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Países emergentes contra-atacam

A China continua a ser o maior ator mundial no sourcing de vestuário, mas países emergentes, de África à Ásia, passando pela própria Rússia, estão a investir em infraestruturas e apoios financeiros, para garantir uma posição e ganhar quota de mercado junto das marcas e retalhistas internacionais.

A crescente concorrência em todo o mundo por contratos de sourcing de vestuário está a levar a que a China seja não só desafiada por outros países na Ásia, como também por países da África Subsaariana e até por fornecedores russos. Uma situação que está a levar os governos asiáticos a aprofundar as suas políticas industriais para tentarem manter a sua quota de mercado.

A conclusão foi retirada durante a 32.ª Convenção Mundial de Moda, organizada em Bombaim pela International Apparel Federation (IAF) e pela Associação de Produtores de Vestuário da Índia, que teve como tema principal as novas oportunidades no sector. Durante o evento, que decorreu de 26 a 28 de setembro, os intervenientes sublinharam o aumento de competitividade dos rivais dos tradicionais exportadores asiáticos de vestuário.

Belinda Edmonds, diretora-executiva da African Cotton and Textile Industries Federation, enfatizou que a renovação pelos EUA do African Growth and Opportunity Act (AGOA), que dá acesso sem taxas ao mercado americano para a maior parte dos países da África Subsaariana, impulsionou a produção de vestuário na região. O acordo foi renovado por mais 10 anos e estará em vigor até 30 de setembro de 2025.

A diretora-executiva sublinhou ainda que empresas europeias, como a H&M, a Primark e a Tesco, estão também a aprovisionar-se na África Oriental. Com o seu algodão de elevada qualidade, «África está a emergir como uma região significativa no mercado têxtil», referiu. O AGOA significa que «podemos oferecer produtos a um preço que vai satisfazer o mercado de produção em massa nos EUA. Por outro lado, encontramos um enorme apetite pelas fibras sustentáveis de África e os projetos sociais e ambientais que funcionam em alguns países europeus, sobretudo na Escandinávia. Por isso, vejo oportunidades em toda a linha – a Europa enquanto mercado de massa, onde o preço é rei, e depois projetos de carácter social que ainda são acessíveis», afirmou Edmonds ao just-style.com, à margem da conferência.

Alexander Shumsky, presidente-executivo do Russian Fashion Council, revelou, por seu lado, que a capacidade subutilizada de produção têxtil e vestuário oferece oportunidades para o sourcing, com o aumento os custos na China a tornar os produtores russos mais atrativos. «Há três anos usávamos 40% a 45% das nossas instalações produtivas; hoje usamos 67%», indicou Shumsky. «O governo está a investir muito para encorajar a produção», acrescentou.

Algum deste apoio foi pensado para ajudar a Rússia a conseguir mais contratos de exportação, como o fornecimento por produtores russos de uniformes no valor de 6 milhões de euros para o exército chileno, exemplificou Shumsky.

Mas o governo está também a encorajar as marcas e retalhistas internacionais a produzir na Rússia. «Estamos a tentar usar a tendência mundial de liberalização. Estamos a tentar revitalizar o outrora próspero sector têxtil na ex-URSS. Já temos o conhecimento para produzir vários tipos de têxteis, como têxteis-lar, vestuário de senhora, vestuário interior e de exterior», acrescentou.

Infraestruturas e apoio financeiro

Com esta nova concorrência, os governos asiáticos estão a melhorar as infraestruturas e o apoio financeiro para manterem a sua posição no sourcing.

Ashok Rajani, presidente do conselho de administração do Apparel Export Promotion Council na Índia, afirmou na convenção que o governo indiano está a tomar medidas – uma abordagem tripartida para aumentar as competências, a escala e a rapidez para ter uma quota maior do mercado mundial de têxteis e vestuário.

O governo tem-se focado em tornar mais simples fazer negócios na Índia, ao mesmo tempo que oferece incentivos fiscais e financeiros. Rajani destacou que a Índia tem regras que cumprem as diretrizes da Organização Internacional do Trabalho para os trabalhadores da indústria têxtil e vestuário, diminuindo o risco de escândalos associados à exploração de trabalhadores, e que tem fortes competências em tecnologias de informação e software. Como resultado, o governo indiano e a AEPC querem que a Índia venda mais de 30 mil milhões de dólares (27,3 mil milhões de euros) em exportações de vestuário nos próximos dois anos, referiu.

«Face à crescente necessidade de equilibrar as considerações de cumprimento e os fatores de custo e o aumento da procura de marketing multicanal mundial, entendemos que o sourcing de vestuário se tornou mais complexo. Estamos diligentemente a trabalhar para melhorar os nossos padrões através da cadeia de valor e aderir a estratégias sustentáveis», afirmou Ashok Rajani.

Também o Bangladesh está a tentar aumentar as exportações, apesar da concorrência do estrangeiro. O governo e a indústria do país têm como meta atingir 50 mil milhões de dólares em exportações de têxteis e vestuário até 2020/2021 (em comparação com 28 mil milhões de dólares em 2015/2016).

Faruque Hassan, vice-presidente da Bangladesh Garment Manufacturers and Exporters Association, referiu que «duplicar as nossas exportações nos próximos cinco anos é uma oportunidade para todos os nossos trabalhadores, compradores, investidores e produtores». Além disso, destacou, o país está empenhado num crescimento sustentável e com segurança, tentando deixar para trás o desastre no Rana Plaza. «As nossas fábricas estão a passar de semiautomáticas para completamente automáticas com tecnologia sofisticada e maquinaria para produzir produtos de qualidade de um estilo diversificado», indicou.

Tecnologia promove novas oportunidades

Para além da crescente concorrência no sector do sourcing, a convenção abordou também como os centros de produção podem beneficiar de uma tecnologia cada vez mais sofisticada.

Os oradores num painel sobre “Novas oportunidades na tecnologia” afirmaram que, a não ser que os produtores de vestuário e os retalhistas adotem novas inovações, mesmo as marcas e produtores conhecidos podem estar ameaçados.

Vonita Samtani, vice-presidente de parceiros estratégicos no WGSN, frisou que a análise de dados é especialmente importante. «A otimização em massa vai ser uma mudança transformacional que vai afetar o negócio porque a informação que surge através da análise de dados pode ser usada por vários departamentos, por exemplo, localização, finanças, merchandising visual e não apenas pelos marketers», explicou.

Philippe Ribera, diretor de inovação de software na Lectra e membro da administração da IAF, afirmou ainda que as imagens em 3D deverão ser substituídas em breve pela realidade aumentada. E deixou um conselho aos delegados na convenção que se sintam tentados a ignorar estas tecnologias: «Está na altura de mudar a sua empresa, a sua mentalidade e as suas pessoas».

Numa altura em que a tecnologia está a ser usada para desenvolver uma t-shirt que pode avisar os utilizadores de que estão em risco de desenvolver Alzheimer, os produtores têxteis não podem dar-se ao luxo de ignorar estes desenvolvimentos.