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Paulo de Oliveira à distância de um clique

A produtora de tecidos contornou a escassez de feiras e de viagens com uma plataforma online para mostrar a coleção para o outono-inverno 2021/2022. As cerca de 1.000 referências, que incluem a estreia de tecidos de flanela para camisaria, foram digitalizadas e os clientes podem agora ver e quase tocar os novos tecidos à distância.

Paulo Augusto Oliveira

A simplicidade e o detalhe surpreendem quem adere à ideia de conhecer uma coleção de tecidos através do computador. Depois de agendada a reunião do Zoom com um comercial da Paulo de Oliveira, na hora marcada é como se os cartazes estivessem à nossa frente numa qualquer feira. A coleção é detalhadamente mostrada e quem está no lado de cá pode “folhear” os 19 conceitos, ver as estruturas e os desenhos ao pormenor, conhecer a composição dos tecidos, pedir os cartazes e até fazer encomendas.

A plataforma foi criada internamente com o apoio de uma empresa local. «Começámos a tratar disto no ano passado, já estava previsto, mas a partir de março, com a pandemia, acelerámos», conta o administrador Paulo Augusto Oliveira ao Portugal Têxtil.

A funcionar desde julho, o investimento, que rondou os 30 mil euros, implicou também a aquisição de material fotográfico para permitir a digitalização em alta resolução dos tecidos, a mesma que garante uma boa experiência ao cliente. A hesitação inicial de quem não está habituado a fazer compras deste tipo online, tem dado lugar a boas críticas. «Ao início estão um bocado céticos, mas depois de verem ficam bastante satisfeitos», explica Roberto Nuno, comercial da Paulo de Oliveira, que guiou o Portugal Têxtil pela plataforma e pela coleção da empresa. E o facto de ser em formato digital permite voltar atrás mais facilmente.

Conceitos

«É muito mais simples. Quando têm uma consulta, pedem uma reunião e eu vou mostrando o que temos. Há muitas consultas em que o cliente não sabe muito bem o que quer e despendemos muito tempo a fazer uma seleção e a mandar um monte de cartazes, quando, às vezes, ele só vai escolher um ou dois. Aqui [na plataforma] ele consegue ver muito mais facilmente aquilo que pretende», destaca Roberto Nuno.

A falta do toque é posteriormente compensada com o envio dos cartazes e amostras selecionados. «Muitos dos nossos clientes conhece a maior parte das qualidades e conhecem o toque. Nas qualidades novas, tentamos explicar e eles conseguem imaginar o toque e selecionamos o cartaz que ele gostar mais para enviar», afirma o comercial.

19 conceitos, 1.000 referências

A coleção para o outono-inverno 2021/2022 contempla quase 1.000 referências, divididas por 19 conceitos, que agrupam tecidos com propriedades distintas, desde os resistentes à ruga do Winter Travel e também do mais trans-sazonal All Year Travel ao All Stretch, com tecidos com mais elastano, uma área onde a empresa é especialista, passando ainda pelo Comfort Overcoat, com funcionalidade de repelência à água.

Há ainda a estreia do Comfort Flanel Shirt, uma nova área de negócio de nicho, com propostas para overshirts de flanela. Produzido com recurso a lã, poliéster e elastano, o novo conceito de produto conta atualmente com 24 cartazes. A flanela está igualmente disponível para casacos e calças, com essas opções propostas em Fanel Mix.

O conceito Oliveira Green, dedicado à sustentabilidade, não é novo mas, como salienta Paulo Augusto Oliveira, «é uma parte que está sempre a crescer em importância». A empresa garantiu a certificação Global Recycle Standard (GRS) no início de setembro e, neste tema, destaca precisamente a utilização de poliéster reciclado em 35 cartazes.

Também parte do Oliveira Green, mas inserido no conceito Wool Jackets, surgem três qualidades novas que usam lã reciclada a partir dos desperdícios das três empresas do grupo Paulo de Oliveira – Penteadora, Tessimax e a própria Paulo de Oliveira.

