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Os segredos de Savile Row

Michael Skinner e um pequeno grupo de colegas estão intimamente familiarizados com os detalhes físicos de estrelas rock, realeza e algumas das figuras históricas mais famosas da Grã-Bretanha. Mas não esperem que ele comece a falar ou coscuvilhar, porque a discrição absoluta é um pilar profissional dos alfaiates de Savile Row, em Londres, cujos clientes de há cerca de dois séculos de serviço variam do famoso herói militar Horatio Nelson a Michael Jackson e o Príncipe Wiliam. O agora cortador mestre na Dege & Skinner recolheu algumas das suas anedotas favoritas com apenas 18 anos, quando lhe foi dada a tarefa de vestir o então Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha Winston Churchill para a coroação da Rainha Isabel II em 1953. «Foi algo extraordinário… estar na Abadia de Westminster e ter de vestir um homem fantástico», contou Michael Skinner à Reuters numa visita a Savile Row em honra do primeiro evento independente de sempre em Londres para a moda masculina. Michael Skinner passou uma vida inteira em Savile Row, uma rua conhecida em todo o mundo pelo vestuário feito por um punhado de empresas tradicionais como a Dege & Skinner, a Gieves & Hawkes, a H. Huntsman & Sons e a Henry Poole & Co, assim como designers contemporâneos como Ozwald Boateng e E. Tautz. Os Beatles, Michael Jackson, a Rainha Isabel II assim como o Almirante Horatio Nelson e o homem que derrotou Napoleão em Waterloo, o Duque de Wellington, todos têm fatos, sobretudos e uniformes militares dos alfaiates aí reunidos. Michael, que gere um dos últimos negócios familiares em Savile Row com o filho Wiliam, abriu os seus showrooms e ateliers ao público como parte do primeiro evento de moda London Collections Men. «Não somos uma espécie de bruxos por detrás de janelas congeladas. Somos até pessoas muito decentes que fazem um trabalho muito decente dando o nosso melhor para fazer roupa muito bonita e é isso que nos dá ânimo», afirma Michael. «É excitante fazer parte da semana de moda e mostrar Savile Row e o que fazemos em termos de negócio na indústria artesanal», acrescenta William. Fatos de duas peças dos melhores artesãos do país em vestuário de homem têm preços a partir das 3.000 libras (3.750 euros), mas os clientes que possam ficar assustados com os preços de um alfaiate de Savile Row têm algumas opções. A Dege & Skinner permite vários métodos alternativos de pagamento para encorajar as pessoas a comprar em Savile Row, revela Michael Skinner. «Sempre tivemos uma política de fazermos tudo o que pudermos para ajudar cada indivíduo e temos formas de alargar crédito, temos formas de pagamento por transferência bancária, ofertas especiais para jovens militares de comprar vestuário civil, que agora alargamos a jovens para o seu primeiro fato», explica. O seu filho William sublinha que um dos pontos fortes de Savile Row é que os seus alfaiates oferecem roupas que são intemporais, porque são feitas especialmente para quem as compra. «Quando se gasta o dinheiro que as pessoas gastam nas nossas peças, não querem que saia de moda em seis meses, querem algo especial. E é por isso que vêm até nós», refere. O atelier do cortador à medida Richard Lawson, da Gieves & Hawkes, revela uma impressionante coleção de padrões castanhos em papel, cada um contendo medidas específicas dos clientes. O arquivo da empresa inclui peças criadas para Nelson, que liquidou a sua conta no alfaiate pouco antes de ter morrido na Batalha de Trafalgar, assim como o vencedor de Waterloo, Wellington. A empresa é famosa pelos seus serviços de alfaiataria para o Exército Britânico e para a Royal Navy.Um casaco muito bordado em preto e dourado para o falecido cantor Michael Jackson em exposição no showroom da empresa custa 20 mil libras para fazer. Lawson, que trabalha em Savile Row há quase cinco anos, revela que a maior alegria que tem com o seu trabalho é quando o fato que fez para o seu cliente assenta na perfeição. «Quando se coloca nos ombros do cliente e literalmente se ajusta e o cliente imediatamente começa a sentir que o está a usar, não se pode substituir essa sensação», indica «Compensa todos as outras preocupações que acontecem quando as coisas não correm tão bem ou correm mal. É uma ótima parte do trabalho», acrescenta. Conseguir um estágio na rua de alfaiataria mais exclusiva de Londres é competitivo, já que há muito interesse em juntar-se à profissão, afirma Lawson. «Muito disso tem a ver com a sorte de estar no sítio certo à hora certa quando essa posição de aprendiz surge», explica. «É uma pequena comunidade maravilhosa, todos trabalham na mesma rua, todos nos conhecemos e, como disse, assim que se está dentro, temos uma verdadeira atmosfera familiar», conclui.