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Pantone entre o cinzento e o amarelo

A especialista em cor escolheu dois tons contraditórios para pintar o próximo ano. As cores de 2021 são Illuminating, um amarelo limão para dar um toque brilhante, e Ultimate Gray, uma espécie de tonalidade de cimento que surgiu depois dos diversos acontecimentos de 2020.

[©Pantone]

As duas cores criam a sensação de um nascer do sol num terreno montanhoso e acaba por ter uma simbologia óbvia face a um ano de 2020 que muitos desejam esquecer.

A escolha da cor do ano baseia-se na pesquisa por parte do Pantone Color Institute das tendências na moda, design de interiores, arquitetura e arte. As cores selecionadas são aquelas que deverão surgir mais frequentemente nos próximos 12 a 24 meses porque o objetivo é que, de alguma forma, retratem o momento atual. «Sentimos sempre a responsabilidade de acertar», explica Leatrice Eiseman, diretora-executiva do Pantone Color Institute, citada pela Fast Company.

Por isso mesmo, nos últimos anos, em especial, as escolhas da Pantone têm estado imbuídas de significado social, servindo como uma fotografia do mundo. A escolha para 2020 foi o Classic Blue, que pretendia contrariar a angústia provocada por líderes autocráticos como Donald Trump e a propaganda em massa por detrás deles em plataformas como o Facebook. A cor de 2019 foi o Living Coral, outra cor pensada para dar segurança face ao aumento do autoritarismo.

Após um ano de devastação devido ao Covid-19, a esperança de que as vacinas ponham fim à pandemia aumentou neste final de ano. Depois dos assassinatos de George Floyd e Breonna Taylor, que geraram tumultos e manifestações nos EUA mas também um pouco por todo o mundo, a justiça ainda não foi feita, mas há uma nova administração nos EUA que poderá trazer algum apaziguamento ou pelo menos não atiçar os ânimos e o racismo, como a anterior.

[©Pantone]
Na verdade, a Pantone selecionou primeiro uma cor há meses: o Illuminating. Mas à medida que o ano progrediu, só este amarelo pareceu errado para a equipa. «Houve um dia em que [Leatrice Eiseman] me chamou e disse-me: “temos de repensar isto”», conta Laurie Pressman, vice-presidente do Pantone Color Institute.

A equipa decidiu então selecionar não uma, mas duas cores. Sozinho, o cinzento seria demasiado deprimente, enquanto o amarelo seria demasiado festivo. Juntos, considera a Pantone, o par pretende ser tanto otimista como cogitativo.

O Illuminating «é definitivamente uma cor aspiracional, sem dúvida», afirma Eiseman. «Mas penso que com a solidez do cinzento… quando se justapõe essas cores, o conceito é claro: “isto é o que esperamos. E isto é um terreno sólido para nos fazer chegar lá”», resume.

O simbolismo da cor do ano não se deve sobrepor, contudo, às tendências de cor direcionadas para o negócio. O Illuminating é uma cor em ascensão, tendo já surgido na Semana de Moda de Londres em outubro. Um amarelo semelhante tem feito aparições também na Off-White e na Louis Vuitton. Fãs do jogo Cyberpunk 2077 podem igualmente ter visto que o Illuminating é uma variação da capa do jogo em amarelo-elétrico (que já gerou dezenas de produtos promocionais).

Louis Vuitton [©Louis Vuitton]
Para o consumidor típico da Target ou da Home Depot, a equipa da Pantone vê o Illuminating como uma escolha pragmática. O cinzento tem sido generalizado pelo mundo do design pelo menos há uma década e com um toque de amarelo é possível atualizar o guarda-roupa ou a casa sem a renovação completa que muitos não podem pagar agora.

«Temos de reconhecer que o cinzento tem estado presente há muito tempo… se pensarmos nele de um ponto de vista prático, como podemos pegar num cinzento com que as pessoas se sentem confortáveis [e atualizá-lo]», admite Pressman. «Estamos a viver em camisolas cinzentas. Não estamos com uma mentalidade de “isso é tão passado, deita-o fora”. Preferimos pensar em como tornar o cinzento mais divertido… e o amarelo responde a isso», conclui a vice-presidente do Pantone Color Institute.