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Os bilionários da fast fashion

Tecnologia e petróleo – quando se trata de encontrar grandes fortunas, é dentro destas duas indústrias que a procura começa. Mas o vestuário, sobretudo o barato, tem demonstrado ser o verdadeiro viveiro das famílias mais ricas do planeta.  

Stefan Persson, presidente da H&M e membro da família que detém a marca, é a pessoa mais rica da Suécia, gerindo, a 1 de agosto, uma fortuna de 20,2 mil milhões dólares (aproximadamente 18,04 mil milhões de euros), segundo a Forbes.

No Japão, a maior fortuna não está na eletrónica ou no sector automóvel, mas na conta bancária de Tadashi Yanai, fundador da Fast Retailing, na qual a Uniqlo tem um peso de 80% nas vendas. Yanai soma 17,1 mil milhões de dólares e manteve a sua posição como o mais rico do país, apesar de, no ano passado, a sua fortuna ter sentido uma quebra de 4,8 mil milhões de dólares.

Depois, há Amancio Ortega, fundador do grupo Inditex, que não é apenas a pessoa mais rica de Espanha, mas da Europa. A fortuna de Ortega está avaliada em 75,1 mil milhões de dólares e coloca o homem forte da Zara em segundo lugar na lista dos mais ricos do mundo, sendo que, no ano passado, Ortega chegou a suplantar Bill Gates no pódio.

A família Brenninkmeijer, detentora da C&A, é apresentada como a mais rica da Holanda e, na Irlanda, os Westons, proprietários dos grandes armazéns Selfridges e da retalhista de moda rápida Primark, levam o título para casa há oito anos consecutivos.

O vestuário, sendo uma necessidade básica, vai sempre ser um grande vendedor. Contudo, as fortunas feitas por estas marcas são reveladoras, considera a Quartz. Todas vendem moda barata alinhada com as tendências. Os básicos da Uniqlo podem ser uma exceção, mas estão já a adotar algumas táticas da fast fashion, copiadas da marca irmã GU.

O seu sucesso deve-se, em grande parte, ao facto destas retalhistas serem mais rápidas e mais baratas do que a concorrência – algo conseguido recorrendo a algumas estratégias eticamente condenáveis. Ainda assim, alargando o escopo de análise, a moda rápida encaixa-se numa mudança motivada pelas novas tecnologias na mentalidade dos consumidores, na opinião de Vicki Cantrell, CEO da Shop.org, a divisão digital da National Retail Federation. «Nos velhos tempos, mas não há muito tempo, se fosse mulher, o consumidor iria gastar o dinheiro necessário num vestido preto realmente perfeito. Porque poderia usá-lo muitas vezes», afirma. Porém, devido à democratização no acesso à Internet e ao domínio das redes sociais, os consumidores estão constantemente expostos a imagens de moda, incluindo imagens de passerelle e novas tendências. Colocam, também, fotografias suas em diferentes plataformas e não querem ser vistos com a mesma roupa em várias imagens. Deste modo, a fast fashion, explica Cantrell, permite-lhes agora comprar os produtos que encontram nos seus feeds de forma rápida, sem para isso terem de gastar muito num artigo que consideram um “tesouro temporário”.

Esta nova realidade faz com que os consumidores saibam que uma loja como a H&M vai vender apenas o que está na moda, gerando fidelidade, o que por sua vez permite que a retalhista sueca expanda as vendas para outro tipo de linhas.

A CEO da Shop.org acredita ainda que uma mudança de mentalidade semelhante levou ao pico dos grandes armazéns em 1960 e 1970. A migração da classe média para os subúrbios criou as condições necessárias para que as grandes lojas e shoppings, que permitiam que os clientes comprassem tudo dentro do mesmo espaço, proliferassem. «Não se deve apenas a uma cadeia de aprovisionamento rápida e a preços mais baixos. Tem muito a ver com a mentalidade do consumidor», conclui Vicki Cantrell.