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Paquistão dá o salto

No decorrer do último ano, duas empresas de renome internacional optaram por retirar a produção do país, mencionando riscos, atrasos e instabilidade entre as principais motivos para essa decisão. Apesar de não se registar ainda uma tendência generalizada nesse sentido, há já alguns fatores de alerta que o governo paquistanês está a tentar combater com novas medidas de incentivo ao sector. Em abril de 2014, a empresa americana Walt Disney optou por se retirar de solo paquistanês, adiantando que o país não cumpria os requisitos mínimos exigidos em termos de condições de trabalho oferecidas. Apenas nove meses depois, a marca canadiana de vestuário masculino Kanati anunciou que as interrupções constantes da produção forçaram a saída do país, pretendendo agora retornar a solo nacional. No caso particular da Walt Disney, a empresa recorre ao WGI (Índice de Governança Mundial) produzido pelo Banco Mundial como um meio de avaliar o risco inerente aos países onde pretende investir e o Paquistão obteve apenas 19 pontos, fixando-se abaixo do limite mínimo. A eliminação progressiva do investimento a partir do Paquistão custou às exportações do país cerca de 150 milhões de dólares. A retirada da Kanati deveu-se aos atrasos e instabilidade do país, tendo optado desde então por produzir no Canadá, onde estão fixadas as suas unidades de retalho. O cofundador da empresa, Liam Massaubi, adiantou que a crise energética do Paquistão causou períodos de inatividade prolongada, aos quais se somam dificuldades de comunicação e transporte, que influenciaram a atividade quotidiana da empresa. «Estas são preocupações determinantes para qualquer empresa que dependa de prazos apertados. Estávamos a perder as comunicações por mais de uma semana consecutiva e, quando não se consegue enviar ou receber informação importante e os sistemas de rastreio sofrem constantes interrupções, torna-se difícil prosseguir normalmente com o negócio. Se a isso somarmos a crise do petróleo, o transporte torna-se um desafio e os custos aumentam. Tivemos alturas em que os produtos estavam prontos para expedição mas permaneceram no local durante semanas sem ser possível tirá-los de lá», explicou. O aumento do custo de produção, resultante da crise energética nacional, tem afetado negativamente a indústria paquistanesa. Em consequência da escassez de recursos energéticos, o governo começou a implementar períodos de blackout em 2008, conduzindo ao encerramento de inúmeras fábricas e à diminuição da capacidade produtiva das que subsistiram. Inevitavelmente, alguns compradores internacionais passaram a mostrar-se relutantes face à colocação de encomendas, receando dificuldades no processo produtivo. Ações decisivas O governo paquistanês parece focado em solucionar esta limitação e, em dezembro, assinou já um novo acordo energético que facilitará a importação de energia limpa proveniente do Quirguistão e Tajiquistão. O projeto estipulou um valor de 9,35 cêntimos do dólar por unidade durante um período de 15 anos e poderá gerar a criação de 10 milhões de postos de trabalho. Porém, a energia não é o único problema para quem pretende fixar a sua produção no Paquistão. Massaubi referiu também a falta de proteção concedida às empresas que optam por investir no país. «Por experiência própria, temos testemunhado pouca vontade por parte das autoridades competentes para solucionar situações em que existe prova substancial da ocorrência de crime e sempre que criamos um ambiente com estruturas limitadas há um pequeno grupo de pessoas que, infelizmente, procura retirar benefícios em favor próprio». Massaubi mencionou, igualmente, as dificuldades causadas pela violência, instabilidade social e terrorismo, que se combinam na criação de maior insegurança. «Apenas temos conhecimento daquilo que é divulgado pelos media mas há muitos outros problemas», adiantou, admitindo que a empresa se viu forçada a declinar várias oportunidades de negócio e já não podia aguardar mais por melhorias. «Decidimos que o melhor seria sair e transferir toda a nossa