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«Os próximos dois ou três anos vão ser de transformação para a indústria»

Rodrigo Siza Vieira, diretor-geral da Lectra para Portuga e Espanha, faz o balanço de um ano pródigo em eventos diversos da indústria têxtil e vestuário aquém-fronteiras, e aponta a tecnologia, incluindo as novas soluções da multinacional, como um dos fatores que poderão consolidar o percurso internacional das empresas portuguesas.

Rodrigo Siza Vieira

O ano passado, embora de estabilidade no negócio, foi produtivo ao nível da inovação para a multinacional de origem francesa, que, entre outras vitórias, viu reconhecido o valor da solução Fashion on Demand na feira internacional Texprocess da Messe Frankfurt. Em Portugal, a Lectra apresentou oficialmente não só esse desenvolvimento como também o Kubix Link e, a fechar o ano, as soluções na cloud Quick Nest e Quick Estimate.

O ano de 2019 foi prolixo em boas notícias para a Lectra – abriu um laboratório de inovação, arrecadou um prémio na Texprocess… Que balanço faz?

Foi um ano que entramos em velocidade cruzeiro na nossa oferta 4.0, desde o lançamento em fevereiro de 2017 da nova rota estratégica, que tinha como grande ambição tornar a Lectra o grande player da indústria 4.0 nos mercados em que atuamos. Essa rota estratégica pressupunha o lançamento de uma oferta muito ambiciosa e uma transformação grande. 2019 foi o ano em que houve mais lançamentos desta oferta 4.0: o Furniture on Demand, que não é exatamente o mercado de moda, mas que está ligado à têxtil também, e o Fashion on Demand, uma solução integradora end to end, que permite a customização de produtos ou a resposta a encomendas diretas de clientes, que ganhou o prémio na Texprocess.

Além do Quick Nest e do Quick Estimate, aponto o Kubix Link, uma plataforma integradora de processos também na cloud que permite aos clientes suportarem toda a informação de desenvolvimento do produto com soluções tipicamente PLM, mas também com soluções PIM e DAM para acercar as empresas das soluções de venda online ou da integração da informação de produto com marketplaces, e chamo a atenção ainda para o lançamento das nossas ofertas tradicionais, como o Modaris, por via de subscrição e não apenas por aquisição de software em modo de licença perpétua. Não estão concluídas as primeiras ferramentas da sala de corte 4.0, como o Vector Dashboard, e mais novidades no âmbito da sala 4.0, que iremos apresentar ao longo de 2020.

Já há empresas portuguesas com essas novas soluções?

Com a Kubix Link sim, em fase de projeto. Não estamos em fase de produção ainda. Com o Quick Nest e o Quick Estimate, temos também clientes em fase de teste, a avaliar se depois entrarão em produção ou não. O Fashion on Demand não, é uma solução cujo ciclo de maturação é grande, estamos a trabalhar nisso há pouco meses, naturalmente que ainda não temos cá nenhuma solução implementada. Acho que o Fashion on Demand é provavelmente o maior desafio que tivemos nos últimos anos, mas é também o mais excitante.

Porquê?

Porque é uma solução muito disruptiva das soluções tradicionais. É possivelmente a solução mais compliant com a indústria 4.0, está na essência da indústria 4.0, e acho que é a solução que pode trazer mais valor à indústria portuguesa.

De que forma?

Trata-se de uma solução pensada para produção feita por pedido ou customizada ou muito pequenas séries. E isso é o que a indústria portuguesa tem feito e bem, mas que tem de continuar a fazer e ainda melhor. Acho que há muitas vertentes deste negócio. Há uma vertente de customização mas também há uma vertente de negócio por pedido, mesmo que não seja customizado o produto, mas de produzir a partir de pedidos de clientes finais. Julgo que o facto de a indústria portuguesa se manter competitiva passa muito por essa capacidade. É a produção ágil, a produção à medida e a produção por medida. Acho que são os grandes desafios. O caminho da indústria tem sido exemplar, mas acho que ainda há caminho a fazer e que a tecnologia pode desempenhar um papel importante.