Comfort Overcoat
Wool Jackets

A sustentabilidade, de resto, continua a somar interesse, mesmo em tempos de pandemia. «Estas crises, às vezes, fazem as pessoas pensar e mudar alguns comportamentos e acho que essa tendência veio para ficar e vai-se repercutir naquilo que vão ser as nossas próximas coleções, que vão ter cada vez mais incidência em tudo o que sejam produtos reciclados e produtos dentro da nossa linha Oliveira Green. Acredito que vai continuar a ser uma área de grande crescimento», revela o administrador do grupo Paulo de Oliveira.

A gama Pink, dedicada à moda de senhora, lançada no ano passado, está igualmente representada na coleção. «É um projeto recente que tem vindo a crescer, apanhou-nos agora numa fase em que estava a começar a ter algum dinamismo mas ainda não é expressivo para aquilo que é o nosso volume de negócios», acrescenta Paulo Augusto de Oliveira.

À espera de melhores dias

No geral, é «toda a parte informal», que está a vender mais neste momento e é essa «que tem potencial ainda para crescer, mas isso vai depender muito daquilo que acontecer em termos de confinamento nos próximos tempos. Se as lojas abrem, se não abrem, se vão estar parcialmente abertas ou parcialmente fechadas. Este chamado confinamento light não é light coisa nenhuma, é só light porque a porta está aberta mas não há clientes», considera o administrador.

Os últimos tempos não têm sido fáceis e, depois da recuperação em setembro, já se sente novamente os efeitos da pandemia na economia e na atividade do grupo Paulo de Oliveira, que emprega 1.200 pessoas. «Em termos de mercado tem sido um ziguezague. Houve uma fase difícil durante março e abril, depois melhorou, sem nunca chegar aos valores habituais mas melhorou, setembro já foi um mês razoável, outubro começou a piorar e agora está parado», assegura Paulo Augusto Oliveira.

Uma situação que preocupa o administrador, apesar da solidez do grupo especializado em lanifícios. «A principal força que temos é que não ter dívida bancária, o grupo é sólido financeiramente e, portanto, se tivermos uma série de meses – e vamos ter seguramente – em que vamos estar a perder dinheiro, não vai ser isso que nos vai atirar abaixo», garante.

Pink

Numa análise ao sector, contudo, «vai haver muitas empresas que fizeram investimentos grandes, que estavam alavancadas, que vão eventualmente nesta primeira fase das moratórias ainda conseguir ir subsistindo, mas depois vão ter uma dificuldade grande». Além disso, aponta Paulo Augusto Oliveira, «a têxtil neste momento não está a funcionar só a uma velocidade, está a funcionar a diferentes velocidades: a parte mais formal está mais parada do que a parte mais ligada ao vestuário que usamos em casa, porque há muita gente que está confinada. Também há uma diferença entre o que se pode comprar online e o que se tem que ir comprar à loja. O fato, por exemplo, não se vende online, portanto há produtos que estão a sofrer mais que outros e nós estamos exatamente no segmento que está mais afetado, porque não se vende online, porque é vestuário formal e não há casamentos, não há batizados, não há eventos. Não se está a comprar fatos, portanto, o nosso segmento, neste momento, está em crise». No entanto, ressalva, «a nossa empresa também tem outros segmentos, não é só o vestuário formal, portanto se calhar não estamos tão mal como alguns que estão dependentes exclusivamente do formal. Mas não está fácil».

E 2021 não se afigura mais fácil para o administrador do grupo Paulo de Oliveira. «Vai ser o ano mais complicado, porque, no caso concreto das nossas empresas, estávamos com um crescimento grande até final de fevereiro, com quase 30% de crescimento nas vendas, o que era muitíssimo bom. Tudo indicava que íamos ter um ano muito bom, portanto quando veio a crise, estávamos de barriga cheia. Agora a segunda vaga já nos apanhou de dieta e no próximo ano, penso eu, as compras vão ser muito limitadas porque as lojas não escoaram stocks e continuam com dificuldades em escoar stocks. E enquanto não escoarem stocks, não vão comprar, portanto o próximo ano vai ser um ano difícil», conclui.