Início Notícias Tendências

Pequenos aprendem a viver devagar

A geração dos mais novos, batizada de Alfa, está a reagir contra a agitação do dia a dia atual, que está a stressar e a esgotar os seus pais. Uma nova geração, mais consciente dos benefícios de viver a vida mais devagar, que promete conjugar melhor a vida pessoal com a vida profissional.

Os seus pais Milénios (geração Y) fizeram do estado de estar sempre ocupado uma parte necessária da identidade de marca pessoal, mas a Geração Alfa vai ser a geração que vai readotar e a rebatizar a preguiça, segundo um novo estudo do WGSN. Isto é, ao mesmo tempo, uma reação à sua educação e à necessidade de abrandar – uma resposta necessária à tecnologia cada vez mais sofisticada e invasiva.

Os Alfas vão revoltar-se contra os seus pais esgotados, que tentaram gerir múltiplos papéis e carreiras “hifenadas” (como músico-programador-pasteleiro) e assumir uma abordagem mais equilibrada, onde o bem-estar mental será enfatizado.

Esta é uma geração que está a crescer com ioga e meditação na sala de aula e num ambiente onde se discute mais abertamente as doenças mentais na sociedade.

Para esta geração, o local de trabalho deverá ter possibilidades mais reduzidas, graças aos avanços na inteligência artificial e na tecnologia inteligente. Estima-se que metade dos empregos tenha desaparecido até 2035 – aproximadamente a altura em que a geração Alfa deverá entrar no mercado de trabalho. Uma abordagem superambiciosa e superconectada à educação e ao local de trabalho não será relevante para estes membros. O tempo de lazer irá tornar-se mais importante à medida que a ideia de um rendimento básico universal ganha terreno e os sistemas educativos terão de evoluir para preparar a Geração Alfa para este mundo dominado pela tecnologia inteligente.

Em vez de competir com o ritmo da tecnologia, a Geração Alfa vai crescer num mundo onde há uma maior necessidade de se envolver mais e celebrar o que torna os humanos únicos. Filósofos e empresários de tecnologia acreditam que a geração Alfa vai precisar de aprender a abraçar a sua irracionalidade, reações emocionais e impulsos criativos, porque essas são as qualidades que a inteligência artificial é atualmente incapaz de replicar.

Viva a preguiça

A crescente sofisticação da tecnologia e a necessidade de trabalhar ao lado de inteligência artificial vai obrigar a geração Alfa a reconhecer o que nos torna humanos. Os nossos cérebros são incapazes de competir com computadores no que diz respeito a lógica e eficiência – sobretudo numa altura em que começamos a entrar na era da computação quântica – mas são as outras capacidades, como a empatia, irracionalidade e irreverência que nos distingue e resulta em originalidade criativa.

Em janeiro de 2019, Josh Cohen, professor de psicanálise em Goldsmiths, na Universidade de Londres, publicou um trabalho polémico contra a cultura do excesso de trabalho e um manifesto para “ser” em vez de “fazer”. Cohen argumenta que a grande criatividade vem de parar e pensar. O seu livro, “Not Working: Why We Have to Stop”, argumenta que o ócio e o sonhar acordado são essenciais num mundo de hiperatividade.

O professor explora a ligação entre a inércia e a mente revisitando a vida de figuras da cultura mundial, desde Emily Dickinson e Jean-Jacques Rousseau a Tracy Emin e David Foster Wallace. Confrontados com o excesso do digital, inteligência artificial e uma mentalidade “sempre pronta”, parar e ouvir os ritmos interiores pode ser a única coisa que nos mantém sãos.

«O efeito desta permanente ocupação é deixar-nos a sentir que os estados inativos não têm qualquer significado ou validade em si próprios; que existem apenas para serem preenchidos com algum conteúdo. A inatividade existe, cada vez mais, como o negativo das nossas vidas “reais” de atividade e propósito», escreveu Cohen no jornal The Guardian.

Com a automação a tornar-se numa ameaça crescente no mercado de trabalho, será cada vez mais importante para a geração Alfa ter em conta as qualidades que tornam os humanos especiais.

De acordo com Viktor Mayer-Schonberger, professor na área da regulamentação da Internet na Universidade de Oxford, são estes processos de pensamento irracionais e a capacidade de dar saltos de fé irracionais e criativos que devemos procurar promover na geração mais nova.

Evitar o burnout dos Milénios

O burnout dos Milénios, e a saúde mental no geral, tornou-se parte do discurso público. Em março de 2019, o jornal The Washington Post declarou que «o burnout está em todo o lado». Embora não seja uma condição reconhecida medicamente, é um conceito que tem muita aceitação junto da geração Y.

O termo foi popularizado pela jornalista Anne Helen Petersen, do BuzzFeed, num artigo de janeiro de 2019. «Porque é que estou em burnout? Porque interiorizei a ideia de que tenho de trabalhar a toda a hora. Porque é que interiorizei essa ideia? Porque tudo e todos na minha vida reforçaram isso – implícita e explicitamente – desde que era pequena», escreveu.

O burnout é frequentemente atribuído às redes sociais, aos ciclos noticiosos de 24 horas e à pressão para ver emails do trabalho fora das horas de escritório. Um estudo de 2017 da Future Workplace concluiu que 95% dos diretores de recursos humanos acreditam que o burnout está a afetar a retenção de recursos, muitas vezes por causa de cargas de trabalho pesadas e pela expectativa de que os trabalhadores devem estar “de prevenção” a todas as horas.

