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Onde mora a sustentabilidade?

É, por vezes, tentador subestimar a complexidade da sustentabilidade na cadeia de aprovisionamento de vestuário. Porém, ainda que não existam soluções simples, os atores da ITV defendem que podem ser alcançadas melhorias através da transformação social, colaboração e inovação.

As circunstâncias alteraram-se ao longo dos últimos oito anos no que diz respeito às questões ambientais da cadeia de aprovisionamento da indústria têxtil e vestuário (ITV). Os primeiros passos tomados nessa direção surgiram em 2007, com o lançamento da estratégia de sustentabilidade da cadeia britânica Marks & Spencer, a apresentação do esquema Bluesign formulado pela Patagonia e a introdução do Plano de Ação de Vestuário Sustentável pelo governo britânico.

Em 2010 foi criada a Coligação de Vestuário Sustentável, tendo sido simultaneamente formulada a campanha de eliminação de químicos nocivos presentes nas cadeias de aprovisionamento pela Greenpeace. Nesse mesmo ano assinalou-se o desmoronamento da fábrica Rana Plaza, no Bangladesh, que veio alertar para as fragilidades de segurança na ITV.

Neste contexto, John Mowbray, cofundador do grupo RITE (Reduzir o Impacto dos Têxteis sobre o Ambiente), destacou cinco desenvolvimentos fundamentais operados desde 2007: promoção de maior transparência na indústria; melhoramentos na gestão de químicos e inovação técnica; potencial de criação de modelos de produção fechados, que permitem a redução dos desperdícios; crescente valorização da responsabilidade social corporativa e pressão crescente sobre a indústria, resultante da aplicação de legislação ambiental.

Desafios verdes

Porém, a sustentabilidade no seio de uma indústria, não apenas no contexto da indústria da moda, tem um custo. Tomando o exemplo da indústria alimentar, um agricultor que aufere 1.234 euros por hectare de trigo, utilizando uma quantidade média de fertilizantes, criará um dano de 454 euros ao meio ambiente, incluindo o gasto de água e emissões de gases com efeito de estufa.

De acordo com o professor Tim Benton, campeão britânico de segurança alimentar global, o Reino Unido desperdiça cerca de um terço dos alimentos adquiridos. «Se tomarmos decisões de consumo mais acertadas, teremos muito a ganhar em vantagens ambientais», defende. «Não se trata de tornar os processos mais eficientes, porque continuaremos a destruir a Terra, apenas o estaremos a fazer mais lentamente. De alguma forma, temos de garantir que todas estas coisas estão integradas na nossa perspetiva sobre a sustentabilidade», explica.

E isso é algo que a indústria da moda pode aprender, afirma Benton, assegurando um aprovisionamento seguro das suas principais matérias-primas. Porém, adverte, não existe uma abordagem simples à sustentabilidade. «Em última análise, temos de reconhecer que há limites para o que a Terra pode proporcionar», acrescenta. Uma solução encontra-se na inovação. Benton acredita que existe uma necessidade de inovação mais sustentável, aplicada em campos tão variados como a agricultura, a manutenção de serviços ambientais, reutilização da água e redução da procura.

Inovação em circuito fechado

Em termos de inovação, a NIRI Technologies é uma empresa que tem investido significativamente no desenvolvimento de novas tecnologias têxteis, que facilitam a reciclagem e reparação de peças de vestuário, evitando que estas sejam conduzidas a um aterro.

Paralelamente, Sandra Roos, investigadora do sector de energia e ambiente, tem vindo a desenvolver um projeto destinado a melhorar a sustentabilidade da indústria de moda sueca. O projeto Mistra Future Fashion, que teve início em 2011, tem por base a integração do consumidor, design, tecnologia, cadeia de aprovisionamento e políticas, fomentando a aplicação de mudanças sistemáticas. «Pretendemos, efetivamente, transformar a indústria têxtil sueca e percebemos que temos de mudar», revela Roos, admitindo que a mudança está «interligada». Se as políticas forem alteradas, o comportamento do consumidor também mudará.

