Início Destaques

Onda sul-coreana – Parte 2

Para além da música e das estrelas de cinema e televisão, os designers de moda sul-coreanos estão a conquistar um lugar importante na cena mundial, graças à originalidade das suas propostas mas também a uma máquina de marketing bem oleada que conta com o apoio governamental.

O universo pop da Coreia do Sul ganhou relevância nos últimos anos, com artistas como Psy a conquistarem fãs em todo o mundo (ver Onda sul-coreana – Parte 1). Um fenómeno que está também alicerçado na moda e nos designers do país.

«Não percebo exatamente o que é ou porque é que as pessoas veem o que faço como “coreano”», afirma Kang Dong-jun, também conhecido como Kang D, o designer por detrás da marca conceptual D.Gnak e da linha de difusão D by D. «Algumas pessoas dizem que é o estilo de costura que é particularmente coreano, mas não tenho a certeza», acrescenta.

Para além de se focar numa paleta de cores mais escura e ser muito bem confecionada, a marca desafia as definições. Por exemplo, a mais recente coleção D by D (que está disponível, entre outros, na Harvey Nichols) compreende uma mistura de activewear inspirado numa viagem à Mongólia. Além disso, muitos dos principais designers do país estudaram moda fora da Coreia, o que faz com que tenham uma abordagem internacional ao negócio. Kang D estudou na Parsons School of Design em Nova Iorque, embora admita que não gostou particularmente da experiência, com a sua presença na cidade a coincidir com os ataques de 11 de setembro.

A estética do designer veterano Lie é marcadamente diferente da de Kang D. Com cores, padrões e laivos de excentricidade, a mais recente coleção de Lie, apresentada em Nova Iorque, incorporou hangul (caracteres coreanos), numa ligação da cultura com a moda contemporânea. Lee Suk-tae, que estudou em Paris e trabalhou na Christian Dior e na Soni Rykiel antes de criar a sua própria marca, a Kaal E Suktae, prefere designs estruturados e vanguardistas.

A influência de Seul na moda local é evidente na Aland, a loja multimarca coreana com uma flagship em Causeway Bay. Jovens fashionistas enchem a loja vasculhando os acessórios kitsch acessíveis e as propostas de moda desportivas-chique. A Aland foi uma das primeiras empresas a expandir-se no estrangeiro, tendo aberto três lojas em Hong Kong em menos de dois anos.

«A moda coreana costumava ser vista como a versão mais barata do estilo japonês», sustenta Cindy Yun, antes de enfatizar que uma definição de moda coreana não é necessário. A fundadora e diretora-executiva da empresa de retalho de moda e tecnologia Atria Style, que acaba de ser lançada em Hong Kong, em colaboração com a I.T.Yun, rapidamente se tornou uma produtora de sucessos na moda coreana. A sua empresa vende o trabalho de alguns dos maiores talentos da moda do país mas também ajuda a apresentá-los ao mundo.

«Quando se pensa em moda coreana, as pessoas têm muita dificuldade em defini-la. Se perguntar à pessoa média o nome de marcas coreanas, podem não conhecer nenhuma», afirma Cindy Yun. «É aí que entra a Atria Style. Temos mais de 200 marcas de designer com atratividade internacional e prontas a serem vendidas no estrangeiro, mas tudo é feito na Coreia», acrescenta.

«Estamos por detrás do styling de muitas celebridades coreanas», revela Yun, que gere a sua quinta empresa em 15 anos, desde que se formou no Fashion Institute of Tecnology de Nova Iorque em merchandising de moda. «Trabalhamos de perto com celebridades coreanas, desde os filmes populares à música pop. Basicamente, vestimo-los com marcas de designer coreanas. Por isso não somos só uma plataforma de retalho, somos também uma espécie de fornecedor de conteúdos», destaca.

Yun explica que a sua empresa consegue aproveitar o poder das celebridades coreanas, fundindo criação de conteúdos com negócio, criando apps que permitem ao consumidor ver um filme e, com apenas um toque no tablet ou no ecrã de uma televisão inteligente, encontrar imediatamente o que as estrelas estão a vestir e como podem comprar as peças.

