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Pequenos luxos – Parte 2

O mercado de luxo floresce ao ritmo do público infantil e cria novos produtos e serviços destinados exclusivamente a este jovem segmento de mercado, num momento em que, mais do que para os seus utilizadores, este nicho procura satisfazer as ambições dos seus progenitores.

Como forma de reafirmação social, os pais não hesitam em desembolsar somas exorbitantes por grandes luxos para a sua pequena prole, sejam eles bens materiais ou cuidados de beleza (ver Pequenos luxos – Parte 1).

Cosméticos infantis Impulsionada pelo sucesso dos serviços de estética profissionais para crianças, a indústria dos cosméticos investe no lançamento de produtos destinados ao público infantil e as vendas assinalam um crescendo à escala global. O Brasil atingiu o equivalente a 121 mil milhões de euros em 2013 e projeções preveem que os EUA irão ultrapassar a marca dos 3 mil milhões de dólares até 2018, assim como o Reino Unido deverá registar um total de 493 milhões de libras nessa data.

Enquanto os produtos de cosmética orgânicos continuam a representar uma substancial quota deste segmento, novas categorias de produtos estão a emergir como, por exemplo, linhas de cosméticos sem adição de produtos potencialmente tóxicos. Entre os mais populares, destacam-se os óleos corporais de efeito brilhante sem toxicidade e verniz para unhas sem odor e facilmente removíveis sem recurso a substâncias químicas.

Também os perfumes para bebé adquirem popularidade e as marcas de luxo acompanham a tendência. Entre elas, a Dolce & Gabbana lançou o perfume concebido para acentuar o odor natural do bebé, uma fórmula popular que é utilizada por outros produtos como a Le Labo Baby Ambrette, Musti Eau de Soin e Bvlgari Baby Eau de Toilette. Uma outra disposição emergente, mas envolta em controvérsia, é o branqueamento dentário de adolescentes através de produtos de venda a retalho ou por via de um profissional de saúde especializado. Algumas empresas oferecem serviços para crianças e jovens, apesar da recomendação generalizada impor uma idade mínima de 16 anos.

Gourmands em miniatura

O conceituado chefe David Boulud criou recentemente um menu de degustação constituído por sete pratos, a ser testado por seis crianças convidadas, no seu restaurante nova-iorquino. O objetivo de Boulud passa por expandir o palato infantil e «dar a conhecer às crianças uma grande variedade de sabores, camadas e texturas.» Boulud é um dos muitos chefes de cozinha e proprietários de restaurantes que têm aderido a esta nova era do gourmet, produzindo criações capazes de estimular e cultivar o palato das crianças. Ultrapassando a dimensão simplista de um menu infantil, os chefes procuram adaptar as refeições adultas de forma a adequá-las ao gosto dos mais novos.

O chefe Todd Gray do restaurante americano Equinox opta por usar menos especiarias, técnicas variadas de empratamento e, por vezes, prepara refeições improvisadas ao gosto das crianças. A prestigiada escola francesa de culinária, Lenotre, expandiu o seu portfólio de atividades, disponibilizando aulas de culinária a crianças com idades compreendidas entre os oito e os onze anos e cursos intensivos de três horas para adolescentes. Nos EUA, escolas direcionadas unicamente para o ensino do público infantil começam a surgir em grandes áreas metropolitanas como Nova Iorque, São Francisco e Atlanta.

Com os jovens gastrónomos em mente, têm surgido também novas cadeias de comida orgânica e gourmet com possibilidade de entrega ao domicílio, que confecionam produtos especialmente destinados à satisfação das necessidades de bebés e crianças muito jovens.

Jovens viajantes

O mercado global do turismo continua em crescimento e o segmento de luxo do sector retomou recentemente os valores alcançados antes da recessão. Um dos principais motores de crescimento deste sector é a crescente popularização das férias de família multigeracionais, com os pais e avós a considerarem comodidades de luxo adaptadas a toda a família. Um número crescente de hotéis e resorts optou por incluir comodidades e benefícios extraordinários entre a sua gama de oferta, especificamente direcionados para o público infantil, com o objetivo de satisfazer as ambições dos adultos que as acompanham. O programa “The Trump Kids”, disponível nas unidades hoteleiras do magnata americano, contempla uma ampla gama de produtos para crianças, desde cocktails não alcoólicos, produtos de higiene infantis, jogos e visitas turísticas nas cidades de alojamento com particularidades que as tornem atrativas aos olhos do público infantil.

Por sua vez, o Hotel Bristol em Paris recebe as crianças com um livro personalizado, um animal de pelúcia, produtos de banho especiais e uma atividade de caça-ao-tesouro coordenada pelo staff do hotel. O londrino Berkeley Hotel disponibiliza equipamentos úteis ao quotidiano do bebé, como aquecedores de biberões, atoalhados de linhos orgânicos e menus de refeição concebidos para crianças. A marcar a última tendência, surgem pratos confecionados com ingredientes orgânicos locais, numa filosofia denominada “da quinta para a mesa”.

Interiores indulgentes

O investimento em espaços interiores inspirados no universo infantil tem aumentado nos últimos anos, uma tendência impulsionada pela crescente popularidade das suítes de maternidade de luxo. Este novo movimento ampliou as somas despendidas em bens móveis e tecidos decorativos, no âmbito de uma filosofia que ultrapassa a mera funcionalidade das peças e que procura personalizar os bens às ambições dos clientes. Os exemplos abundam nos media, que nos informam diariamente das tendências aparentemente despesistas das celebridades, como Beyoncé e Kim Kardashian, que adquirem berços cujo valor mínimo ronda os 4.500 dólares, entre várias outras opções de enxoval de bebé, a preços variáveis em função de customizações personalizadas.

Os quartos de criança tornam-se cada vez mais criativos, tendo como foco a criação de um mundo mágico, que pretende replicar as conceções fantasiosas dos contos de fadas e séries de ação que preenchem o imaginário infantil. A contratação de designers e decoradores de interiores popularizou-se e os custos, acrescidos pelo mobiliário artesanal, pinturas murais e tecidos de luxo, podem atingir os 200 mil dólares. As casas de fantasia são também um negócio em ascensão.

Com um preço mínimo de 36 mil dólares, as mini mansões são casas de brincar luxuosas que procuram imitar os modelos reais e podem incluir tetos de catedral, escadarias e jardins de inverno. Atualmente, as empresas reconhecem a importância de captar a atenção dos públicos mais jovens e encaram-nos como indivíduos capazes de influenciar e dominar a decisão de compra. Por esse motivo, existe a necessidade de adaptar os produtos e serviços, tornando-os potencialmente apelativos ao público infantil. No entanto, compreendem também o impacto que a compra e utilização destes produtos tem sobre os progenitores ou familiares das crianças e bebés, para os quais, enquanto utilizadores, a vantagem da gama luxo é insignificante.

Os produtos e serviços não se limitam exclusivamente à sua utilidade prática mas são capazes de gerar sentimentos de reforço social e cultural nos seus aquiridores. Desta forma, cada vez mais, a indústria de luxo infantil estrutura um discurso capaz de alcançar os dois públicos e apelar às vantagens inerentes à aquisição de um produto para pais e filhos simultaneamente.