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Os próximos passos da Farfetch

Avaliada em 1,5 mil milhões de dólares, as próximas etapas no desenvolvimento da gigante do retalho online de moda de luxo são ainda uma incógnita, mas a entrada em bolsa, o multicanal, o financiamento das operações e o aumento da fidelização dos clientes estão entre os desafios a serem ultrapassados pela equipa de José Neves.

O sucesso da Farfetch continua e a empresa fundada em 2008 por José Neves – que, afirma o portal Business of Fashion, continua a usar os ténis da sua marca de calçado, a Swear, que fundou em 1996 – intermediou 800 milhões de dólares (713,1 milhões de euros) em transações no ano passado, em comparação com 500 milhões de dólares em 2015.

A plataforma de comércio eletrónico, que liga os consumidores a uma rede mundial de 200 lojas independentes e 500 marcas parceiras cuidadosamente selecionadas, terá tido um lucro de 150 milhões de dólares em 2016 (uma estimativa citada pelo Business of Fashion), receita angariada graças às comissões que cobra (entre 20% e 25%, de acordo com parceiros de retalho) nessas transações.

De acordo com a Alexa, que mede o tráfego em websites, a Farfetch é atualmente o principal destino para compras de luxo online, tendo ultrapassado concorrentes como a Net-a-Porter e a Neiman Marcus.

Com o valor médio das encomendas de 700 dólares, divididas em partes iguais entre homens e mulheres e distribuídas por todo o mundo – de acordo com a Cowen & Co, cerca de 35% do negócio tem origem na Europa, 30% nos EUA, 17% na Ásia-Pacífico, 10% da China e 8% do resto do mundo – a «rentabilidade subjacente foi significativa» no último trimestre do ano fiscal de 2016, segundo afirmou José Neves ao Business of Fashion, com o valor dos produtos comercializados a subir 75% durante o período.

A caminho da Bolsa

Até agora, a Farfetch angariou mais de 350 milhões de dólares em fundos de risco, incluindo uma ronda de financiamento de 110 milhões de dólares que avaliou a empresa, segundo o mercado, em cerca de 1,5 mil milhões de dólares.

O “unicórnio”, contudo, procura agora novas formas de crescer e, embora haja quem avance com potenciais compradores, como a Amazon ou uma empresa de private equity, a saída mais provável passa por uma entrada em bolsa.

Em várias entrevistas, destaca o Business of Fashion, José Neves sublinhou que uma oferta pública inicial (IPO) será o próximo passo lógico da empresa, mas em nenhuma avançou com prazos. Uma IPO permitiria ainda que a Farfetch reunisse fundos suficientes para uma batalha que se antecipa longa com concorrentes como o Yoox Net-a-Porter, que gerou cerca de 2 mil milhões de dólares em vendas líquidas em 2016, com um crescimento orgânico de 18% em termos anuais.

O LVMH, o maior conglomerado de luxo do mundo, é agora não apenas um parceiro – muitas das mais de 70 marcas do grupo são vendidas na Farfetch – como é também um concorrente direto, com o lançamento do website de comércio eletrónico multimarca 24 Sèvres (ver LVMH avança no comércio eletrónico).

Mas José Neves parece estar mais obcecado com os negócios construídos sobre plataformas tecnológicas, como o Airbnb e a Uber, do que com os tradicionais retalhistas de luxo, até porque vê a Farfetch como uma empresa que compreende tanto o poder da tecnologia como o poder de um vestido com um bom corte.

«É uma plataforma com curadoria. Não é como a maior parte das plataformas tecnológicas como o eBay ou a Dropbox, que têm a ver com crescer em escala», afirmou José Neves, já em 2015, ao Business of Fashion. «Sim, nós vamos crescer, mas nunca comprometendo o nível de curadoria. Tem a ver com um certo gosto e um certo comprimento de onda das marcas. Penso que isso é muito importante», sublinhou o fundador da Farfetch, que considera que «o molho secreto do negócio» é a sua combinação única de moda e tecnologia.

