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Para a eternidade

No final de tarde do passado domingo, o silêncio calou o barulho das páginas voltadas por mãos ávidas e olhares prescrutores das largas dezenas de apaixonados pela leitura que invadem diariamente a majestosa Salle Ovale da Bibliothèque Nationale de France. Os bancos, esses, foram ocupados por outros apaixonados, os da moda, para descobrir, em primeira mão, a coleção de Luís Buchinho para o outono-inverno 2015/2016, o ponto de partida para a celebração dos seus 25 anos de carreira este ano. À entrada, o busto do rei François I, cujo cognome era assertivamente “Pai e Restaurador das Letras”, parecia ter rodado a cabeça em direção à magnífica joia arquitetónica concebida por Jean-Louis Pascal em 1897, despertado pelo bulício causado por media, compradores e convidados que tomavam conta do espaço. Como o acaso faz bem as coisas, ou nada foi fruto do acaso, o universo da banda-desenhada foi o ponto de partida para Luís Buchinho criar esta coleção. «Foi assim que comecei a desenhar, basicamente através da paixão pelos livros de banda-desenhada», revelou o designer de moda, que assumiu que «seria cartoonista se não fosse designer de moda». Personagens da banda-desenhada, entre super-heroínas, detetives e até figuras do espaço, calcorrearam os vários corredores da sala de leitura onde “vivem” todas as grandes obras da literatura mundial. «Fiquei completamente emocionado [com o espaço]. Acho que tem uma aura emocional enorme, uma mística muito própria. Tem tudo. Não consigo pensar num sítio mais perfeito», confessou. Os coordenados, com silhuetas fortes, por vezes quase masculinas, combinaram técnicas diferentes, com a mistura de padrões, cores e diferentes materiais, alguns habituais nas criações de Buchinho, como as malhas, outros nem tanto, como os pelos verdadeiros de coelho e cabrito. «Há um retorno do mohair, que era um material que já não usava há algum tempo, muitas malhas tricotadas, muitas misturas de materiais, tais como cabedal com seda, crepes de lã e pelo verdadeiro», revelou. Os sapatos, atualmente produzidos em parceria com a Carité, «misturam o espírito masculino, vindo um pouco do calçado clássico e do calçado desportivo, juntamente com uma linha mais delicada em termos de uma inspiração um pouco gladiadora» e estarão igualmente à venda com a coleção de vestuário. Uma coleção e um desfile arrojado, realizado com o apoio do Portugal Fashion, onde houve «uma ambição maior no styling e na caracterização das manequins», sublinhou Luís Buchinho, para criar uma atmosfera «mais emocional, mais forte em termos de show». Combinação perfeita para celebrar 25 anos de carreira sem nostalgia e com os olhos postos no futuro, que passa cada vez mais pelos mercados internacionais, como deixava adivinhar o teto em vidro da Salle Ovale, à volta do qual estavam inscritos os nomes das mais importantes cidades do passado e do presente – Babilónia, Viena, Roma, Cartagena, Pequim, Berlim, Alexandria, Londres,… –, testemunhando a vocação universal do espaço, bem à imagem do criador e das suas criações. A apenas 5 km dali, no Carrousel do Louvre, decorria mais uma edição da Tranoï Femme, onde a marca Luís Buchinho estava entre os expositores, já com esta coleção para a próxima estação fria que, desde janeiro, num verdadeiro périplo pelos dois lados do Atlântico – Who’s Next Paris, Show & Order em Berlim e Edit em Nova Iorque –, vinha já a medir o pulso ao mercado. «Está a ser um início de ano extraordinário», afirmou Carla Reis, responsável pelas vendas internacionais da marca, no dia seguinte ao desfile. «Nas feiras de Paris registámos as melhores edições desde que começamos o projeto de internacionalização, há dois anos, e as estreias em Berlim e Nova Iorque foram muito auspiciosas, tanto para a coleção de vestuário como para a nova linha de calçado», revelou. Em menos de dois anos, a marca Luís Buchinho, presente em mais de meia centena de pontos de venda aquém fronteiras, conquistou 15 pontos de venda espalhados pelo mundo. E agora? «Os novos desafios colocam-se logo mal se acaba uma coleção e se começa outra», responde enigmaticamente Luís Buchinho.