugar na cidade em abril.

Seul está, por isso, no centro das atenções e a moda coreana está a gozar o seu momento ao sol, mas o que é a moda coreana e como está a chegar ao mundo ficará para a segunda parte deste artigo.