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Oysho é o novo concorrente do sector íntimo

Para os retalhista de moda intima os últimos anos não têm sido muito fáceis. A década de 90 assistiu ao nascimento da Womens’s Secret, a divisão de moda íntima do Grupo Cortefiel. E, à posteriori, cadeias como a H&M e a C&A aumentaram a sua oferta nos produtos do sector íntimo. No entanto, estes avanços constituem um mal menor em comparação com o que está a acontecer em 2002 e com o que sucederá em 2002: como feito mais relevante, a criação por parte do grupo Inditex da sua cadeia de lingerie Oysho, e em segundo lugar, a expansão da cadeia francesa Etam em Espanha a partir do próximo ano. Contudo, não são poucos os retalhistas que apontam que estas incorporações constituem uma ameaça principalmente para as cadeias que perseguem o mesmo público alvo. O grupo de moda Inditex abriu no passado dia 7 de Setembro as primeiras 10 lojas da cadeia Oysho em Espanha e Portugal, através das quais o gigante galego se introduz na distribuição de moda íntima. As lojas, que utilizam marcas e etiquetas próprias, comercializam roupas interiores, roupa de noite, roupa de banho, acessórios e cosmética. A Oysho tem o mesmo alvo populacional que a Zara, ou seja, mulheres cosmopolitas entre os 18 e os 35 anos que procuram um produto de qualidade média-alta a um preço acessível. Barcelona, Valência, La Corunha, Málaga e Santiago de Compostela são, até ao momento, as primeiras cidades que viram como é que a Inditex passa para o sector da lingerie a filosofia do resto do grupo. A Oysho irá oferecer novos produtos todas as semanas e renovará a cada temporada 80% da sua colecção. Posteriormente, “e em função do resultado económico e comercial irá desenhar-se um plano de negócios para os próximos exercícios”. Concretamente, a Inditex prevê para este exercício a abertura de 15 novas lojas Oysho e a extensão desta experiência à Bélgica, Alemanha, Holanda e Grécia. No entanto, não é este o último concorrente no cenário de batalha no sector da moda íntima: o grupo francês de lingerie e moda, Etam, anunciou a sua intenção de expandir-se para Espanha em 2002. A Etam, vai abrir em Barcelona o seu maior estabelecimento em terreno espanhol no qual se prevê que invista entre 1,5 e 1,8 milhões de euros unicamente na renovação do edifício no qual se instalará o centro. Este futuro macro-estabelecimento não é nada mais do que a ponta de lança de um “ambicioso plano de desenvolvimento em Espanha e Portugal, que passa por alcançar uma centena de lojas em cinco anos” adianta o director de expansão da Etam no mercado espanhol, José María García. Nesta altura, a rede espanhola e portuguesa é já formada por 40 lojas de lingerie que, apesar de, maioritariamente, serem lojas próprias, também existem em regime de franquia. Somando o mercado espanhol e português, a Etam facturou em 2000, 21,64 milhões de euros, adiantou García. Um valor que se prevê que aumente cerca de 15% neste exercício que está a ponto de terminar. A estes concorrentes ainda se tem que acrescentar a cadeia de moda íntima do grupo Cartefiel, Womens’s Secret. Funciona em Espanha desde 1993 e dirige-se a mulheres entre os 20 e os 40 anos de um nível económico médio-alto que busca lingerie, lenços, roupa de dormir e para se vestir comodamente em casa, assim como produtos de cosmética. Com quase 70 estabelecimentos em Espanha, o sector de roupa íntima representa 7,2% do total de vendas do grupo Cortefiel. No exercício correspondente a 2000 a Womens’s Secret facturou mais 52,4% do que em 1999. Oriol Paré, da cadeia Love Store, que conta com cerca de 35 lojas repartidas por toda a Espanha, assinala que o lançamento da Oysho “fez tremer o mercado em seis meses”, mas assegura que “apesar de significar um incremento do número de concorrentes, a nós vai beneficiarmos, porque educa o público num tipo de consumo que é aquele que nós estamos a potenciar desde há alguns anos. A curto prazo, trará mais potenciais clientes cujo número será superior ao prejuízo que possa representar o aumento da concorrência”. Neste sentido, as cadeias C&A e H&M estão também a reforçar a sua oferta em lingerie já que, conscientes das suas vantagens, lançaram-se à conquista de um sector no qual podem ver em breve compensados os seus investimentos. Todo este panorama confirma as importantes mudanças na distribuição dentro do sector íntimo, no momento em que este se encontra em fase de crescimento: se no exercício correspondente a 1999 o consumo de lingerie, corpetes e roupas de banho, alcançou um milhão de euros, no passado ano chegou a ultrapassar ligeiramente este valor. A transformação dos canais de distribuição está a mudar as relações tradicionais que mantêm fabricantes e distribuidores e configuram uma nova realidade que incide directamente sobre o comércio retalhista. Desde as instituições se assinala um desenvolvimento lógico num mercado livre de concorrência. “Todas as fórmulas são perfeitamente válidas numa economia de livre mercado. É um problema do mercado e o mercado tem que determinar o posicionamento de todo o mundo”, afirmou o secretário do Associação do Comércio Têxtil e Alfaiataria de Barcelona, Janvier Coll. Mas sem esquecer que se trata de uma economia de livre mercado na qual todos os actores podem lutar com as mesmas armas para atrair potenciais consumidores. Calcula-se que o retalhista tem uma quota de mercado que se situa entre os 35% e os 40%, mas a sua facturação pode descer se o consumidor se deixa cativar por uma maior oferta, por preços mais económicos e pela amplitude de horários das cadeias de lojas especializadas. Ir às compras converteu-se numa das actividades preferidas durante o tempo livre, sobretudo para a faixa etária abaixo dos 35 anos, ávida de sensações e desejosa de mudar constantemente de vestuário: um alvo susceptível e volátil em jogo. Para a retalhista Visctoria Bafalluy de Paris Chic 2, “dizer que o aparecimento da Oysho não nos afecta seria mentir, já que o mercado estará sem dúvida mais repartido”. Contudo, assegura que “para nós, como retalhistas não constitui uma concorrência directa, já que os nossos clientes compram motivados pelas marcas, pelo tratamento personalizado e pelo serviço que oferecemos”. Da mesma opinião é Isabel Cervera, proprietária em Barcelona de um comércio multi-marca especializado em moda intima, que considera que a aparição da Oysho e a próxima expansão da Etam “não me vão causar um maior transtorno do que o que senti quando apareceu o centro comercial Les Glòries”. A proximidade do seu estabelecimento a este centro provocou a fugida da boa parte da sua clientela, atraída pela presença neste de cadeias como a Women´s Secret. Superado já o impacto inicial que sofreram as suas vendas, a aparição de novas cadeias no horizonte, não a preocupam em excesso: “a concorrência vai desenvolver-se principalmente entre as cadeias que lutam pelo mesmo segmento. Para os retalhistas, seguramente, o efeito será menor”.