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Os desafios do sourcing

O envolvimento conjunto e a criação de políticas de base são essenciais à melhoria das condições de trabalho da indústria do vestuário e promoção de um melhor equilíbrio entre os benefícios económicos e sociais das cadeias de aprovisionamento globais.

O relatório anual produzido pela Organização Mundial do Trabalho, “Panorama Social e do Emprego Mundial 2015”, revela que a globalização do sector criou um vasto número de oportunidade de emprego e produtividade nas economias em desenvolvimento.

Este é particularmente o caso dos trabalhadores mais vulneráveis, como as mulheres e os jovens não qualificados e os trabalhadores migrantes. Devido às características do sector, que requere mão-de-obra pouco especializada e investimento de capital limitado, este representa frequentemente o primeiro nível do processo de industrialização das economias em desenvolvimento. Porém, o relatório destaca que a vasta maioria do emprego gerado ocorre sob condições laborais precárias.

Excetuando a China, a maioria das economias emergentes e em desenvolvimento veem-se encurraladas no nível mais básico de produção, incapazes de evoluir na cadeia de aprovisionamento para atividades que exigem um nível superior de qualificação.

As cadeias de aprovisionamento do sector do vestuário tendem a ser dominadas por grandes retalhistas ou casas de moda, que estão maioritariamente concentrados nos EUA, Europa e Japão, respondendo respetivamente por 47,3%, 22,2% e 6,9% das importações globais do sector do vestuário. Estas empresas abastecem-se, maioritariamente, na China, Vietname, Indonésia, México, Bangladesh, Índia, Camboja, Paquistão, Sri Lanka e Turquia.

Equilíbrio necessário
O relatório destaca que muitas empresas fornecedoras se veem obrigadas a disputar encomendas, reduzindo o seu poder de negociação. A criação de empresas fornecedoras em mais países, em particular na sequência do fim do sistema de comércio por quotas, tem aumentado a concorrência e, consequentemente, as vantagens e o poder de negociação das empresas dominantes.

Os dados mostram que as margens de lucro dos fornecedores no Bangladesh, por exemplo, caíram de 24% em 1995 para 7% em 2004. Da mesma forma, no Vietname, a participação dos lucros dos fabricantes de vestuário varia entre 10% a 15%.

A elevada proporção de contratos de curto prazo e as horas de trabalho altamente variáveis são, também, condições prevalecentes em todo o sector do vestuário, em parte devido à necessidade dos fornecedores se adaptarem rapidamente à volatilidade da procura.

Assim, enquanto as cadeias de aprovisionamento globais tendem a ser sinónimo de maior produtividade em alguns países, não estão necessariamente associadas a salários mais altos ou melhores condições de trabalho, revela o relatório.

No Vietname, por exemplo, ao qual foi atribuída uma das previsões de mais rápido crescimento até 2050 pela PwC, uma greve de uma semana numa fábrica durante o mês de março expôs uma crise iminente de salários e falta de trabalhadores num país que muitos veem como uma alternativa ao sourcing na China.

Duas semanas antes, ocorreram eventos semelhantes na China. As greves são ocorrências raras no Vietname devido à situação favorável da economia nacional, que tem permitido a determinação de aumentos salariais e a abundância de postos de trabalho. No entanto, a gestão da legislação relativa à segurança social dos cidadãos denota o quanto deve ainda ser feito pelo governo e pelas empresas de modo a manter a confiança dos trabalhadores.

Cadeia de aprovisionamento em análise
O relatório destaca a importância crescente das cadeias de aprovisionamento globais na criação de emprego e sugere que, de forma a potenciar a produtividade, o desenvolvimento económico e o fomento de condições laborais dignas, devem ser traçadas políticas de base conjuntas, direcionadas para sectores específicos, empresas e trabalhadores.

«Políticas que permitam uma melhor integração das cadeias de aprovisionamento globais com os sectores domésticos são essenciais para maximizar os efeitos colaterais, como a difusão do conhecimento, da tecnologia e melhores práticas de gestão», afirmam os autores do relatório. «Em acréscimo, regulamentações laborais estruturadas e instituições funcionais, que respondam à necessidade de qualificação entre os sectores e melhorem a conformidade, são essenciais para traduzir benefícios económicos em melhores condições de trabalho. O diálogo social na empresa, no sector, a nível nacional e internacional é também crucial a este respeito, pois pode garantir simultaneamente a melhoria da produtividade e direitos laborais ampliados».

Os acordos comerciais e de investimento podem, também, ser instrumentos para a promoção de quadros políticos coerentes, aponta o relatório, inclusive no que diz respeito às leis internacionais do trabalho. De facto, um número crescente de países desenvolvidos e em desenvolvimento está a adotar acordos de comércio e de investimento que integram códigos laborais.

O diálogo social é igualmente fundamental. No sector do vestuário, os compradores internacionais têm investido no envolvimento social, promovendo o cumprimento das leis laborais e mitigação de tensões existentes nas cadeias de aprovisionamento.

Desta forma, se por um lado, as cadeias de fornecimento globais podem contribuir ativamente para o crescimento económico, o relatório faz questão de salientar que a qualidade do emprego e modernização social exigem um esforço adicional. «Os regulamentos laborais e a sua aplicação são necessários na camada inferior da cadeia de abastecimento. De modo geral, a aplicação das leis internacionais do trabalho, a começar pelas leis fundamentais, é essencial para garantir o desenvolvimento paralelo de benefícios económicos e sociais ao longo de toda a cadeia de aprovisionamento», conclui o documento.