Pessoas como Yun estão a remodelar a indústria de moda coreana para melhor competirem no estrangeiro, resolvendo questões na cadeia de aprovisionamento para as marcas mais pequenas e estabelecendo o que ela chama de cultura de «fast fashion de designer».

«Normalmente as marcas de designer produzem coleções primavera-verão e outono-inverno, trabalham num período de seis meses e a produção demora cinco a seis meses. Para os designs realmente estarem à venda demora entre seis meses e um ano. Mas para a fast fashion de designers coreanos, o tempo de produção é menos de 30 dias», sustenta Cindy Yun, acrescentando que admira o sucesso dos gigantes da fast fashion como a Zara, H&M e Uniqlo, mas acredita que têm falta de identidade.

A Atria Style tem tudo a ver com maximizar a tendência o mais rapidamente possível, sustenta a fundadora, e a sua visão é que pôr «a marca de identidade do designer na produção fast fashion» corresponde aos dados que ela tem sobre o comportamento do consumidor. Isto é, as pessoas querem o que veem, querem rápido e querem-no a um preço razoável.

«Hallyu e moda, lado a lado, contribuem para a economia coreana e dão oportunidades àqueles que estão fora da Coreia de conhecer melhor o país e a cultura», considera a cantora Jiyul, da girlsband coreana Dal Shabet.

Com todo este potencial para o crescimento mundial, gigantes da moda como o LVMH veem as vantagens de fazerem investimentos diretos na cultura pop da Coreia. No ano passado, a L Capital Asia, um veículo de investimento do LVMH, fez um investimento de 80 milhões de dólares (cerca de 72,6 milhões de euros) na YG Entertainment, uma das três principais agências de música na Coreia do Sul, que tem no seu portefólio Psy e G-Dragon. O acordo é mutuamente benéfico, com o LVMH a ter acesso direto a um conjunto de estrelas que têm a atratividade pan-asiática e bases de fãs leais e altamente sugestionáveis e a YG a ter mais um fluxo de rendimentos para as suas estrelas, a acrescentar a uma recente expansão aos produtos de beleza.

Este casamento da criatividade e comércio é enaltecido por um nível elevado de apoio governamental. Para além de apoiar a mostra Concept Korea na Semana de Moda de Nova Iorque, o Ministério da Cultura, Desporto e Turismo e a Korea Creative Content Agency têm ajudado os designers de moda e criativos a entrar em mercados externos com programas de formação e mentoria e apoio administrativo e legal. Em Hong Kong, o consulado coreano organiza um evento anual para mostrar os melhores talentos e produtos do país. Atualmente no seu quinto ano, o Festive Korea, que decorre até ao final deste mês de outubro, dá uma plataforma a designers emergentes como Woo Choo, que fez o seu primeiro desfile na PMQ este mês.

Depois de reconhecer a atual onda da Coreia, é preciso considerar se haverá o rebentar da onda, como aconteceu com o Japão. E não é de pôr completamente de parte a possibilidade da China eventualmente ditar o gosto na região.

«É difícil prever um mês ou ano definitivo em que esta tendência vai acabar, ou sequer se vai acabar», considera Yun, que tem como objetivo criar um ecossistema de moda autossustentável que consiga sobreviver às mudanças de tendências mas, por agora, está otimista. «Nesta altura o mercado é, na verdade, ilimitado e estamos apenas a lançar-nos», conclui.

Entre a muita oferta, três insígnias merecem uma atenção especial. A Beyond Closet é uma marca de vestuário de homem assinada pelo designer Ko Tae-yong, cujo interesse por tudo o que é americano é combinado com a alfaiataria clássica e toques de personalidade. Ko muitas vezes mistura peças mais preppy, como camisas Oxford, e camisolas com motivos como cachorrinhos.

A Pushbutton, por seu lado, é conhecida pela sua abordagem diferente à moda e é o reflexo do diretor criativo Park Seung-gun, ex-cantor pop e modelo que desistiu da escola de moda. Park gosta de jogar com as expectativas das pessoas e adora a cor.

Já Kathleen Kye é uma das designers que ganhou o respeito da crítica mundial através da plataforma Concept Korea na Semana de Moda de Nova Iorque. Formada pela Central Saint Martins, de Londres, Kye licenciou-se em vestuário de homem. Agora foca-se em vestuário de senhora mas mantém a preferência por silhuetas masculinas fortes.