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Paris homenageia Vionnet

Embora o nome de Madeleine Vionnet dificilmente seja reconhecido hoje, no seu tempo, a estilista era vista como sendo tão importante para a moda como Picasso para a pintura. Uma primeira retrospectiva histórica do seu trabalho no Museu de Artes Decorativas presta uma merecida homenagem à sua contribuição para mudar a face da moda desde 1912 até 1939, quando fechou a sua casa de moda na sombra da II Guerra Mundial. Nos círculos da moda manteve-se uma lenda, uma das primeiras modernizadoras e uma das mais inovadoras designers do seu tempo, sobretudo com o uso pioneiro do corte em viés e draping que libertava o corpo das mulheres das restrições de um corpete. A sua influência nas gerações seguintes de designers, como se verificou com Cristobal Balenciaga, Azzedine Alaia e Yohji Yamamoto, não tem paralelo. «Estas são peças que não têm a ver com ser simplesmente “giras” mas com verdadeira beleza», afirma Pamela Golbin, curadora da exposição, que gastou cerca de dois anos a juntar os 130 modelos em exibição. Vionnet era uma purista, uma perfeccionista, inspirada na beleza clássica da antiguidade Grega como mostrada na simplicidade do “peplos” – um lençol rectangular a envolver o corpo, atado no ombro e ajustado na cintura. E construiu os seus designs em volta de três formas modelo: o rectângulo, o quadrado e o círculo. «Todo o seu vocabulário estilístico é baseado nessas formas, ela trabalhou nelas interminavelmente, procurando a expressão mais simples e mais nobre», explica Golbin, que criou vídeos com grafismos animados com peças padrão para mostrar exactamente como encaixavam. «Para mim, a ideia de vestido é um conceito mental», Vionnet disse uma vez. Ao longo da sua carreira escolheu trabalhar com bonecas de madeira, com 80 cm de altura, em vez de em modelos vivos, cortando e mexendo nos tecidos até estar satisfeita o suficiente para fazer uma versão à escala real de cada modelo. Nunca se preocupou com desenhos preliminares, mas registou todas as suas criações com fotos da parte da frente, trás e lados, numeradas e mantidas em álbuns de arquivo. Os álbuns e as bonecas estão em exposição, tendo sido parte do generoso legado de Vionnet doado ao museu antes da sua morte, em 1975, aos 98 anos. Nascida numa família modesta, Vionnet queria ser professora mas foi aprendiz de costureira a partir dos 12 anos. Em 1896 mudou-se para Londres, para trabalhar para a modista Kate O’Reilly, que Golbin acredita lhe ter dado a astúcia para os negócios. De volta a Paris em 1901, foi trabalhar para as bem sucedidas irmãs Callot, a quem mais tarde atribuiu o facto de lhe terem ensinado que a produção de vestuário era uma arte. «Sem elas teria continuado a fazer Fords. Foi por causa delas que fui capaz de criar Rolls Royces», afirmou Vionnet. Deixou-as para trabalhar para Jacques Doucet, porque ele lhe permitia desenhar os seus próprios modelos, e finalmente abriu a sua própria casa em 1922. Numa década estabeleceu a sua assinatura. Não foi a primeira a cortar em viés mas nunca o método tinha sido usado num vestido inteiro, uma técnica que lhe deu uma nova dinâmica, segundo Golbin. A ela dá-se também o crédito de ter popularizado as golas tipo capuz e as peças presas apenas no pescoço. O seu material de eleição era o crepe, do leve como uma pena ao ultra pesado, por causa da sua fluidez. A partir de 1930, os produtores começaram a produzi-lo com larguras de 1,4 a 2 metros, permitindo que vestidos completos fossem cortados em viés, para produzir os modelos sinuosos e pendentes que eram a sua marca. A precisão do corte era fundamental. A decoração nunca era supérflua mas uma parte integrante da estrutura e equilíbrio de cada peça, incluindo as delicadas rosas à volta da cintura. O museu há anos que queria prestar tributo a Vionnet, mas teve de esperar até encontrar um patrocinador com “grandes bolsos”, porque muitos vestidos precisavam de ser restaurados. «O tule, especialmente, não estava em muito boas condições. Estes vestidos têm, afinal de contas, 70 a 90 anos. Tal como as senhoras mais velhas, precisam de um pequeno tratamento de spa», explica Golbin. A exposição estará aberta por mais tempo do que o habitual, até Janeiro de 2010, para estar presente em todas as grandes datas do calendário de moda de Paris, de modo a que o máximo de pessoas a possa ver. «Estes vestidos não são vistos há anos e, depois disto, serão novamente guardados por muito tempo. Este é o momento deles para brilharem», conclui Golbin.