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Peles: um negócio eternamente controverso

Nas passerelles de Paris, Milão e Nova Iorque as criações arrebataram os corações dos presentes. As clientes voltaram a querer peles genuínas, pelo menos, as clientes fashion. Não tanto na forma de casacos de pele, mas na forma de acessórios, colarinhos, regalos ou casacos com ornamentos de pele. «Na Europa, estes artigos são responsáveis por cerca de metade do volume de negócios das peles», afirma Andreas Lenhart, presidente do conselho de administração da Federação Internacional do Comércio de Peles (IFTF), organização que integra associações de 29 países. O volume de negócios relativo ao vestuário de pele a nível da Europa situou-se em 2002/ 03 (Abril até Março) em cerca de 3,49 mil milhões de euros. «O número poderia ainda ser mais elevado, uma vez que não inclui todos os têxteis com aplicações de couro», esclarece Susanne Kolb-Wachtel, directora executiva do Instituo Alemão de Peles. Uma análise dos números do volume de negócios da indústria de peles mostra que o consumo destas tem crescido continuamente desde há alguns anos , sendo que o volume de negócios a nível mundial de1999/ 2000 até 2003/ 04 registou uma subida de 9,14 mil milhões de dólares para 11,7, valor equivalente a um crescimento de 28 por cento. Estes resultados foram apurados pela IFTF através dos números divulgados pelas suas associações membro. No entanto, as associações não trabalham todas da mesma forma e por exemplo, um casaco de malha com aplicações de pele pode ser classificado de forma diferente. Tendo isto em consideração os números devem ser analisados com alguma cautela, apesar de denunciaram sem dúvida uma tendência.

Quem mais beneficia com a crescente procura de peles são em primeiro lugar os criadores de animais, responsáveis por cerca de 85 por cento da produção mundial de peles, provindo os restantes 15 por cento de animais selvagens. Em toda a União Europeia existem cerca de 6500 locais de criação e grande parte deles localizam-se na Escandinávia. Na Alemanha, de acordo com os dados do Instituto Alemão de Peles, ainda só existemvinte enovequintas de peles em funcionamento. As peles são vendidas na maior parte das vezes em leilões e os locais de venda mais importantes são Helsínquia, Copenhaga, Toronto, Seattle e S. Petersburgo, cidades onde se realizam cerca dequatro leilões anuais. A mercadoria é avaliada e vendida em lotes que podem ter entrecinquenta amil peles. Os compradores nestes leilões são grandes comerciantes ou intermediários que operam por conta de outrem ou em nome próprio.

China como mercado final

Com base nos dados disponíveis é possível verificar que o crescimento do sector não está apenas relacionado com o interesse crescente dos designers internacionais pelas peles, mas também com a procura cada vez maior por parte do mercado chinês. «Os preços nos leilões são ditados pelos chineses», afirma Hans-Peter Lemm, assessor de imprensa da feira de peles de Frankfurt – Fur & Fashion. Os chineses e os russos são os maiores compradores. «Cerca de metade do consumo mundial de peles tem origem inquestionavelmente nestes dois países» e o sector tem de aceitar este facto. Um exemplo engraçado é a existência de pratos chineses no catering dos leilões o que mostra uma adaptação à diferente estrutura de clientes.

Os preços também sofreram alterações devido à grande procura. Segundo Andreas Lenhart, comerciante de peles e vestuário de pele, «nos últimos dois anos os preços aumentaram no geral mais de 50 por cento» e esta subida de preços continuou a verificar-se nos primeiros leilões deste ano. «Entretanto atingimos um preço exorbitante que pode, no entanto, descer a qualquer momento». A procura quase insaciável pode não possibilitar a queda destas taxas de subida sendo então necessário repensar a situação. Para tornar possível o acesso de consumidoras mais jovens a estes artigos utilizam-se peles mais acessíveis como a de cabrito ou de coelho. Uma pele de vison fêmea custa actualmente entre 30 a 35 euros e uma de macho ronda os 45 a 50 euros. Lehnart explica, «para um casaco de vison são necessárias 40 a 60 fêmeas ou 30 a 40 machos». O valor da matéria-prima é mais elevado no vestuário de pele do que nos têxteis.

Os grandes comerciantes, que compram os artigos nos leilões, trabalham as peles posteriormente. Os seus clientes são peleiros e confeccionadores de peles, e cada vez mais confeccionadores de vestuário feminino. «A estes vendemos artigos já acabados. Colarinhos, aplicações e forros que podem ser utilizados directamente», afirma Herbert Wücker, comerciante de peles de Frankfurt. Ele reconhece que mesmo assim se perdem muitas oportunidades no sector das peles na Alemanha. «Os confeccionadores de vestuário feminino, que produzem na China, também compram parte destes artigos lá». O mesmo se passa no comércio que compra, sobretudo acessórios de pele, directamenteà China.