Parceiros e clientes em foco

Para ser bem sucedida, a Farfetch depende também do sucesso dos seus parceiros de retalho e, por isso, «começamos a lançar mais propostas omnicanal, entregas no mesmo dia em 10 cidades… “clique e recolha” em loja e devolução em loja», indicou José Neves numa entrevista recente. «Tudo isto faz parte do ADN da Farfetch», ressalvou.

Há ainda a chamada Store of the Future (ou Loja do Futuro), um «sistema operativo» para o retalho físico que pretende melhorar drasticamente a produtividade através da recolha de dados dos consumidores e melhoria das interações humanas entre consumidores e assistentes de venda (ver Farfetch prepara revolução).

A Store of the Future vai lançar um programa piloto com a Thom Browne e a loja londrina Browns – que a Farfetch adquiriu em 2015 – este ano. «É apenas o próximo passo», explicou José Neves, destacando que não se trata apenas de ter «completa visibilidade do inventário e usar a loja física como um ponto de serviço», mas avançar para «o que chamamos de retalho aumentado».

Os analistas, contudo, não têm certezas. «Se estivéssemos em 2006 ou 2007, antes da Amazon retirar quota de mercado a todos, então talvez», afirmou, ao Business of Fashion, Kashif Sheikh, analista de investimento na empresa Privco. «[O negócio da Farfetch] é um modelo de margens altas e não tem o risco de lidar com questões de aprovisionamento. Mas agora é diferente… Esta é a idade do comércio eletrónico da Amazon», acrescentou.

Os especialistas apontam ainda alguns “bugs” no modelo da Farfetch, nomeadamente no que diz respeito ao controlo do inventário – com os artigos mais cobiçados a serem, por vezes, escassos – e a variação dos preços de loja para loja e de país para país, visível para os consumidores, e que não é apreciado pelas marcas.

Para compensar, José Neves revelou estar empenhado em fidelizar os consumidores. «Estamos muito orgulhosos daquilo que representamos e definitivamente queremos desenvolver uma relação emocional entre a marca e o consumidor, para além de sermos um excelente fornecedor de serviços», afirmou. «As pesquisas mostram que os consumidores que entram em contacto com a marca são incrivelmente fiéis à Farfetch após a segunda ou terceira compra. As pessoas que experimentaram o serviço, adoram-no, e falam com os amigos e família», acrescentou.

O que significa esse serviço será clarificado, em parte, com a chegada de Natalie Massenet, que se juntou há poucos meses à Farfetch como copresidente do conselho de administração não-executiva (ver Massenet no clube Farfetch).

Indicadores para o futuro

Se a Farfetch completar uma oferta pública inicial com sucesso com uma valorização significativamente acima de 1,5 milhões de dólares, isso pode mudar a vida dos fundadores e da equipa sénior de gestão da empresa, tornando-os multimilionários. Mas, acima de tudo, destaca o Business of Fashion, pode inspirar uma nova confiança nos investimentos em empresas de moda por parte das empresas de capital de risco. Pode ainda levar outras empresas que combinam tecnologia e moda a entrarem em bolsa. A Stitchfix, sediada em San Francisco, estará já a considerar uma IPO. A Spring, concorrente da Farfetch, que se assume como um centro comercial moderno, recentemente angariou mais 65 milhões de dólares, elevando o financiamento total para mais de 100 milhões de dólares.

Pessoas próximas afirmam que a Farfetch pretende avançar com a IPO em 2018. Mas José Neves insiste que não está com pressa. «Não temos ainda uma data», afirmou. «Mas é o próximo marco financeiro para o negócio, isso de certeza. É a melhor forma para um negócio conseguir liquidez para os seus investidores porque, no final, se há investidores é preciso encontrar liquidez para eles, e manter a equipa fantástica que temos», concluiu.