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Ordem para diversificar

As estratégias de sourcing das marcas e retalhistas internacionais deverão mudar nos próximos tempos, face às dificuldades que enfrentaram, e ainda enfrentam, na gestão de stocks desde o início da pandemia.

De acordo com os resultados de um estudo da PriceWaterhouseCooper (PWC) com respostas de 305 diretores financeiros, muitas empresas estão a começar a pensar na recuperação do negócio e a ponderar mudanças para tornar as suas cadeias de aprovisionamento mais resilientes. 56% dos inquiridos consideram desenvolver fontes de sourcing alternativas e 54% tentam perceber a saúde financeira e operacional dos fornecedores. 38% pensam introduzir mudanças nos termos contratuais e 36% pretendem aumentar a visibilidade nas redes de aprovisionamento. 26% planeiam melhorar as medidas de proteção ao risco e a mesma percentagem equaciona a utilização de automação para melhorar a rapidez e precisão da tomada de decisão.

«As conclusões confirmam a ênfase em retirar o risco das cadeias de aprovisionamento, com as empresas a dar prioridade à saúde e fiabilidade da sua base de fornecedores entre as mudanças que estão a planear como resultado do Covid-19. Em particular, focam-se na gestão do risco relativo a elementos da oferta, como reduzir a vulnerabilidade estrutural com outras opções de sourcing», aponta o estudo.

A PWC indica, contudo, que «as deslocações físicas da cadeia de aprovisionamento irão acontecer apenas como último recurso, tendo em conta os custos envolvidos. No entanto, a automação de certos elementos da cadeia de aprovisionamento – para eliminar os esforços de seguimento de encomendas, que gastam muito tempo, e a verificação de estruturas de taxas, por exemplo – vai provavelmente tornar-se mais comum, à medida que as empresas procuram dados melhores para tomarem decisões mais informadas».

Especialistas da indústria da moda, como Mike Flanagan, CEO da Clothesource Sourcing Intelligence, já advertiram que o regresso da produção “a casa” não será uma opção. «Com a maior parte da produção para os mercados ocidentais atualmente na Ásia, cada nova mini-praga tem sido acompanhada por alegações de que haveria muito menos disrupção se abandonássemos cadeias de aprovisionamento complexas e trouxéssemos a produção para casa», refere num artigo publicado no just-style.com em março. «Não é uma proposta prática no futuro próximo: simplesmente não há capacidade de produção ou mão de obra qualificada em qualquer país ocidental», garante.

Regresso à Europa?

Alicia Garcia-Herrera, economista do think tank Bruegel, sustenta que «vão acontecer duas coisas: relocalização da produção para a Europa, que pode ser importante para Portugal e Espanha, e [da China] para países como o Vietname».

Edwin Keh, CEO do Hong Kong Research Institute of Textiles and Apparel e professor de operações na cadeia de aprovisionamento em Wharton, da Universidade da Pensilvânia, sublinhou, durante um webinar organizado pelo centro de inovação The Mills Fabrica, que «a disrupção na oferta foi muito rápida e muito súbita. A disrupção na procura foi igualmente célere e repentina. A recuperação de tudo isto vai também ser rápida e súbita». Não obstante, afiança, «embora tenha havido uma grande disrupção, todos os sistemas e infraestruturas que criámos estão intactos» e a única forma de rapidamente voltar ao negócio será que «toda a cadeia de aprovisionamento trabalhe em conjunto para que todos possamos sobreviver em conjunto». O desafio, destaca, «é pensar como um ecossistema – num ecossistema, toda a gente tem de trabalhar em conjunto e todos têm de tomar conta de todos. Por isso, mapeie a sua cadeia de aprovisionamento, as dependências da cadeia de aprovisionamento e depois comece a perceber como podemos apoiar-nos mutuamente para que todos ultrapassem isto em conjunto».

Ainda assim, assegurou, a pandemia terá acelerado algumas tendências já em curso, como a substituição da China e, eventualmente, a procura por cadeias de aprovisionamento mais simples e próximas. «As cadeias de aprovisionamento globalizadas são difíceis e complicadas», salienta. Edwin Keh acredita ainda que «devemos pensar em construir fábricas que a China não quer. Não é uma questão de pegar no que está num país e colocar o mesmo noutro. Temos uma ótima oportunidade para pensar em soluções do tipo da Indústria 4.0».

Os produtores enfrentam ainda o desafio, sobretudo no curto prazo, de analisar a capacidade financeira de marcas e retalhistas que colocam encomendas. Mike Flanagan realça que a única forma de um fornecedor evitar completamente o risco – quer com um cliente habitual ou um novo cliente – é asseverar que o comprador emitiu «uma nota de crédito confirmada e irrevogável. Nenhum outro sinal significa nada quando acontece um desastre».

Rosemary Coates, diretora-executiva do Reshoring Institute, uma colaboração entre a Universidade de San Diego e a Blue Silk Consulting, acrescenta que, no futuro, «os fornecedores devem manter-se muito próximos das previsões dos compradores e confirmar essa previsão regularmente. Neste ambiente, uma abordagem conservadora à produção é a melhor estratégia».