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Os blues das Malhas

O índigo é provavelmente o único corante que é logo reconhecido mundialmente pelo público em geral. Nunca fora de moda, o índigo dá continuamente novos ares ao mercado dos tecidos adeptos da moda, e agora começa a ser explorado no mais inovador dos desenvolvimentos – o denim tricotado. As malhas denim, desenvolvidas pelo produtor de máquinas de malha circular Pai Lung, sedeada em Taipei, que trabalha em estreita colaboração com um dos seus clientes coreanos, foram apresentadas na última ITMA Ásia, que decorreu em Singapura. A técnica de entrelaçamento flutuante foi utilizada para tricotar os fios indigo de algodão nos tecidos denim. A elasticidade natural e respirabilidade da estrutura de malha jersey simples de jogo 18 poderão gerar uma importante quebra no lucrativo mercado dos tecidos denim, um mercado que vale cerca de 3 mil milhões de metros de tecido por ano. Classificado pelos historiadores como o mais antigo dos corantes, o índigo é utilizado no tingimento há mais de 4.000 anos. O índigo natural é extraído da planta indigofera tinctoria por fermentação aquosa. O alemão Adolf von Baeyer, especialista químico, patenteou em 1880 um método para a produção de índigo sintético, mas este processo não era economicamente competitivo face ao índigo natural. A BASF, que adquiriu os direitos de patente, investiu na sua investigação cerca de 18 anos até conseguir produzir algo economicamente viável em 1897. Isto constituiu um ponto de viragem, e a partir deste momento o índigo sintético rapidamente ultrapassou o índigo natural no tingimento. Como curiosidade, refira-se que, por esta altura, o fio tingido com índigo sintético tinha que exalar o cheiro característico do fio tingido com índigo natural. Deste modo, a MLB (Meister, Lucius & Bruning) encetou a comercialização de um óleo de essências que conferia esse aroma característico. Aliás, a MLB e a BASF eram, na altura, as duas grandes indústrias químicas alemãs. O índigo está classificado no Colour Index Internacional como CI Vat Blue I e é um corante de cuba que no seu estado oxidado normal contém grupos cetona. Nesta forma constitui um pigmento insolúvel sem substantividade com o algodão. Esta estrutura é insolúvel em água e para ser solúvel, e poder ser usado como corante, exige um tratamento com um sistema de redução alcalina para transformar os grupos cetona em enol, originando a forma solúvel leuco. Esta redução é feita com soda cáustica (hidróxido de sódio) como alcali e o ditionito de sódio (hidrossulfito de sódio) como agente redutor. Depois de reduzido, o índigo já é substantivo com o algodão. Sabe-se que o índigo, que contém dois grupos cetona, pode existir em diferentes estados iónicos na forma leuco no banho de tingimento, dependendo do pH. Quando somente um grupo é ionizado (a forma mono-iónica a pH 10.8-11.2), o corante apresenta uma solubilidade limitada mas tem uma substantividade (ou afinidade) relativamente elevada com o algodão. A forma di-iónica, atingida juntamente com a forma mono-iónica a pH 12-13, apresenta uma excelente solubilidade em água mas tem uma substantividade relativamente baixa com o algodão. Deste modo, quando o algodão é tingido com índigo, é usualmente submetido a sucessivas submersões numa série de banhos de leuco índigo, o fio é depois espremido para remoção do excesso de banho e exposto ao ar, que oxida a forma solúvel leuco amarela para a forma insolúvel pigmento azul índigo. Em seguida, o fio é submetido a uma série de banhos seguidos de uma foulardagem ao ar graças à qual a cor se torna progressivamente mais escura até atingir a tonalidade desejada. O fio de algodão é tingido principalmente na forma de novelo ou na forma de rolo, mas a penetração do índigo no fio resulta num efeito de anel tingido em que a maior parte do corante encontra-se na superfície exterior do fio. Depois do tingimento, o fio é submetido a um enxaguamento para eliminar os químicos e corante não fixado. Em alguns tingimentos contínuos de índigo, o corante não fixado (possivelmente até 10-15% do corante aplicado) é concentrado e recuperado através de uma ultrafiltração ou outro método químico e depois reutilizado. Esta reciclagem do índigo reduz o impacto ambiental do processo e os custos. Tradicionalmente, o fio de algodão tingido de índigo é utilizado como fio de teia tingido conjuntamente com um fio de trama não tingido no tecido denim, sendo assim encolado e recolhido num órgão de teia. Na tricotagem não é necessário encolagem, mas o fio deve ser colocado em cones para tricotagem em máquinas de malha circular. O denim tricotado pode, então, ser submetido a uma miríade de técnicas de acabamento similares às do denim tecido a fim de modificar a sua aparência, toque e estabilidade dimensional.