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Os laivos da moda na Web Summit

A Web Summit 2022 contou com a intervenção de responsáveis de marcas de moda como a Shein, mas também de produtores de materiais como a Bolt Threads e muitos especialistas focados na forma como o metaverso vai mudar a indústria e o mundo.

Julia Goldin [©Web Summit/Eóin Noonan]

Além da conjugação do verbo “to be” de Cristina Ferreira ou do cumprimento vigoroso de Marcelo Rebelo de Sousa a Paddy Cosgrave, que roubaram muitas atenções, a Web Summit, que decorreu de 1 a 4 de novembro em Lisboa, contou igualmente com intervenções onde a indústria da moda esteve em destaque.

Além do anúncio feito pela Smartex de uma ronda de financiamento de 25 milhões de euros, esta edição da cimeira dedicada à tecnologia, onde estiveram 1.050 oradores e mais de 71 mil participantes, ficou também marcada pela palestra de Donald Tang, vice-presidente da retalhista chinesa de fast fashion Shein. Envolta em muitas polémicas e com acusações pendentes, por parte de ativistas, de greenwashing e até violação de direitos humanos, a Shein esteve na Web Summit a anunciar o lançamento de uma plataforma de venda de vestuário em segunda-mão. A Shein Exchange foi lançada nos EUA e, em breve, deverá chegar a outros países. «É uma oportunidade para unir a comunidade e torna mais fácil a revenda da nossa roupa», afirmou Donald Tang, citado pela Rádio Renascença.

O vice-presidente da Shein referiu ainda que a rapidez a colocar no mercado tem sido a grande vantagem competitiva da marca, já que entre o design e a produção da peça distam apenas 10 a 14 dias. Além disso, cada modelo tem uma produção pequena, de 100 ou 200 unidades, sendo reposto quando se confirma a procura. «Estamos sempre a ouvir o cliente», garantiu.

Foco na sustentabilidade

Ganni x Mylo [©Bolt Threads]
Já a intervenção da Bolt Threads centrou-se mais na sustentabilidade, não fosse a empresa responsável pelo desenvolvimento do Mylo, um material fabricado a partir de micélio com um aspeto muito semelhante ao couro. A empresa americana anunciou a criação da Greener Pastures Pledge, que dará acesso preferencial aos materiais de micélio da empresa às marcas que se comprometam em eliminar o couro animal da sua oferta. Um compromisso já assumido pela marca de luxo Ganni.

«Embora seja altamente rentável, acabar gradualmente com o couro virgem animal até 2023 não é difícil se quisermos atingir 50% do objetivo de redução absoluta de carbono até 2027. É o nosso trabalho aprovisionar e investir em soluções baixas em carbono, como o Mylo, que não estão apenas a par com a oferta tradicional de produto, mas que a ultrapassam», considera o fundador da Ganni, Nicolaj Reffstrup, citado pela Ecotextile.

«Estamos ativamente no processo de escalar o nosso material Mylo, incluindo mudar-nos para as nossas instalações comerciais nos Países Baixos, que terá a capacidade de produzir milhões de metros quadrados nos próximos anos», indicou Dan Widmaier, fundador e CEO da Bolt Threads. «Embora não possamos confirmar o número de marcas às quais poderemos fornecer material neste momento, um dos grandes benefícios do compromisso é ter acesso preferencial ao material Mylo, apesar da grande procura atual », acrescentou, segundo a Vogue Business.

O metaverso está cá

Um dos conceitos várias vezes repetido durante a Web Summit foi o do metaverso, seja aplicado ao lazer, com a diretora de produto e de marketing da Lego, Julia Goldin, a reclamar espaço neste mundo virtual para as crianças, ou ao trabalho. Marc Carrel-Billard, diretor de gestão da Accenture, na sua intervenção sob o tema “Meet the metaverse”, destacou a influência do metaverso nos negócios. «O metaverso está aqui, mas ninguém sabe como estará daqui a 10 anos e quem disser que sabe, estará a mentir», assegurou. Mas asseverou que, tal como a internet, está para durar, de acordo com um artigo da Casa dos Bits. A IA, blockchain, RV, tudo pode cruzar-se no metaverso, acrescentou Marc Carrel-Billard, que reconhecer ser importante esclarecer que o metaverso não é realidade virtual, mas sim uma mistura de real e virtual e que quando alguém interage com o Google Assistant ou Alexa já está no metaverso.

No caso da Accenture, a empresa já tem gémeos digitais dos seus escritórios há cinco anos e faz festas de Natal e outras atividades no metaverso, mas acredita que isto é apenas parte do metaverso.

Peter Koerte [©Siemens]
Já a Siemens apresentou a plataforma de negócios digital aberta Siemens Xcelerator. Peter Koerte, CTO e responsável de estratégia da Siemens, realçou a capacidade de testar soluções de inteligência artificial com simulações do metaverso. «Com isto, uma fábrica pode alcançar uma operação 20% mais produtiva», apontou. Mas o potencial do metaverso industrial vai além dos aumentos de produtividade e redução de custos, com a utilização de gémeos digitais a permitir também uma maior sustentabilidade ao longo da cadeia produtiva. «Com os gémeos digitais podemos simular tudo, o que significa que também é possível simular a pegada de carbono», explicou Peter Koerte. «As fábricas são responsáveis por 28% de todos os gases com efeito de estufa e, por isso, temos de as tornar mais eficientes», alertou. «Os gémeos digitais são, na verdade, um pilar essencial para reduzir as emissões de carbono e aumentar a eficiência dos recursos», sublinhou o CTO.