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Os desafios da ITV do Bangladesh

Com o mercado global de vestuário a crescer de forma acelerada, o Bangladesh precisa de aproveitar a chamada oportunidade “China Plus”, enquanto penetra em novos mercados e diversifica os seus produtos, concluiu uma conferência recentemente organizada em Daca.

No discurso de abertura, Nazneen Ahmed, investigadora do grupo de pesquisa do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento do Bangladesh (BIDS), afirmou que as vendas mundiais de vestuário deveriam alcançar os 45 mil milhões de dólares (aproximadamente 43 mil milhões de euros) em 2015, ultrapassando os 700 mil milhões até 2021.

Porém, a incerteza sobre o Brexit, o novo esquema de comércio global proposto pelo presidente norte-americano Donald Trump e um pacote de incentivos do sector têxtil da Índia de 900 milhões de dólares estão a colocar novos desafios à indústria têxtil e vestuário do Bangladesh, sublinharam os oradores.

Ahmed revelou que isso se deve ao facto de este sector (avaliado em 28 mil milhões de dólares) estar ainda a encetar melhorias nas áreas da saúde e segurança depois do incidente de 2013, com o colapso do Rana Plaza, ao mesmo tempo que procura melhorar as suas relações laborais. «Há potencial para o Bangladesh capturar o mercado chinês», afirmou Ahmed, numa altura em que a produção chinesa transita para tecnologia de ponta, os custos de mão-de-obra aumentam e a escassez de trabalhadores cresce à medida que a população envelhece.

Mas, por enquanto, e com a diversificação de produtos em andamento, o desafio é que o Bangladesh ainda é «um comprador para preços e não um líder quando o preço é negociado», explicou a investigadora. «Os compradores vêm ao Bangladesh principalmente para operações CMT, que são impulsionadas pela força de trabalho», acrescentou.

A este respeito, há trabalho que precisa de ser feito, considerando os despedimentos em massa de Ashulia, em dezembro último. As greves abalaram a imagem do país como exportador de vestuário confiável, segundo a mensagem passada na conferência.

A embaixadora dos EUA em Bangladesh, Marcia Bernicat, sublinhou que o sucesso da indústria de vestuário do Bangladesh tem sido «notável» mas, para continuar a ser bem-sucedida, a ITV precisa de planear o futuro. «A consequência de outro Rana Plaza ou outro incêndio de fábricas poderá ditar o declínio desta indústria», alertou.

A Associação de Exportadores e Fabricantes de Vestuário do Bangladesh (BGMEA), em colaboração com a Bolsa de Vestuário do Bangladesh, organizou a conferência, subordinada ao tema “Juntos por um amanhã melhor”, que aconteceu a 25 de fevereiro. A primeira-ministra do Bangladesh, Sheikh Hasina, inaugurou a conferência no Pan Pacific Sonargaon Hotel, na capital do país.

Repressão laboral

No entanto, a repressão à agitação laboral no polo de vestuário Ashulia ofuscou a conferência.

Os retalhistas ocidentais, incluindo H&M, Inditex (Zara), C&A, Next e Tchibo resistiram a participar na conferência, como forma de protesto contra a repressão.

O ministro do comércio de Bangladesh, Tofail Ahmed, argumentou que o Bangladesh foi injustamente criticado sobre os direitos sindicais, enquanto os abusos em países como China, Índia, Vietname e Paquistão foram ignorados. O ministro apontou que apenas 7% dos trabalhadores do sector privado nos EUA eram membros de sindicatos. «Como podem esperar ter sindicatos em 100% das fábricas aqui?», questionou.

Ainda assim, Srinivas Reddy, diretor no Bangladesh para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), acredita que o país deve acelerar e facilitar a participação sindical.

«São necessários esforços genuínos para combater a discriminação antissindical e as práticas desleais de trabalho», admitiu o representante da OIT.

Já Thomas Klausen, diretor executivo da Dansk Fashion & Textile na Dinamarca, exaltou a necessidade de associação com os sindicatos, em vez de aliená-los. «Da nossa experiência, sabemos que é mais fácil trabalhar com os trabalhadores do que contra eles», afirmou.

Nazma Akter, diretora executiva do grupo de direitos laborais AWAJ Foundation, insistiu que os trabalhadores deveriam receber salários dignos. Akter revelou que os trabalhadores do Bangladesh recebem apenas 70 centavos por cada t-shirt vendida nos EUA a 20 dólares. «Nada é barato neste mundo. Alguém tem que pagar e são os nossos trabalhadores», lamentou. Akter exortou os retalhistas globais a pararem de se aprovisionar através de vários agentes, o que ajuda a baixar os preços.

Nazneen Ahmed salientou que a indústria pretende elevar as exportações de vestuário em mais de 22 mil milhões de dólares e criar empregos para 6 milhões de pessoas nos próximos cinco anos, mas que já subiu os salários em 219% nos últimos seis anos.

Superar desafios

Para conseguir mais vendas nessas circunstâncias, a indústria precisa de se diversificar – mais de dois terços das exportações são de t-shirts, calças, blusas, camisas e malhas, revelou Ahmed.

No entanto, Fahmida Khatun, diretora de pesquisa no Centro de Diálogo Político (CPD), argumentou que a superação desses desafios exige responsabilidade partilhada. Khatun defendeu que os empresários devem continuar a manter a conformidade, os compradores devem oferecer melhores preços, enquanto o governo deve providenciar melhores infraestruturas e juros e taxas de câmbio competitivos.

No entanto, os retalhistas estão a apostar no Bangladesh enquanto a China vai ficando mais cara. Para a retalhista de moda Marks & Spencer (M&S), o Bangladesh tornou-se o seu maior destino de aprovisionamento a nível mundial desde que começou a adquirir vestuário do país em 2004, de acordo com Shwapna Bhowmick, que supervisiona as operações da M&S no Bangladesh e Myanmar.

Faruque Hassan, vice-presidente da BGMEA, observou que a indústria de vestuário se tornou uma história de sucesso graças aos trabalhadores e empresários resilientes. «Sempre que enfrentamos desafios, voltamos mais fortes», garantiu.

Christopher Woodruff, professor de economia da Universidade de Oxford, adjetivou a indústria de vestuário do Bangladesh de «única», sendo em grande parte administrada por empresários nacionais com financiamento interno. «Esse sucesso é fenomenal», destacou.

Entretanto, à margem da conferência, o BGMEA e a Telenor Health assinaram um Memorando de Entendimento (MoU), comprometendo-se a trabalhar em conjunto com a tecnologia digital e móvel para melhorar a saúde e o bem-estar dos trabalhadores de vestuário do Bangladesh. «Trabalhar com a Telenor Health será uma nova e inovadora abordagem para a associação facilitar a sustentabilidade da indústria de vestuário, que responde por 81% do total de receitas de exportação do Bangladesh», reconheceu Siddiqur Rahman, presidente da BGMEA.