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Os desafios do sourcing

Para os profissionais de aprovisionamento, os custos permanecem prioritários. Mas produtores e fornecedores precisam de redefinir o significado e perceção face ao custo no âmbito dos seus negócios para poderem responder às exigências dos clientes.

Uma visão mais holística dos custos de produção esteve no centro do debate no Prime Source Forum deste ano, que se realizou em Hong Kong nos dias 24 e 25 de março, de onde sobressaiu que fabricantes e fornecedores devem tomar os seguintes fatores em consideração: Ofertas de valor acrescentado – na tomada de decisão sobre fontes de aprovisionamento, as marcas e retalhistas não procuram apenas o custo mais baixo, mas também uma oferta de serviço articulada com o desenvolvimento de produto e distribuição, assim como um menor tempo de resposta.

Avaliar o verdadeiro custo de produção – os países em desenvolvimento disponibilizam aos fabricantes oportunidades tentadoras de redução de custos mas é necessário ponderar o custo total final. Marcas, retalhistas e consumidores finais procuram padrões mais elevados, pelo que a responsabilidade social e a transparência das cadeias de aprovisionamento se tornaram, também, fatores importantes, assim como a acessibilidade a matérias-primas, essencial na redução do tempo de resposta.

Alavancar informação – o uso crescente de dados analíticos pelos retalhistas apresenta-se como uma oportunidade para os fornecedores que, dotados de informação mais detalhado sobre o consumidor final, podem acrescentar valor ao produto e responder às necessidades do mercado.

Estabelecer um padrão

A tragédia resultante do colapso da fábrica Rana Plaza no Bangladesh há dois anos incitou à tomada de iniciativas na indústria, tendo em vista a criação de um conjunto global de diretrizes de auditoria. Esta é, porém, uma medida em progresso e Thomas Nelson, vice-presidente da cadeia de fornecimento da VF Corp, advertiu para a necessidade de acelerar o processo, evitando que entidades terceiras, como organizações não-governamentais e agências estatais, definam o futuro do sector do sourcing.

«Temos de decidir se queremos controlar a nossa indústria ou se queremos que outras pessoas nos digam o que fazer», sublinhou. No Bangladesh têm sido feitos progressos significativos. As auditorias iniciais beneficiam agora de maior autoridade e são aceites por outros membros da Aliança pela Segurança dos Trabalhadores do Bangladesh – um grupo fundado por marcas americanas, incluindo Gap Inc, Hudson’s Bay Company, JC Penney, Macy’s, Nordstrom e Wal-Mart, focado na melhoria das condições laborais. As unidades de produção que se mostrarem incapazes de melhorar as condições laborais oferecidas aos seus trabalhadores arriscam perder a coligação como um grupo de clientes e a informação sobre as condições precárias ou de produção subcontratada em fábricas não autorizadas pode ser mais facilmente partilhada.

Apesar dos progressos registados no Bangladesh, a emergência de novos mercados de produção continua a aumentar a complexidade e fragmentação do mercado de aprovisionamento global, incrementando a necessidade de um conjunto normalizado de diretrizes. «Todos os países emergentes irão enfrentar os mesmos problemas do Bangladesh. A diferença é que não permitiremos que esses países demorem 10 anos a adotar medidas de sustentabilidade e responsabilidade social de acordo com a norma. A fasquia foi agora colocada a um nível mais elevado», afirmou Rick Darling, diretor executivo e relações públicas na Li & Fung Ltd.

Quénia debaixo de olho

O continente africano foi destacado como a nova potência do sourcing mundial e deve ser observado com atenção ao longo das próximas décadas. Adan Mohamed, secretário de estado do Quénia para a industrialização e desenvolvimento empresarial, destacou que o continente beneficia do potencial de uma força laboral em crescimento e futuro mercado de consumo. «Em 2040 esperamos que o continente africano tenha o maior mercado laboral do mundo», acrescentou.

O Quénia, em particular, procura desenvolver uma posição de destino de aprovisionamento preferencial na produção têxtil, potencializando a sua estrutura portuária, força laboral instruída, infraestruturas melhoradas, fácil acesso a matérias-primas e investimento governamental em fontes de energia alternativas. Em 2014, o país foi o principal exportador da África Subsariana para os EUA no âmbito do AGOA, um programa de preferência comercial. Adan Mohamed referiu ainda que «iremos gradualmente descontinuar roupas em segunda mão à medida que a produção local de novas peças de vestuário ganha dimensão e estamos satisfeitos por testemunharmos um foco renovado no nosso país, com o aumento dos níveis de investimento na produção de vestuário ao longo dos últimos 12 meses. Esperamos que assim continue, pois é um motor fundamental para o crescimento da indústria local».

Apesar dos problemas de instabilidade política e proliferação de doenças infeciosas que continuam a afetar o continente africano, Colin Brown, vice-presidente e diretor administrativo de fornecimento de produto na firma VF Asia Ltd., ressalvou que «se recuarmos até à década de 1970, a Ásia era assolada por enormes problemas de instabilidade política. Mas vejam hoje». Encerrando o fórum, uma sondagem em tempo-real da audiência reafirmou a crescente importância do continente africano. Com base no crescimento, os delegados elegeram este continente como o mercado de aprovisionamento dominante nos próximos cinco anos, seguido do Vietname, Bangladesh, Índia e Myanmar.