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Os milhões da moda

O palco do mundo da moda transferiu-se sábado para Paris, numa espécie de clímax do mês de desfiles que aconteceu nas capitais da moda mundial (Nova Iorque, Londres, Milão e Paris). Mas, para além dos verdadeiros exércitos de repórteres, de celebridades, de modelos e de compradores, importantes figuras do mundo financeiro fazem actualmente parte das comitivas.O mundo da alta finança e das empresas de capitais de risco tem-se demonstrado cada vez mais interessada no mundo da moda. Em Agosto, a empresa britânica Permira adquiriu 97% da Valentino Fashion Group pela módica quantia de 2 mil e 600 milhões de euros numa das maiores operações de compra de uma casa de moda (ver notícia do Portugal Têxtil).A febre compradora desta empresa de terras de Sua Majestade, tinha-se revelado anteriormente com a tomada de uma posição de 90% na alemã Hugo Boss (ver notícia do Portugal Têxtil). Outros negócios similares têm acontecido um pouco por todo o mundo: a Apax despendeu mil e 600 milhões de dólares na Tommy Hilfiger, a Lion Capital comprou a Jimmy Choo, a Golden Gate Capital adquiriu uma importante posição na Express (da Limited Brands) e nem a fileira moda portuguesa escapou a esta onda através da entrada de 2 capitais de risco no capital da Aerosoles.A atractividade do mundo da moda é grande para estas organizações, que encontram o sector bastante lucrativo e com um enorme potencial de melhoria através da introdução de práticas de gestão mais rigorosas. Nesse sentido, importantes marcas de moda mundial estão sobre a mira destes investidores, onde se destaca a Burberry e a Roberto Cavalli, que têm demonstrado preocupação quanto à sucessão na sua insígnia.O desfile de Jil Sander, ocorrido na semana passada em Milão, é um exemplo paradigmático desta nova era. Entre as figuras carismáticas dos grandes desfiles de moda, foi possível encontrar um conjunto de executivos com os seus fatos azuis e cinzentos. Entre eles estava Stephan Lobmeyr, director geral da Change Capital que comprou a marca alemão há 18 meses atrás.Lobmeyr referiu aos jornalistas presentes o seu interesse na aquisição de outras marcas no segmento luxo e que a aquisição da Jil Sander se deveu aos seu elevado posicionamento dentro do mundo da moda, que ainda não tinha sido explorado por acordos de licenciamento tendo como públicos-alvo segmentos inferiores de mercado. Por outro lado, os prejuízos com que a Jil Sander se deparava demonstravam o enorme potencial que a imposição de um estilo de gestão rigoroso poderia trazer para a marca.A Change Capital encontra-se actualmente a reunir fundos para prosseguir a sua estratégia de aquisição de marcas, tendo actualmente gasto apenas 30 dos 300 milhões de euros que foram disponibilizados pela família Halley, principal accionista do gigante Carrefour. Nesta segunda ronda, a Change Capital pretende diversificar o seu portfólio de investidores utilizando a performance do primeiro fundo para atrair essas fontes de financiamento. A marca Jil Sander, antes da aquisição, fazia parte do portfólio da Prada, estando a sus performance a ser prejudicada pela partida do seu principal criativo e pela financeiramente pesada estratégia de expansão baseada na abertura de flagships de elevada dimensão.O director geral da Change Capital referiu que uma das atracções de marcas como a Jil Sander é a incapacidade que os seus fundadores têm em conjugar a criação com o sucesso e a performance financeira. Sobre isso, Lobmeyr afirmou que «olhando para a história da moda, vê-se o lançamento de marcas de moda pelos criativos por detrás da mesmas, mas apenas uma pequena porção destes, que também são excelentes empresários, conseguiu fazer crescer o negócio dos 50 até aos mil milhões de receitas».Por seu lado, Martin Clarke da Pemira sustentou que «muitas dessas marcas foram geridas com instinto pessoal e muito focalizadas na alta-costura. Pelo caminho criaram identidades de marca fabulosas com um enorme valor. O desafio das capitais de risco é o de preservar a herança e identidade dessas marcas ao mesmo tempo que conseguem alargar o seu apelo e base de clientes».Desde que tomou controlo da Jil Sander, a Change Capital desenvolveu medidas de gestão que são absolutamente essenciais para o crescimento de uma marca de moda: Implementou uma nova cultura e solução de Sistemas de Informação, reformulou o seu portfólio de lojas e reduziu os custos administrativos. Em face destas mudanças, é expectável que a marca atinja o break even no próximo ano. Os objectivos da reestruturação do negócio da Jil Sander não passam desta forma pela mudança das bases criativas da mesma, mas sim pelo aumento da eficiência da empresa e dos seus mecanismos de retalho que são aplicáveis ao negócio do retalho de moda.Quando bem geridas, as marcas de luxo podem ser extremamente rentáveis. Em alguns casos, como nos acessórios, a margem de lucro pode facilmente atingir os 77%.O plano estratégico da Jil Sander, que se estenderá por 5 anos, prevê que a marca atinja um volume de negócios próximo dos 200 milhões de euros nos próximos 3 anos. Por outro lado, o plano de expansão prevê a abertura de novas lojas da marca.