«As organizações normalmente recompensam os trabalhadores que trabalham muitas horas e substituem os trabalhadores que não assumem mais trabalho, o que é um problema sistemático que causa burnout em primeiro lugar», afirmou Dan Schawbel, diretor de investigação na Future Workplace, ao The Washington Post. Um estudo de 2018 do Harvard Global Health Institute concluiu que o burnout dos médicos nos EUA estava a causar uma crise de saúde pública.

Várias publicações recentes analisaram o fenómeno do burnout, desde o livro “Mommy Burnout”, da psicóloga Sheryl Ziegler, a “Thrive”, de Arianna Huffington, e “Burnout: The Secret to Unlocking the Stress Cycle”, das irmãs Emily e Amelia Nagoski.

À medida que a consciência sobre o impacto do stress aumenta, a geração Alfa está a crescer numa era onde a meditação e outras práticas com base no bem-estar são reconhecidas como essenciais para a sobrevivência no mundo digital.

Bem-estar e saúde mental

A sociedade está lentamente a reconhecer que a saúde mental é tão importante como a saúde física. A Geração Alfa é a primeira onde práticas de bem-estar, como meditação, exercícios de mindfulness e ioga, se tornaram comuns na rotina diária das crianças. Há cada vez mais provas científicas a sugerir que abrandar e dormir mais é fundamental para a saúde do corpo e da mente.

O sono é cada vez mais assumido como fundamental para o bem-estar. O Dia Mundial do Sono pretende «chamar a atenção para o sono enquanto privilégio humano, muitas vezes prejudicado pelos hábitos da vida moderna». E há mais e mais estudos que mostram os benefícios do sono.

Um estudo de Harvard encontrou uma correlação entre a escola começar mais tarde de manhã e a performance dos alunos. Com outros estudos semelhantes, os Alfas podem ser a primeira geração a beneficiar completamente de horários escolares pensados à medida dos seus ritmos naturais, com estas medidas a serem adaptadas no geral.

Além disso, de acordo com um estudo da Universidade Bar-Ilan de Israel, o sono ajuda a reparar ADN estragado nos neurónios. «Um período desligado dá-nos tempo para limpar tudo para o dia seguinte, para nos dar um novo começo antes de estarmos novamente ocupados», assegura Lior Appelbaum, que liderou o estudo.

Com tudo isto, os Alfas deverão, mais facilmente, adotar os movimentos “slow” – slow media, slow food, slow fashion – reagindo contra o culto da velocidade criado pelos seus pais Milénios, focando-se na autenticidade e nas ligações.

Sem prazos e com tempo livre

Máquinas inteligentes deverão tomar conta de muitas áreas de trabalho, incluindo tarefas manuais e trabalhos qualificados na saúde, advocacia e ensino. Um estudo de 2017 da McKinsey sugere que a tecnologia inteligente pode eliminar metade dos empregos atuais até 2035. Em resposta, vários empresários da área tecnológica têm apelado à criação de um salário mínimo universal, que poderá pagar aos indivíduos um salário sem a necessidade de trabalhar. A ideia é fornecer pagamentos regulares e incondicionais aos cidadãos e permitir um padrão mínimo de vida.

Um dos testes mais conhecidos sobre o salário mínimo universal foi realizado na Finlândia, com 2.000 pessoas. Os resultados preliminares foram publicados em 2019 e revelaram que as pessoas que receberam o salário mínimo tiveram uma melhoria no bem-estar, com 55% a afirmarem que a sua saúde estava bem ou muito bem. Os níveis de stress também desceram.

Sam Altman, presidente da aceleradora de start-ups Y Combinator, está a planear o seu próprio estudo-piloto. Num podcast de janeiro de 2019 com Tyler Cowen, um economista da Universidade George Mason, Altman discutiu a importância de «dar uma estrutura financeira às pessoas pobres». Isso, acredita, será conseguido através de um cripto-sistema que funciona a nível internacional.

Elon Musk é um dos que apoia a ideia de um salário mínimo universal e de que isso trará muitas outras vantagens. «As pessoas terão mais tempo para fazer outras coisas, coisas mais complexas, mais interessantes», asseverou. «Certamente mais tempo livre. E depois temos de perceber como nos integramos num mundo e num futuro com inteligência artificial avançada», acrescentou.

Se e quando isto acontecer, a geração Alfa terá significativamente mais tempo livre do que as gerações anteriores. A obsessão pela carreira das gerações anteriores será ultrapassada e irrelevante.

Esta capacidade de dar menos relevância à carreira será igualmente sentida na escola, onde será dada prioridade aos valores humanos e à abordagem criativa à resolução de problemas.

Na Waldorf School of the Peninsula, em Silicon Valley, a maioria dos pais são executivos em gigantes tecnológicas como a Apple e a Google. Os professores dão preferência a uma abordagem prática, onde a imaginação e o desenvolvimento criativo dos alunos são prioritários. A utilização de tecnologia na sala de aula não é encorajada. Os estudantes escolhem o seu próprio currículo e os professores funcionam mais como mentores, guiando-os pelas atividades e tópicos de interesse. Em vez de trabalhos de casa e testes, são usados portefólios e exposições para mostrar a escrita, os trabalhos de arte e outras criações.