Em termos de apresentação, de divulgação e comercial, que análise pode já fazer?

Uma transformação destas é muito ambiciosa, porque pressupõe não só uma transformação da cultura interna da empresa, dos seus processos de desenvolvimento, de lançamento no mercado, comerciais, mas também uma mudança de mindset dos nossos clientes. Por exemplo, os clientes ao disponibilizarem-se para usarem o software como um serviço em vez de o adquirirem, é uma transformação profunda.

Mas faz parte, julgo que hoje a generalidade das empresas compreendeu que a transformação digital está em curso, que os primeiros que fizerem dessa transformação digital parte do seu processo, da sua estratégia e da sua cultura, estarão na linha da frente para terem sucesso no negócio de hoje, porque a mudança do comportamento dos consumidores vai nesse sentido, porque a mudança de comportamento dos diferentes agentes da cadeia do processo na moda também vai nesse sentido.

O ano também foi profícuo em eventos, sobretudo no último trimestre, que teve a oportunidade de acompanhar. Comecemos pela conferência da ITMF, o que reteve?

Das coisas que foram faladas, entre outras, houve duas grandes tendências: a digitalização e a sustentabilidade. São dois desafios que se põem, que julgo serem transversais à sociedade, não são específicas nem do nosso tecido empresarial nem desta indústria. Mas acho que estamos numa posição boa para sermos otimistas quando estamos a enfrentar estes desafios.

E do Fórum da Indústria Têxtil?

Acho que é uma visão otimista dizer que a indústria vai crescer em produção, vai crescer em negócio, vai crescer em exportação e vai fazer isso com os mesmos, ou eventualmente menos empresas e menos trabalhadores. Os processos de digitalização, aliás indo um pouco mais longe, os processos de tecnificação da sociedade, que não vêm de hoje, implicam menos tarefas manuais e repetitivas. Naturalmente, isso faz reduzir alguma mão de obra, mas também se criam novos empregos, normalmente melhor emprego e para gente muito mais qualificada. Há vários estudos, que a mim me parecem sérios, que apontam que o saldo final na força de trabalho não será dramático – em alguns casos até dizem que será residual, justamente por esse efeito de criar novas funções, que normalmente é melhor trabalho. Para mim isso é uma visão positiva.

Mas a economia está em desaceleração.

Eu gosto de ver o copo meio cheio. É verdade que está a haver, e ainda há poucos dias esses números foram apresentados em público, uma redução de cerca de 1% no final de setembro no volume das exportações, face a 2018. Face a 2017 estamos em crescimento. É evidente que quando se tem um ciclo de 10 anos de crescimento, tem de haver um momento em que esse crescimento para. Há fatores que podem ser preocupantes, mas também não me parece que seja caso para estar com receios demasiado grandes. As exportações para Espanha estão a decrescer claramente, para a Alemanha e para o Reino Unido. Mas estão a aumentar para outros mercados. Acho que isso é um sintoma do dinamismo da indústria, que quando vê mercados em desaceleração, é capaz de ir buscar outros e ter sucesso neles.

A fechar o ano assistiu ao Fashion Designers Competition do CENIT. Que importância reconhece a este tipo de iniciativas?

Acho que há um papel muito importante neste tipo de iniciativas e que se tem verificado, que é mudar a imagem desta indústria na perceção das pessoas que estão fora dela, dos futuros candidatos a trabalhar nesta indústria. Penso que isso é positivo. E depois é positivo também que se discuta a indústria nas suas diferentes vertentes. Julgo que nos últimos 10 anos foi feito um esforço grande, e parece-me que teve sucesso, em mudar a perceção que a sociedade em geral tinha desta indústria, uma indústria moribunda, de gente pouco qualificada, mal paga, uma indústria pouco sexy, se quiser. Acho que ainda não estamos no ponto que todos gostaríamos, mas houve uma evolução muito grande na imagem que esta indústria traduz. E isso também passa naturalmente por todas essas iniciativas.

Que expetativas tem para 2020?

