Início Notícias Mercados

Os antagonismos da China

Comércio eletrónico possante e censura apertada. A China tem vindo a olhar para a Internet de duas perspetivas opostas, considerando-a um elemento facilitador dos negócios e, simultaneamente, um potencial risco em termos ideológicos.

Liu Yunshan, o n.º 5 do Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista chinês, que reúne os principais decisores do país, não é conhecido como um guru da Internet ou como um homem capaz de influenciar o futuro de uma das grandes invenções da humanidade.

No entanto, Yunshan, de 69 anos, foi o palestrante principal da III Conferência Mundial sobre a Internet, evento organizado esta semana pelo governo chinês, na qual liderou o debate sobre a construção de “uma comunidade de futuro comum no ciberespaço”.

Na Conferência Mundial do ano passado, o presidente Xi Jinping lançou a ideia “da proteção da soberania do espaço cibernético”, um anúncio inequívoco de que Pequim intensificaria a censura e o controlo da utilização da Web.

Aos olhos da comunidade internacional, o Partido Comunista chinês tem vindo a igualar o seu controlo no mundo real no espaço virtual. O Império do Meio desenvolveu uma espécie de patrulhamento online, exigindo a autorização prévia para a realização ou transmissão online, e tem vindo a afastar “inoportunos” como o Google e o Twitter. Não obstante, a Internet é, também, um negócio em expansão e um estilo de vida na China, um país de 1,3 mil milhões de pessoas.

Literalmente, todos os chineses estão agora conectados através dos smartphones e as compras online, o pagamento eletrónico, os serviços móveis de táxi e os serviços de entretenimento virtual em Pequim e Xangai estão tão difundidos e sofisticados como os de Nova Iorque ou Tóquio. As empresas chinesas de serviços online, incluindo Alibaba e Tencent Technologies, por exemplo, surgem entre as maiores e mais poderosas do mundo.

Com estas medidas rigorosas, os líderes partidários comunistas esperam facilitar os negócios online e manter, simultaneamente, um rígido controlo ideológico. «A China vai continuar a exercer um papel de liderança no ciberespaço», afirmou Zhang Lifan, um historiador e analista político sediado em Pequim, ao Bloomberg. «Mas é improvável que atinja resultados concretos, já que a maioria dos países desenvolvidos evita a conferência», ressalvou.

A maioria dos visitantes estrangeiros chega de países em desenvolvimento e sente-se a ausência de membros de empresas globais, como o Google, a Apple ou o Twitter.

Ainda assim, multinacionais como a Microsoft, IBM, Qualcomm, Amazon ou Linkedin e as chinesas Lenovo, Alibaba, Baidu ou Tencent estavam entre os participantes da conferência.

Cibergovernação

A III Conferência Mundial sobre a Internet teve como principal objetivo «o reforço da cooperação internacional», para se conseguir lidar com uma «situação económica mundial complicada, os seus riscos e os seus desafios», explicou Ren Xianliang, vice-diretor da Agência de Administração do Ciberespaço da China, um mês antes do evento.

Nos últimos anos, a China tem tentando fechar um acordo com os participantes da conferência sobre “cibergovernação”. Este acordo daria o reconhecimento internacional à forma como Pequim tem gerido o acesso à Internet, mas os observadores não se mostram otimistas de que tal terreno comum possa ser encontrado. Huang Chengqing, vice-presidente da Sociedade da Internet da China, considera improvável que Pequim possa conseguir qualquer tipo de acordo com os países participantes na Conferência Mundial.

O Fórum Anual sobre cibergovernação, outro encontro global com uma participação mais ampla, nunca chegou a consenso desde a sua criação em 2006, analisou Chengqing. «Diferentes países têm diferentes entendimentos sobre o que é informação prejudicial, porque têm diferentes religiões e valores ou estão numa fase diferente de crescimento», sublinhou.

Xu Longdi, do Instituto de Estudos Internacionais da China, também duvida da capacidade da China em promover o seu sistema junto de outros países. «É uma boa tentativa para estabelecer uma plataforma, para convidar as pessoas a falarem sobre as suas opiniões e para mostrar-lhes uma China aberta e cooperativa. Mas precisamos de tempo para ver se isso pode ser aceite por outros», referiu.

Todavia, em última análise, a verdade é que os cortes nos fluxos de informação prejudicam seriamente as atividades económicas. Por exemplo, a controversa lei chinesa sobre cibersegurança, que entra em vigor em junho de 2017, exige que as empresas armazenem dados importantes em servidores do governo e entreguem códigos encriptados às autoridades e pode afetar significativamente a posição do país em termos de indústria 4.0, de acordo com o embaixador alemão na China, Michael Clauss. «O acesso rápido, seguro e transnacional à Internet é um fator decisivo para o crescimento económico e para a inovação. Mas o ambiente digital na China está a tornar-se tão restritivo que os observadores estão a começar a falar da “maior intranet do mundo”», admitiu Clauss.