A probabilidade de a pele preparada ser de um peleiro escandinavo é ainda relativamente grande. Os criadores de animais são na sua maioria da Escandinávia. No ano de 2002 as quintas de criação dinamarquesas produziram mais de 12 milhões de visons ganhando assim 514 milhões de euros. Uma grande parte das peles de raposa vem da Finlândia, tendo este país com mais de 2 milhões de peles em 2002, alcançado cerca de 250 milhões de euros. Ambos estes tipos de pele são consideradas parte fundamental do sector.

China como criador

De acordo com as estimativas da ITFT, neste espaço de tempo, produziram-se na Rússia cerca de 2,7 milhões de visons e 400 000 peles de raposa, e na China cerca de um milhão de visons e peles de raposa. Estes volumes foram na sua grande parte absorvidas pelos mercados nacionais, embora comecem também a chegar aos leilões europeus. Na Finlândia, por exemplo, foram vendidos pela primeira vez peles oriundas da China. 40 000 dos dois milhões de visons são originários da China. «A ITFT esforça-se para que se apliquem as mesmas leis relativas à produção de peles neste país», afirma Lemm. No entanto, é muito difícil dizer qual a situação real. Os defensores dos animais publicaram no início do ano um relatório sobre as quintas de criação chinesas que descrevia situações assustadoras, situações essas que não foram negadas pela IFTF. Numa nota de esclarecimento constava simplesmente: «Um número crescente de criadores chineses respeita os standards ocidentais». Estes standards dizem respeito por exemplo ao tamanho das jaulas e também aos métodos legais para matar os animais. O método usado actualmente nas quintas ocidentais é o envenenamento por gás, que permite uma morte indolor e rápida.

Os estados membro da UE acrescentaram ainda um “Code of Practice” às regras já existentes, embora a sua aplicação não seja obrigatória. No caso de incumprimento por parte de um criador as suas peles podem ser retiradas dos leilões, facto que até ao momento nunca aconteceu.

China como produtor

A China não desempenha um papel importante como produtor de peles, agravado pelo facto de não serem competitivas a nível da qualidade. A China tem um papel bem mais relevante, em particular Hong Kong, no que diz respeito ao acabamento e refinamento do produto. De acordo com os dados da IFTF quase 60 por cento de todas as peles puras são tratadas neste local. Muitas empresas alemãs e europeias criaram joint ventures em Hong Kong ou noutro local da China, uma vez que os custos são mais favoráveis, existe menos burocracia e menos legislação relativamente aos químicos que podem ser utilizados.

Também existem peles que são tratadas em empresas europeias. Gerd Kursawe, director executivo do comerciante de peles Lodde & Hermsdorf, afirma, «nós na Alemanha vivemos do mercado de segmento superior». Este segmento tem de continuar a ser fornecido nos países europeus e na América e simultaneamente existe nos países emergentes uma procura de artigos específicos. As peles são total ou parcialmente coloridas, estampadas, rapadas, etc. Muitas técnicas permitem que as peles sejam bem mais leves do que no passado. Uma outra variante é o acabamento reversível que permite que artigo possa ser usado do lado do couro ou da pele, característica que ajudou à volta deste artigo.

O preço da emoção

A decisão do comerciante de vender peles suscita muitas questões a nível emocional. Um inquérito da TW-Testclub demonstrou que mais de um terço dos comerciantes não tem peles no seu reportório de produtos, nem na forma de adorno ou de acessórios. Muitos afirmam que adoptariam as peles se os seus clientes demonstrassem interesse por elas, mas estão solidários com os retalhistas que decidiram comercializá-las.

Existem algumas empresas que se recusam a comercializar peles: «só vendemos peles em que tenha havido um vítima poliéster», uma afirmação de comerciante de vestuário alemão. A C & A e a Karstadt retiraram das suas colecções já há alguns anos os artigos de pele como resultado da pressão exercida pelos defensores dos animais. Empresas como a Inditex e a Mango adoptaram a mesma atitude: nas lojas do grupo Inditex não existem peles desde o início do ano e a Mango assinou um acordo com a PETA em que se obriga, o mais tardar no final do ano, a não vender vestuário com pele de coelho.

O negócio das peles mexe com as emoções e com os bolsos de muita gente. Actualmente as peles geram lucros no campo da moda e a discussão, que muitos adjectivam de hipócrita, dificilmente chegará a uma conclusão. A indústria não pode é defender-se atrás dos seus clientes afirmando que o mercado exige peles e colocando a tónica nas razões financeiras. Contudo, não deixa de ser alarmante a crescente procura de peles na China.