Acho que não vai ser um ano de crescimento, mas também não me parece que seja um ano de retração dramática. Acho que vai ser um ano estável. Também depende muito da vontade ou da capacidade das empresas de procurar outros mercados. Não estou pessimista, também não estou demasiado otimista. Acho que os próximos dois ou três anos vão ser de transformação para a indústria em geral. Eu vejo que esta indústria tem sempre mostrado uma capacidade muito grande de se adaptar aos desafios que vão aparecendo e, de um modo geral, de se adaptar com sucesso.

Como vê a transformação, ao nível digital, do tecido empresarial português?

Não me parece que as empresas portuguesas estejam, comparando com as suas congéneres de outros países, sejam de países mais industrializados ou em vias de industrialização, menos digitalmente maduras. É claro a consciência de que esta transformação tem que ser feita, que as empresas têm que se adaptar, têm que adaptar os seus processos e o seu modo de fazer negócio a estas exigências que são, sobretudo, resultado uma digitalização global da sociedade, mas é um caminho a fazer.

A sensação que tenho é que estamos no início dessa caminhada. Há um aspeto que a mim me parece positivo que é as empresas estarem conscientes dessa necessidade, e há depois naturalmente algumas que estão mais avançadas do que outras nesse processo de transformação.

Que desafios se colocam à fileira industrial?

Os desafios para a indústria em geral vai ser a capacidade de responder a eventuais retrações dos nossos grandes mercados, que são os de proximidade, a Europa – isso é a primeira coisa. Continuar a posicionar-se como uma alternativa credível na oferta que se faz aos grandes players europeus, mas também aos pequenos. E de se manter inovadora não só nos produtos mas também nos processos. Numa indústria que é tipicamente uma indústria de manufacturing, que trabalha com empresas e tipicamente trabalha em proximidade e desenvolvimento com os seus clientes, a capacidade de inovação nos processos é tão ou mais importante que a capacidade de inovação em produtos. Julgo que as nossas empresas têm essa capacidade.

E para a Lectra enquanto multinacional?

O desafio que está no nosso roteiro é sermos um player indispensável na indústria 4.0. E ao lado desta grande ambição, vem ser capaz de completar a visão para uma oferta que responde aos desafios que são colocados aos nossos clientes pela digitalização e pela mudança de comportamento dos consumidores.

Como correu o ano em termos de negócio?

A nível de grupo, foi um ano basicamente estável. Para a Lectra Portugal foi um ano de retração, que não me surpreendeu por várias razões: à imagem do que aconteceu com a indústria da moda em Portugal, também tivemos uma série de anos de crescimento sucessivo. Os crescimentos não são infinitos e há um momento em que o crescimento tem forçosamente que parar. Por outro lado, nós, Lectra Portugal, vimos de um ciclo de cinco ou seis anos de crescimento muito grande, atingimos recordes históricos em termos de negócio, e o que acontece é que também o mercado respondeu nestes anos sobretudo a duas exigências: primeiro, uma questão de update das tecnologias, que em muitos casos já começavam a ser antiquadas; por outro lado, a um aumento de capacidade. Portanto, não vejo o não crescimento em termos de negócio para a Lectra este ano como uma baixa de desempenho da atividade. Acho que é consequência natural do que fizemos ao longo destes últimos anos. Mas, ainda assim foi um bom ano.

Quais foram os bestsellers de 2019?

O maior contributo para o nosso negócio foi, mais uma vez, aquele que é o nosso produto bandeira, que é, na área do hardware, a Vector, para a sala de corte, e, no software, o Modaris. Estamos a iniciar uma transformação, portanto é natural que os blockbusters continuem a ser os produtos tradicionais. E de resto, o nosso core business está aí, não pretendemos nem abandoná-lo nem dar-lhe menor importância.

Por onde passam as suas ambições futuras para a Lectra em Portugal?

O caminho já o iniciamos, agora é sustentar a nova oferta e a nova ambição da Lectra, junto dos nossos clientes ser capaz de mostrar que esta oferta tem valor e que traz benefícios, tanto económicos como de processo, como de capacidade de os nossos clientes estarem mais perto dos seus próprios clientes. Eu diria que é cimentar o que iniciamos em 2019.