Início Notícias Moda

PF encerra em festa

«Iniciámos da melhor forma as comemorações dos 20 anos do Portugal Fashion, que irão prolongar-se até outubro próximo. Mais de 30 desfiles, duas cidades, seis edifícios, oito passerelles e quase 25 mil pessoas são números que ilustram o sucesso desta edição, que consolidou a nossa lógica organizativa de descentralização, permitindo que este espírito de comemoração se espalhasse também pelas urbes de Lisboa e Porto», resumiu o diretor de comunicação do Portugal Fashion, Rafael Alves Rocha, no final do evento. «Nestes 20 anos que agora comemora, o Portugal Fashion dinamizou a relação entre a indústria têxtil e de vestuário e a moda portuguesa, apoiou a internacionalização de criadores e marcas, lançou jovens designers de muito talento e promoveu o nosso pronto-a-vestir em showrooms internacionais. O Portugal Fashion contribuiu decisivamente para a mudança do paradigma de desenvolvimento da Fileira Moda», destacou Rafael Alves Rocha. O último dia do Portugal Fashion, celebrado na Alfândega do Porto, ficou marcado por outro aniversário: os 50 anos da Dielmar. O desfile da marca foi uma festa na passerelle, com 50 coordenados masculinos, mas cuja abertura esteve a cargo de uma mulher, em representação das mulheres que todos os dias trabalham para o sucesso da empresa de Alcains. «Foi uma homenagem às mulheres e uma homenagem a todos os trabalhadores da Dielmar e a todas as pessoas que ajudaram a construir este projeto com 50 anos», explicou a administradora Ana Paula Rafael, que agradeceu ainda «a Portugal e aos portugueses pela ajuda que têm dado à Dielmar, que tem sido fundamental». Os desfiles encerraram com a moda de autor, assinada por Fátima Lopes, numa coleção denominada Black Bainbow e que a designer descreveu como «o meu guarda-roupa de sonho», onde primam contrastes sofisticados em homenagem ao paradoxo feminino. Indústria marca pontos Mas a tarde tinha começado com a indústria, de calçado e de vestuário, a dar cartas. Na primeira, os sapatos rasos dominaram as coleções das marcas portuguesas, “interrompidos” por saltos médios na Silvia Rebatto e muita cor nos modelos quase “artesanais” das propostas de Alexandra Moura para a Goldmud. «Nesta coleção tivemos um trabalho muito grande, quer ao nível da criação, quer ao nível da conceção, porque foi uma coleção que teve como inspiração várias tribos primitivas que existem ainda no planeta. Daí este lado muito tribal das tiras, do amarrar, que é o primórdio», revelou Alexandra Moura, que sublinhou que «cada pé é quase uma peça única, tudo é feito de uma forma de quase “alfaiataria em sapato”». Já no vestuário, a Ballentina trouxe a autorreflexão para o centro das propostas para o outono-inverno 2015/2016, com “Core” a revelar formas simples, com padrões geométricos reinventados, em tons neutros como preto, bege, azuis-escuros, enquanto a Cheyenne e a Concreto colocaram uma tónica ecológica na sua coleção. «É inspirada no Polo Norte e no Polo Sul, no gelo, da neve, daí muito branco. Temos o amarelo, que é o degelo, para chamar a atenção para o aquecimento global», indicou o designer Hélder Baptista. Na MDS, o boho-chic invadiu a passerelle, com chapéus, coletes (para eles), pelos e jeans boot cut (para elas) a prometerem um inverno cheio de estilo. O homem da Vicri para este outono-inverno 2015/2016 apresenta-se sempre no seu melhor. Inspirada no filme “Quadrophenia”, a marca da Riopele apostou tudo na elegância sem pretensões, com cores sóbrias e materiais de luxo, como as sedas. A irreverência da marca continuou nos estampados. «A grande novidade é a utilização dos cinzas, que não é uma cor que a Vicri use muito», revelou o designer Jorge