produção para o Canadá, onde podemos controlar todo o processo», acrescentou. Aumento das exportações Apesar das contrariedades, o sector têxtil e vestuário paquistanês continua em desenvolvimento, estimulado pelas medidas e incentivos governamentais que pretendem fortalecer o crescimento das exportações nacionais. No ano fiscal 2013/2014 as exportações do sector aumentaram 5%, para 13,74 mil milhões de dólares, assinalando ganhos de 45% em cinco anos desde 2009. Estes valores são parcialmente justificados pelos benefícios oferecidos no âmbito do acordo GSP+ estabelecido pela União Europeia, que garante a isenção de taxas alfandegárias desde janeiro de 2014. A segunda Política Têxtil, divulgada no decorrer do mês de fevereiro, prevê a duplicação do valor das exportações, para 26 mil milhões de dólares, nos próximos cinco anos, assim como um investimento de 650 milhões de dólares em subsídios e apoios às entidades do sector e a criação de infraestruturas que permitam atrair investimentos no valor de 5 mil milhões de dólares. A iniciativa foi bem recebida, uma vez que não tinham sido feitos investimentos significativos no sector desde 2006. Do programa de revitalização previsto para o sector, iniciado em 2009, apenas 15% foi implementado, contemplando um investimento de 2,1 mil milhões de dólares. A nova política prevê não só o apoio através de subsídios e construção de infraestruturas mas também a criação do Fundo de Melhoria Tecnológica, taxas de juro reduzidas, importações de maquinaria isentas de direitos alfandegários e promoção de clusters de produção têxtil, parques industriais e centros de desenvolvimento de produto. Os planos previstos para o país continuam aquém das políticas implementadas na Índia e Bangladesh, que também pretende duplicar as exportações do sector nos próximos sete anos. Porém, os analistas salientam a importância das medidas tomadas e a perceção do rumo correto a seguir. Cliente satisfeito O sector nacional mostrou-se já capaz de satisfazer alguns investidores externos que optaram por se fixar na região. «Há alguns anos, o principal centro de produção estava localizado na área de Karachi. Recentemente expandiu-se a Faisalabad e outras regiões», explicou Steve Woolley da empresa britânica Trutex, grossista de uniformes escolares. «São ainda áreas relativamente recentes no que diz respeito à produção de vestuário, comparativamente com Karachi», acrescentou. Atualmente sediado no Bangladesh, depois de ter estado nove anos na Índia, Wooley afirmou ter encontrado «muitas fábricas de boa qualidade» e ter enfrentado poucos incidentes no processo de aprovisionamento em território paquistanês. O aspeto essencial ao sucesso deste sistema, indicou, é a comunicação. «Se não tiverem os pés assentes naquela área e tentarem gerir o processo atrás de um ecrã de computador no Reino Unido, nunca serão bem-sucedido. É necessário ter pessoas lá. Eu estou baseado no Bangladesh, tenho um escritório aqui, temos uma boa equipa e não temos problemas. Não há atrasos na expedição dos produtos», sublinhou. «Se a empresa implementasse um escritório no Paquistão, seria igual. Trata-se de uma barreira comunicacional resultante da distância. Eu viajo para o Paquistão com frequência, comunico através do Skype, a comunicação é essencial», acrescentou. Apesar das medidas implementadas pelo Paquistão e o programa de continuidade que pretende colmatar as limitações energéticas e estruturais do país, as entidades governamentais e do sector não devem ignorar a consequente perda de negócios em solo nacional. Em acréscimo às deficiências já apontadas, o país carece ainda de falta de produtividade, controlo de qualidade, serviços de manutenção e sistemas de proteção ambiental. No entanto, se o Paquistão aplicar efetivamente as medidas previstas no âmbito da segunda Política Têxtil nacional, poderá superar essas limitações. O acesso ao estatuto concedido pelo GSP+ tem o potencial para transformar o sector têxtil e vestuário nacional, a par de um esforço de comunicação que permitirá apaziguar as preocupações correntes de potenciais investidores e compradores.