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Os elos fracos do sourcing

Falando num recente evento da Ethical Trading Initiative (ETI) – que explora o que as marcas podem fazer para ajudar a melhorar a vida dos trabalhadores domiciliários nas cadeias de fornecimento globais –, Alok Singh, representante da ETI na Índia, afirmou que pode ser difícil compreender onde é feito o trabalho domiciliário e difícil saber quais as questões que os trabalhadores enfrentam. A Índia, por exemplo, tem cerca de 20 milhões de trabalhadores a laborarem a partir das suas casas – artesãos que fazem os enfeites encontrados no vestuário de várias marcas de gama média e alta. No entanto, apesar do seu trabalho ser muito admirado, os próprios profissionais muitas vezes não são visíveis aos olhos do consumidor. Frequentemente trabalham em cadeias de produção longas e complexas, com vários intermediários e são pagos por peça. Isto apresenta desafios consideráveis para as marcas comprometidas com o aprovisionamento responsável. Dito isto, apesar destes desafios, os trabalhadores no domicílio estão a surgir como um grupo “importante, mas difícil de chegar”. Para muitos retalhistas e marcas a perspetiva de ter trabalhadores no domicílio na sua cadeia de aprovisionamento é assustadora, uma presença sombria que existe fora do sistema de auditoria, com preocupações de trabalho infantil não monitorizado, baixa remuneração e parcos níveis de segurança e saúde ocupacional. No entanto, o trabalho no domicílio faz cada vez mais sentido em termos de negócio para muitas fábricas, especialmente em países como a Índia, defendeu Singh. Na Índia, o custo de produção está a subir, mas o valor que está a ser pago às fábricas não sobe, o que está a levar ao aumento dos níveis de subcontratação. Os trabalhadores neste sector enfrentam um conjunto de questões complexas, incluindo pagamentos e trabalho irregulares, que afetam o poder de negociação e pagamentos diferidos até 90 dias. Singh revelou que alguns retalhistas que aprovisionam na Índia dizem que o trabalho em casa não pode ocorrer a mais de 50 km de distância de Deli, mas muitos trabalhadores estão a mais de 200 km de distância. Apesar dessa “invisibilidade”, os trabalhadores no domicílio compõem uma parte significativa da cadeia de aprovisionamento em algumas regiões. Nesta Holden, um trabalhador de projeto no domicílio na Homeworkers Worldwide, referiu que cerca de um quinto das pessoas empregadas no sector de vestuário em Tirupur na Índia são trabalhadores domiciliários. Holden ressaltou ainda que o uso de trabalhadores domésticos é muito mais generalizado do que a maioria das pessoas assume e não é apenas usado para fazer lantejoulas e acabamentos. A Homeworkers Worldwide realizou um programa na região, em parceria com a Women Working Worldwide e a Social Awareness and Voluntary Education (SAVE), que incluiu a criação de grupos de trabalhadores no domicílio, ensinando-os a ajudarem-se. O objetivo foi capacitá-los para trazer a mudança, ajudando a dar-lhes ferramentas para compreender os seus direitos, em vez de apenas dizer-lhes que os seus direitos estavam a ser violados. Ter uma fonte sustentável de trabalho é uma questão que também foi destacada por Olivia Lankester, diretora de responsabilidade social da Monsoon Accessorize. Lankester considera que o trabalho no domicílio é «parte do património da Monsoon», e algo que «não é tão complexo quanto aparenta ser». A diretora de responsabilidade social acrescentou que que os produtos feitos no domicílio e vendidos pela Monsoon Accessorize criam benefícios mais abrangentes, incluindo oportunidades nas áreas rurais, especialmente para as mulheres. Segundo Lankester, os produtos também ajudam a preservar o artesanato tradicional, um sector que está em declínio. Enquanto a Monsoon Accessorize adotou o modelo de trabalhador doméstico, ainda há muita inquietação entre as marcas em relação aos riscos de recorrer a trabalhadores no domicílio. No entanto, para Nesta Holden, as marcas precisam de assumir a responsabilidade pelos elementos menos visíveis da sua cadeia de aprovisionamento. «O risco já existe na medida em que provavelmente já existem trabalhadores no domicílio na sua cadeia de fornecimento», concluiu.