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Os desafios do denim

O denim está de boa saúde e verdadeiramente vivo, especialmente no mercado asiático, mas há ainda vários desafios que devem ser abordados pelos produtores, marcas e retalhistas, nomeadamente o da sustentabilidade e a pressão dos preços baixos e da fast fashion.

BLUEPRINT AMSTERDAM 2014

Na cadeia de aprovisionamento de denim «existem demasiadas marcas, demasiadas certificações, demasiada confusão a todos os níveis do que é bom e do que é mau», acredita. Andrew Olah, fundador da feira Amsterdam Denim Days, da Kingpins, que teve lugar em Amesterdão entre os dias 15 e 16 de abril. E «quando se faz de mais algo com demasiadas opções, os consumidores simplesmente ignoram», afirma Olah. «Esse é um dos principais problemas e um dos motivos para a realização do evento. Não tem a ver com certificação, é sobre pessoas que desenvolvem maquinaria de que necessitamos na nossa indústria», acrescenta.

Olah acredita que um dos desafios é a confusão associada à cadeia de aprovisionamento. «Se uma marca faz jeans no Bangladesh e compra jeans no Vietname à lavandaria mais ecológica do mundo, com certificado Bluesign, como se explica ao consumidor quando outro fornecedor não é sustentável? Todos têm misturado os seus fornecedores, por isso saltam sob o “guarda-chuva” e evitam o assunto». O “guarda-chuva” a que Olah se refere é o da sustentabilidade.

«Existem dois tipos de sustentabilidade. Existe aquela que é aplicada de forma defensiva para evitar ataques; (…) é como um guarda-chuva, não irá alcançar nada mas mantém-no seco. Por sua vez, existe aquela que é genuína. E se o interesse é genuíno existe a perceção, por exemplo, de que o algodão orgânico utiliza menos água do que o algodão comum. Se está interessado na aplicação de índigo, usará determinadas máquinas que são excelentes. Depende de cada um, se quer ou não utilizar essa informação».

E essa informação esteve disponível no evento Denim Days, que reuniu uma seleção de fornecedores, incluindo fabricantes de tecido denim, jeans e vestuário desportivo. Entre os principais desafios destacados por estes fornecedores incluem-se o preço, o rápido conhecimento do estilo “athleisure”, cuja componente desportiva tem vindo a substituir o uso de denim como vestuário de lazer, as regulamentações sobre o uso de químicos, a valorização do dólar americano e o estagnado ou declinante mercado de denim americano e europeu.

Jack Matthews, diretor de vendas e marketing da empresa americana Artistic Denim Mills, considera que «o maior desafio para nós é que o denim, globalmente, perdeu quota de mercado para o athleisure. Mas o pêndulo oscila e retorna sempre. O desafio é responder a isso, e à tendência da moda rápida, e competir acerrimamente com as marcas tradicionais. A nossa empresa é global mas os EUA e a Europa são mercados difíceis. As marcas europeias, como a Topshop e a Mango, estão a afetar as marcas americanas», acrescenta.

Efetivamente, o crescimento do segmento denim ocorre em mercados de preços mais reduzidos, enquanto a América e Europa enfrentam um período de estagnação e declínio, respetivamente. É no continente asiático que está previsto o crescimento mais acelerado na venda de jeans no decorrer dos próximos cinco anos.

Se as empresas sediadas na América do Norte e Europa não tiverem uma presença verdadeiramente internacional, irão enfrentar algumas dificuldades e a resistência ao crescimento deverá manter-se nos próximos anos.

Esta é uma perspetiva partilhada pela fornecedora de tecidos e vestuário de denim Artistic Fabric Mills, sediada no Paquistão. O diretor de marketing da empresa, Abid Saboor, destaca um declínio dos mercados de denim americano e europeu mas afirma que a empresa tenta «manter o equilíbrio» entre todos os seus mercados.

A empresa exporta globalmente e detém unidades de fiação próprias mas Saboor enuncia os custos como o principal entrave ao negócio. «As marcas procuram preços mais baixos mas esperam a mesma qualidade. Elas têm de compreender que é necessário manter os padrões de qualidade para satisfazer o consumidor final. Mas todas as coisas boas têm um bom preço. Não podemos trabalhar a um preço tão baixo», sustenta.

De forma semelhante, um porta-voz da empresa Amhot International, baseada em Hong Kong, identifica a «pressão dos clientes» em relação ao preço como um dos principais desafios, em acréscimo à pressão iminente decorrente das regulamentações sobre o uso de químicos. «Ainda não é um problema para nós, mas poderá vir a ser um dia», acredita.

Assiste-se a um número crescente de apelos provenientes de grupos de defesa ambiental que incitam à remoção de químicos nocivos das cadeias de abastecimento. A União Europeia, em particular, restringiu as regulamentações no âmbito da legislação Reach, melhorando a triagem, avaliação e análise das opções de gestão de riscos para as substâncias químicas que suscitam preocupação.

A China, o segundo maior utilizador de químicos à escala mundial, assistiu à implementação de uma rigorosa Lei de Proteção Ambiental no início deste ano, que facilita o litígio de interesse público contra os poluidores

Porém, apesar dos desafios, existem também inúmeras oportunidades. Para Olah, isto implica um compromisso por parte das empresas na aprendizagem de novas tecnologias, produtos e partilha de conhecimentos com os consumidores. «Um dos meus sonhos é que, eventualmente, a mensagem [sobre a sustentabilidade] chegue ao consumidor. Para mim, a principal mensagem é que existem soluções absolutas, que obrigam apenas a um pouco de pesquisa e um pouco de sinceridade, porque existem formas incríveis de resolver muitos dos grandes problemas».