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Os titãs da moda – Parte 1

A introdução e estabelecimento da Uniqlo no mercado de retalho americano marcou um ponto de viragem para a marca japonesa, cujo percurso ascendente assenta numa filosofia interna pautada pela consistência e foco na inovação e na sustentabilidade.

Em 2012, a revista Forbes publicou uma série de artigos sobre a Uniqlo e a Zara. Nesse momento, estas marcas de moda encontravam-se já perfeitamente estabelecidas globalmente, mas estavam ainda a dar os primeiros passos nos Estados Unidos da América. Três anos depois, cada uma destas empresas testemunha um crescimento impressionante devido, em grande parte, ao sucesso no mercado de retalho americano. Posto isto, a publicação americana revisita algumas das ideias discutidas na série anterior relativa a estas empresas, examinando onde elas se encontram hoje e a sua forma de atuação, procurando perceber o que faz da Uniqlo e da Zara, e dos seus investidores, casos de sucesso.

Estilo agnóstico
Desde o início da sua existência, os líderes da Uniqlo assumiram o desígnio de transformar a marca num líder mundial do retalho. Apesar de ambicioso, desde a sua fundação, a Uniqlo mostrou-se à altura de tão elevada missão, afirmando-se como um retalhista de moda premier. A Uniqlo e a sua empresa-mãe, Fast Retailing, concentraram-se na diferenciação tecnológica e numa abordagem ecológica para o desenvolvimento do produto. Essencialmente, em vez de perseguirem cada uma das tendências emergentes, a Uniqlo tem como objetivo apelar a uma ampla gama de consumidores, primando pela utilidade e um estilo agnóstico – criando produtos que podem ser usados subsequentemente, sem se tornarem obsoletos.

Tendo-se concentrado na longevidade dos produtos, ao invés de perseguir tendências, a Uniqlo tem ciclos de desenvolvimento longos, durante os quais testa constantemente novos projetos e produtos e, em vez de alternar de um fornecedor para outro, aposta na sedimentação de relacionamentos duradouros com os fabricantes. Ocupando um lugar proeminente entre as fileiras da indústria tecnológica, a Uniqlo gera novos fluxos de receitas através da obsolescência planeada de produtos, impulsionada pela inovação tecnológica – desenvolvida e implementada pela própria empresa –, em vez de se focar nas novas tendências da moda. Ao invés de permitir que seja o mercado a ditar a sua oferta, a Uniqlo assume a direção. Em 2005, a retalhista nipónica entrou no mercado americano com três locais em centros-comerciais de Nova Jérsia.

Um ano depois, inaugurou a primeira localização independente nos EUA, no distrito do SoHo, em Manhattan. No final de 2014 – quase uma década depois de ter chegado aos EUA –, a Uniqlo tinha apenas 20 espaços comerciais no país. Esta morosidade é característica da forma de atuação da marca de moda. Como a sua estratégia de desenvolvimento de produtos, a Uniqlo pretendia certificar-se de que as suas lojas físicas estavam calibradas antes de optar pela expansão. E parecem tê-lo alcançado, planeando, atualmente, a duplicação do número de lojas em território americano, com 28 novos pontos de venda esperados até ao final de 2015, elevando o total para 38 lojas Uniqlo nos EUA. A empresa acredita que poderá alcançar 100 espaços comerciais, somando 10 mil milhões de dólares em vendas, nos EUA, em 2020.

O nível de sucesso evidenciado pela cadeia Uniqlo é surpreendente e prima, inicialmente, pela localização. Os três espaços comerciais em Nova Jérsia encerraram logo após a sua inauguração, uma vez que não ofereciam qualquer visibilidade à marca. Porém, com a loja do SoHo no leme, a Uniqlo cresceu. Desde a estreia no SoHo nova-iorquino, as vendas americanas triplicaram. A empresa cresceu de 2,9 mil milhões de dólares em vendas nos Estados Unidos, em 2006, para um recorde de 7,5 mil milhões de dólares, em 2013. Desde então, a liderança da empresa mostra-se extremamente cautelosa na inauguração de novos pontos, concentrando-se em grandes cidades, que lhe permitem obter visibilidade, antes de se estabelecer nos subúrbios.

Sucesso de rua
É extremamente importante para o sucesso das retalhistas que estas adotem uma estratégia omnicanal. No entanto, esta é outra área na qual a Uniqlo navega contra a corrente, optando por se concentrar mais nas lojas físicas do que na plataforma de comércio eletrónico. É, ainda, relativamente nova no segmento de vendas virtual, mas isso não a impediu de encontrar grande sucesso no mundo real. A Uniqlo tem feito um enorme esforço para valorizar o tempo despendido por um cliente em loja. Submetendo os funcionários a uma formação extremamente rigorosa, adotando uma gestão hermética e dispondo televisões e tecnologia tátil em loja, de forma a auxiliar a tomada de decisão por parte dos clientes, as lojas Uniqlo são diferentes das de qualquer outra retalhista.

Investidores recompensados
Colocando ênfase em produtos de longa duração, inspirados na tecnologia, e adotando uma abordagem inteligente do retalho físico, a Uniqlo e a sua empresa-mãe procuram devolver um valor acrescido aos seus acionistas. Embora a empresa, com sede no Japão, não tenha ainda divulgado os valores de vendas específicos nos EUA, muito do seu crescimento pode ser atribuído às fortes vendas internacionais (incluindo as vendas em território americano). O grupo Fast Retailing reportou um crescimento das receitas e lucros antes de impostos no primeiro semestre de 2015, ou nos seis meses decorridos entre setembro de 2014 a Fevereiro de 2015.

Durante este período, a receita subiu 24,2% em comparação anual, para mais de 7,5 mil milhões de dólares, e o lucro operacional expandiu 40,2%, superando os 1,2 mil milhões de dólares. Da sua estratégia de retalho físico deliberada à abordagem ecológica subjacente ao desenvolvimento de produtos, a Uniqlo superou todas as tendências de retalho e foi recompensada por isso, devendo, como tal, atrair a atenção de investidores experientes, que poderão beneficiar do programa de expansão no mercados dos americano. A segunda parte do artigo incidirá sobre as transformações operadas pela marca Zara ao longo dos últimos três anos, desde o momento da sua implementação efetiva em território americano à conquista do sector do retalho internacional.