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Os jovens criadores na indústria

“Da criação à indústria” foi o tema debatido, ontem, na conferência organizada pela Apiccaps em parceria com o Porto Canal, onde se discutiram as barreiras impostas pela indústria aos jovens designers, a importância de conhecer a indústria e o sector em que estão inseridos e, ainda, conselhos para quem sonha ter uma marca.

Moderado por Débora Sá, o painel composto por Inês Caleiro, designer e criadora da marca Guava, Paulo Cravo, coordenador do projeto Bloom do Portugal Fashion, Hugo Costa, designer e criador da marca epónima, e Fátima Santos, secretária-geral da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, partilhou experiências que davam conta dos primeiros contactos com a indústria, contrapondo com sugestões preventivas.

«O desafio para um designer é conseguir contornar todas estas limitações do processo, só conhecendo é que se pode continuar», afirmou Hugo Costa.

Os convidados do debate incentivaram os jovens designers a perceber o funcionamento dos processos que constituem a linha de produção, facilitando o diálogo entre designers e empresários.

«Enquanto estudante, é importante tentar alargar ao máximo a tua rede de contactos, ou seja, perceber como é que o sector se organiza. No fundo, ser bichinho de biblioteca, perceber o que é que a Associação está a fazer, perceber as discussões em torno do sector, porque vai tornar-te mais capaz e vais conseguir ganhar mais maturidade em toda a dinâmica sectorial», assegurou Fátima Santos.

Inês Caleiro, Paulo Cravo, Débora Sá, Hugo Costa e Fátima Santos

Assumindo variações de comportamento nas diferentes indústrias, Hugo Costa, que se move entre estes universos, admitiu que a indústria do calçado não é tão restritiva quanto a indústria têxtil e que, apesar da resistência à entrada, é com algumas parcerias que desenvolve o seu trabalho.

«Vão ouvir muitos “nãos” ao longo do percurso, se calhar a palavra que mais ouvimos é “não”. É utilizarem maus exemplos do passado para justificarem o facto de não trabalharem connosco. Mas, de certa forma, esta proximidade que fui construindo com a indústria fez com que eu conseguisse a matéria-prima, fez com que eu conseguisse uma camisaria, uma das peças mais específicas de se fazer e não é qualquer costureira que a consegue fazer bem-feita», apontou Hugo Costa.

A construção interna

Foi também colocada à luz do debate a falta de contacto dos designers com a realidade industrial e a escassez de competências paralelas à criatividade, que são igualmente importantes para quem quer lançar uma marca própria, como a comunicação, a gestão e o marketing.

«Devemos insistir com a indústria, mas temos que nos apresentar como profissionais», sublinhou Paulo Cravo.

«Por parte dos jovens designers, neste caso, falo das marcas emergentes, é importante que eles encarem isto como um negócio porque, muitas vezes, falta-lhes esse carácter de negócio e de projeto sustentável», revelou o coordenador do Bloom ao Portugal Têxtil, destacando a importância de «conhecer as necessidades de cada área. Não é preciso saber fazer, mas é importante ter noção do que é necessário para comunicar uma marca, noções de marketing, noções de gestão de marca, conhecimento. Quando começam uma marca muitas vezes esquecem-se que é preciso criar uma empresa».

O diálogo, que atravessou a indústria têxtil, calçado e ourivesaria e relojoaria, colocou em evidência as diferentes perspetivas, desde o design à produção, conferindo uma visão global dos desafios e das dificuldades que os jovens designers, sentados na plateia, absorveram em jeito de fórmula secreta para um futuro de sucesso.