Início Notícias Tecnologia

Os têxteis solares que chegam da Finlândia

Uma equipa de investigadores da Universidade de Aalto desenvolveu painéis solares ultrafinos que podem ser costurados em vestuário. Segundo a equipa, esta inovação possibilitará, em grande escala, reduzir a necessidade de fontes de energia tradicionais, a maioria das quais emite gases com efeito de estufa.

[Aalto University/Anne Kinnunen]

A indústria da moda está a mudar o seu paradigma ambiental. Na Universidade de Aalto, na Finlândia, uma equipa de investigadores quer ter um papel ativo nessa transformação e, por isso, desenvolveu uma técnica para incorporar, em tecidos, painéis solares invisíveis que constituem uma fonte de energia para telemóveis ou wearables. Em última instância, esta inovação permitirá, aos designers, criar roupa alimentada a energia solar sem alterar a estética da peça.

Elina Ilén, que liderou este projeto batizado Sun-Powered Textiles, passou duas décadas a desenvolver tecnologia wearable.  Um problema, no entanto, que sempre surge é que os dispositivos eletrónicos integrados no vestuário precisam de uma fonte de energia. Nos primeiros anos, os utilizadores tinham que colocar uma bateria no interior da peça ou, então, ligá-la à corrente para o recarregamento. Mais recentemente, as empresas passaram a incorporar painéis solares sobre a roupa, mas a investigadora não achava isso prático. «Apenas um reduzido número de pessoas quer andar com vestuário com painéis solares óbvios em cima, que as fazem parecer robôs», explica à Fast Company. «Queríamos criar uma fonte de energia invisível nos têxteis, para que parecessem roupas normais», revela.

A equipa uniu-se a físicos da Aalto University para desenvolver painéis solares ultrafinos que podem ser incorporados em praticamente qualquer tecido, de algodão a linho, viscose ou poliéster – só precisam de ser costurados entre duas camadas de tecido. «Esses painéis solares funcionariam em vestuário, mas também funcionariam em têxteis-lar», afirma Elina Ilén. «Pode imaginar cortinas ou sofás a armazenar energia da luz e a usá-la para alimentar dispositivos», acrescenta.

A cientista esclarece que os painéis solares podem obter energia da luz artificial, embora a luz solar seja mais eficaz. E a quantidade de energia armazenada depende de muitos fatores, incluindo o tipo de células solares usadas e a textura do material. Segundo Elina Ilén, os tecidos com irregularidades na superfície tendem a ser melhores porque a luz pode penetrar mais facilmente no material e alcançar o painel solar. Os dispositivos podem ser ligados a um bolso da roupa ou esta pode ser incorporada com tecnologia sem fios.

Escala futura

O projeto Solar-Powered Textiles gerou protótipos de vestuário que foram exibidos na Helsinki Design Week como parte da exposição “Designs for a Cooler Planet”. Elina Ilén, contudo, garante que seria bastante fácil comercializar estes novos materiais. As empresas e marcas de moda não precisariam de mudar os seus tecidos, uma vez que bastaria simplesmente costurar as células solares sob a camada de tecido exterior. O painel solar foi projetado para ser muito fino e flexível, coberto por uma camada de tecido, de modo a poder ser integrado numa t-shirt, sendo macio contra a pele. A equipa deliberadamente construiu os painéis solares separados do tecido para que ambos pudessem ser reciclados separadamente. «Sabemos que reciclar já é um grande desafio na indústria da moda e não queríamos contribuir para esse problema», sublinha Elina Ilén.

[Aalto University/Jaakko Eskola]
No curto prazo, a cientista acredita que esta tecnologia atrairá empresas que produzem wearables em vestuário, nomeadamente marcas de roupa desportiva que querem incorporar monitores de frequência cardíaca. Mas, no final das contas, Elina Ilén imagina um mundo onde muitos têxteis são integrados com painéis solares, armazenando energia solar para alimentar os dispositivos do quotidiano. Se essa tecnologia tivesse escala, poderia reduzir a dependência de fontes tradicionais de eletricidade. «Desta forma, a moda seria uma força do bem para o planeta, em vez de poluir», conclui.