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Os tentáculos do Brexit

Os efeitos do Brexit começam a ser sentidos num dos países mais pobres do mundo. No Bangladesh, os produtores de vestuário costumam receber em dólar norte-americano. Para os retalhistas britânicos, isso significa que os custos de importação estão a subir, em linha com uma queda de 16% na libra esterlina. Evitando aumentar os preços ao consumidor, os fornecedores estão a ser espremidos.

No Bangladesh, o vestuário representa cerca de 80% das exportações e o Reino Unido é o terceiro maior mercado do país. Fazlul Hoque, diretor administrativo da Plummy Fashions, que fornece a Next e a Primark, está entre aqueles que já sentiram os efeitos do Brexit. «Estamos numa guerra de preços e a ser pressionados de todos os lados», afirma Fazlul Hoque à Bloomberg. «Os retalhistas britânicos estão a enviar-nos uma mensagem de que, no futuro, a situação será pior», acrescenta.

Um porta-voz da Primark ressalva, porém, que a empresa tem relações de longa data com os seus fornecedores no Bangladesh e que está a ajudá-los a incrementar a sua produtividade. A Next não se mostrou disponível para comentar.

Até agora, a economia do Bangladesh tem-se conseguido manter, mas há inquietação no ar. No passado mês de janeiro, o Centro para o Diálogo Político de Daca alertou para o impacto negativo do Brexit e as suas implicações nos mercados. Listado pela ONU como um dos países mais subdesenvolvidos do mundo, o Bangladesh tem feito progressos nas últimas décadas para combater a pobreza. Porém, os desafios subsistem, com cerca de 47 milhões pessoas no limiar de pobreza.

O Banco Mundial prevê um crescimento de 6,8% no ano fiscal encerrado a 30 de junho, abaixo da estimativa oficial de 7,1% para o ano fiscal anterior. O Banco Central, por sua vez, antevê um crescimento de 7,2%.

Incerteza comercial

Não é apenas o impacto de uma libra mais fraca que está a afetar o comércio internacional. O Bangladesh teme também o regime tarifário que o Reino Unido poderá adotar, depois deste deixar formalmente a União Europeia, algo que poderá prejudicar o acesso preferencial de que o país desfruta atualmente na Europa. «A minha preocupação tem a ver com a incerteza que o Brexit traz, podendo conduzir à suspensão provisória do acesso livre ao mercado para os produtos dos exportadores do Bangladesh», explica Bharti Bhargava, economista da Oxford Economics em Singapura.

Fator Trump

Se Donald Trump, o presidente eleito dos EUA, avançar com as taxas sobre os produtos importados à China, poderá alavancar a produção em destinos mais baratos, incluindo o Bangladesh, acredita Steven Englander, do Citigroup.

Ainda assim, no Bangladesh, os fornecedores estão ansiosos. Abdus Salam Murshedy, diretor-geral do Envoy Group, que fornece grandes retalhistas como a Next, afirma estar no limite face à crescente pressão para baixar os preços.

As vendas para a Next subiram 11%, para os 10 milhões de dólares (aproximadamente 9,4 milhões de euros) em 2016, revela Murshedy, enquanto as vendas totais do Envoy chegaram aos 260 milhões de dólares. «Estamos sob tremenda pressão para manter os preços baixos», sublinha. «À medida que o custo dos negócios subiu com a desvalorização da libra esterlina, os retalhistas concentraram-se mais no Bangladesh e compram mais aqui, mas a preços mais baixos. Essa é a estratégia», conclui.