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Os porquês da ModaLisboa

Num dia em que as temperaturas subiram até aos 25º graus e o verão parecia estar a querer antecipar-se à primavera, a ModaLisboa introduziu as Fast Talks chamando a atenção para as alterações climáticas, antes de envolver a moda como parte do problema – e da solução. A conferência “Sustentabilidade na Moda: porquê e como?”, promovida pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil, no CCB, contou com a intervenção de oradores, nacionais e internacionais, e convidou os presentes a alargarem horizontes e a abrirem guarda-roupas.

Créditos – ModaLisboa / Tiago Caramujo

A abertura do calendário da edição “Boundless” (sem fronteiras) da ModaLisboa ficou entregue às Fast Talks, na sala Luís de Freitas Branco onde, depois das boas-vindas da diretora da ModaLisboa, Eduarda Abbondanza, a palavra foi passada a Catarina Vaz Pinto, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, parceira do evento, que deu o mote perfeito para o que seriam mais de duas horas de debate sobre a sustentabilidade na moda.

Créditos – ModaLisboa / Tiago Caramujo
Créditos – ModaLisboa / Tiago Caramujo

As altas temperaturas que se sentiram ao longo do primeiro dia da 48.ª edição da ModaLisboa fizeram, certamente, a delícia dos oradores internacionais de visita à capital portuguesa, mas não deixaram de levantar a questão das alterações climáticas e, neste caso, do impacto da indústria da moda. «Estas conversas serão uma espécie de introdução», sublinhou Catarina Vaz Pinto, antecipando os eventos paralelos que vão continuar o questionamento até domingo, 12 de março, dia de encerramento da edição dedicada ao outono-inverno 2017-2018 e da estreia do GFX Mercado Swap (para troca de roupas usadas).

O debate, moderado pela atriz e blogger Joana Barrios e repleto de jovens, começou com o CEO da Tintex, Mário Jorge Silva, que expôs o trabalho que a empresa de enobrecimento têxtil, «líder mundial em malhas» de liocel tem vindo a desenvolver em prol da sustentabilidade.

Créditos – ModaLisboa / Tiago Caramujo

«Desde cedo acreditamos que a sustentabilidade não era uma utopia», afirmou Mário Jorge Silva, salientando que a Tintex percebeu que uma atitude amiga do ambiente desde sempre foi entendida como «uma necessidade pelos consumidores mais exigentes».

Para os muitos jovens aspirantes a designers presentes na conferência promovida pelo CENIT, o CEO da Tintex reviu cuidadosamente os sumários de sucesso da especialista em tingimento e acabamentos – como o 1.º lugar na recente edição dos prémios Hightex Award da Munich Fabric Start, com uma malha com cortiça (ver Tintex premiada em Munique). A entusiasmar a assistência e o restante painel esteve ainda a referência à aposta no tingimento com extratos naturais ou a afirmação da necessidade de unir a sustentabilidade «ao conforto, performance e atratividade», para que esta possa «vingar».

Enquanto anoitecia – e as temperaturas desciam –, Lara Vidreiro, cofundadora da plataforma de aluguer de vestidos de luxo Chic by Choice, continuou a falar diretamente aos ouvidos “mais frescos”, dissecando as exigências desse segmento demográfico em crescendo: os millennials. «Os millennials são mais sobre experiências, menos sobre posse», destacou do consumidor que mais privilegia os serviços da economia de partilha. Procurando evitar a compra de artigos «que só se vão usar uma vez», a plataforma aposta no aluguer (e, agora, no serviço de subscrição) de peças de luxo. «Muitas vezes, são stocks parados das marcas» e os vestidos, uma vez devolvidos, «são encaminhados para websites de venda de roupa em segunda mão», revelou. Tendo o Reino Unido como melhor mercado, a Chic by Choice mudou recentemente os armazéns para o país, garantindo entregas «no mesmo dia, no centro de Londres» aos consumidores orientados pela rapidez.

O diretor criativo, ilustrador e editor das edições do Japão e da China da revista Vogue, Marko Matysik, arriscou uma abordagem mais emotiva, procurando envolver os presentes – na sala ou via live streaming – ao catalogar a sua paixão pela temática. «Sempre fui apaixonado pela sustentabilidade e pelas coisas antigas – há peças que não deveriam estar fechadas nos museus», defendeu, reconhecendo ainda que a mudança está a acontecer hoje porque «a sustentabilidade é uma tendência».

Créditos – ModaLisboa / Tiago Caramujo

A concordar com estas afirmações esteve a fundadora e diretora de operações da Fashion Revolution, Carry Somers, que reconheceu que parte do sucesso da iniciativa “Quem fez as minhas roupas?”, que leva os consumidores a interrogarem a cadeia de aprovisionamento global, parte do facto de ter sido desde sempre percebida como uma plataforma de moda. «Adoramos moda, mas temos de encontrar outras formas de adorarmos as roupas que já temos nos nossos guarda-roupas. Todos podemos ser revolucionários», resumiu.

Na mesma linha, Brooke Blashill, diretora da The Boutique Ogilvy & Mather e um dos nomes principais da Global Fashion Exchange (GFX), iniciativa lançada em 2013 que teve lugar pela primeira vez durante a semana de moda de Copenhaga e que, na edição “Boundless”, chega à ModaLisboa, ressalvou a importância do comprometimento de retalhistas de moda rápida como a H&M nesta mudança de modelos de negócio e, sobretudo, de mentalidades, bem como a necessidade de aliar a investida amiga do ambiente com a estética. «A sustentabilidade não durará sozinha», admitiu.

Na sala Luís de Freitas Branco falou-se ainda várias vezes do punk e do papel da subcultura no fomento dos “porquês”. Uma das vezes, inevitavelmente, foi quando a responsável pelas coleções de alta-costura de Vivienne Westwood, Brigitte Stepputtis, procurou abreviar, no tempo concedido à sua comunicação, a batalha travada há décadas pela criadora britânica na defesa da moda ética e sustentável.

Créditos – ModaLisboa / Tiago Caramujo

No final das Fast Talks, todos, não só os mais novos, levaram trabalho para casa. «Questionem! Nós precisamos de fazer as questões, é esse o vosso trabalho de casa», incitou Patrick Duffy, fundador da GFX que, concluiu que «sim, pode haver sustentabilidade na moda e o tempo de agir é agora».

A par dos T.P.C., e à margem da passerelle que hoje se inaugura, houve ainda sugestões de visitas de estudo durante a ModaLisboa. Até domingo, no CCB, sob a designação “Prinçipal Moda Portugal”, o CENIT organiza uma exposição, em forma de instalação, que presta homenagem à dimensão e excelência da indústria de vestuário e moda portuguesa, num diálogo dinâmico com o público.