Ordem para colaborar

No entanto, a sustentabilidade deve fazer-se acompanhar de uma abordagem colaborativa. Os armazéns de retalho britânicos John Lewis oferecem 350.000 produtos, um terço dos quais sob marca própria. O aprovisionamento é efetuado em 53 países, cooperando com 1.600 fábricas. Os três principais mercados de aprovisionamento da marca, que reúnem 70% do total de unidades de fabrico, são a China, o Reino Unido e a Índia.

Destacando a complexidade deste panorama, Steven Crawley, diretor de sustentabilidade e responsabilidade de fornecimento da John Lewis, sustenta que «da nossa perspetiva, temos uma cadeia de aprovisionamento globalizada, o que dificulta a supervisão de tudo o que fazemos».

De forma a reduzir este impacto negativo, a John Lewis estabeleceu uma parceria com a Cotton Connect, uma empresa social que trabalha, de forma pioneira, na fomentação de uma cadeia de aprovisionamento de algodão transparente, tendo desenvolvido um programa destinado a aumentar a produtividade entre os produtores indianos de algodão de pequena dimensão.

Concentrando a intervenção no algodão utilizado no fabrico de toalhas e tapetes de banho, o programa já cooperou com nove aldeias da região de Gujarate, envolvendo 1.500 agricultores. O projeto pretende informar os agricultores sobre temas como a irrigação e os pesticidas naturais, auxiliando-os na escolha do algodão.

No últimos anos, a John Lewis tem executado o projeto e os agricultores envolvidos testemunharam já um aumento de 8% da produtividade e de 3% da eficiência no uso de água, assim como uma queda de 9% no uso de fertilizantes químicos.

Paralelamente, a VF Corp., proprietária da Timberland, The North Face e Vans, planeia fabricar 530 milhões de produtos este ano, somando 1,5 milhões de peças expedidas por dia. A empresa opera 30 instalações fabris, que produzem um quarto dos seus produtos, enquanto os restantes são fabricados por 2.000 fornecedores. «Operamos os nossos negócios num mundo transparente, tendo por base uma comunicação instantânea», afirma Sean Cady, vice-presidente de sourcing global responsável do grupo VF Corp.

Através dos programas ChemIQ e Lee ReThink, a empresa está a realizar avanços significativos ao nível da sustentabilidade. Desenvolvido em colaboração com outras organizações, incluindo o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais e a empresa Modern Testing Services, o ChemIQ permite a identificação e eliminação de substâncias químicas potencialmente prejudiciais das cadeias de fornecimento do grupo.

Paralelamente, o programa de denim Lee ReThink, aplicado em território chinês, utiliza Better Cotton e coopera com a organização não governamental holandesa Solidaridad na aplicação de processos ambientais responsáveis ​​em todas as fases de produção de jeans da marca. Em consequência, as calças jeans Lee ReThink utilizam menos 1.100 litros de água no processo de produção face aos jeans Lee convencionais.

O que se segue?

Os próximos cinco anos trarão mudanças significativas para a indústria da moda. Mowbray afirma que a legislação europeia relativa à temática adquire, atualmente, uma preponderância crescente e poderá superar algumas iniciativas da indústria. Porém, alerta, que embora antecipe uma diminuição do uso de químicos nas cadeias de aprovisionamento, a indústria será incapaz de alcançar o objetivo de exclusão de descargas nocivas imposto pela Greenpeace.

A fim de alcançar uma transformação sistemática na cadeia de aprovisionamento do segmento da moda, Roos acredita que a indústria deve alterar os modelos de mercado, bem como o comportamento do consumidor, melhorando a metodologia de avaliação do ciclo de vida, estabelecer rotinas para um design sustentável, melhorar os instrumentos de política e estabelecer mecanismos de produção têxtil sustentáveis. Isso, aponta, inclui a adoção de fibras têxteis e tecnologias de processamento têxtil ecologicamente eficientes.