Ferreira. O protagonista do desfile, contudo, não veio vestido pela marca: Tufão, o cão que tem mais de 80 mil seguidores no Facebook, foi o convidado de honra, acompanhado pela dona, Raquel Strada, vestida com um fato estampado da Vicri. Na Lion of Porches, o campo trouxe inspiração a parte da coleção da marca, que continua a ter uma vertente preppy. «Tem um lado mais campestre, com uma grande influência das cores naturais dos materiais e muito rica em termos de matérias-primas, como caxemiras, alpacas e sedas», referiu Natércia Margarido, responsável pela coleção de senhora. «Depois temos um tema preppy, em que misturamos os tons naturais do city com o marinho e um tom rosa, e o tema Lion, que é o tema mais forte da coleção, com um tema equestre», acrescentou. Sol no Bloom Entre os jovens designers presentes no último dia no Espaço Bloom, cujo cenário incluiu o “sol” criado pela dupla de arquitetos Nuno Paiva e Astrid Suzano para o International Fashion Showcase de Londres, Catarina Santos revelou Align with Kay, a sua nova marca, com uma coleção inspirada na Fórmula 1. Eduardo Amorim, por seu lado, apresentou Classy 2.0, onde misturou elementos clássicos e desportivos, numa coleção dividida entre as lãs e tecidos mais técnicos e onde os acessórios adotaram os mesmos materiais. O Atelier CTRL fez a sua estreia na plataforma de jovens designers. As t-shirts, que começaram por ser o foco da marca, deram lugar a uma coleção completa, onde o lado artístico se mantém. «Crescemos de uma forma orgânica até fazermos uma coleção completa como esta, que foi a primeira, e nada melhor do que com a primeira coleção fazer a estreia no Portugal Fashion», afirmou Horácio Vilela, fundador e diretor criativo da marca. Teresa Abrunhosa encerrou os desfiles no Bloom, com propostas onde o digital e o artesanal se cruzaram, prosseguindo contudo a narrativa da marca de uma mulher sedutora, com silhuetas femininas e mas que nesta estação adota também toques masculinos. O eterno feminino Nuno Baltazar desceu às Furnas da Alfândega do Porto para mostrar a coleção “Um Homem Chora”, inspirada pelo filme epónimo de Sally Potter e nas três personagens que se cruzam em Paris na II Guerra Mundial: Fegele, Lola e César. «A ideia era misturar as personalidades destas três personagens – a russa é mais sofisticada, a judia é mais discreta e o cigano é mais rústico e easy wear – num só look, num contraste grande entre tecidos muito confortáveis com aplicações de bordados e acabamentos em foile para um toque mais sofisticado», afirmou o designer. A coleção resultante mostra, assim, um mundo urbano, com silhuetas em H, onde elementos como os chapéus e as franjas de lã ganham importância, combinados com sapatos masculinos e óculos de armações finas. A TM Collection by Teresa Martins trouxe os tecidos portugueses para o centro das atenções, numa coleção batizada “Entre Serras”. «Foi da minha viagem à Serra da Estrela, à Fábrica do Burel, que surgiu esta coleção. Fui ver o espólio de tecidos que eles tinham, depois fui à Índia buscar as sedas, e tudo se conjugou», confessou Teresa Martins. Silhuetas retas e “casulo” e jogos gráficos, geométricos e orgânicos, criaram uma coleção confortável para o outono-inverno 2015/2016. Luís Onofre, por seu lado, apostou na sensualidade absoluta, com modelos de sapatos e sandálias inspirados na tendência soft bondage, por oposição a ténis e elementos mais masculinos, nomeadamente nos padrões camuflados. Mil e uma criações Na véspera, o Portugal Fashion apoderou-se, pela primeira vez, do Palácio da Bolsa. Ainda sob a luz lânguida do fim do dia na Invicta, filtrada por uma enorme claraboia, a Meam by Ricardo Preto mostrou uma mulher mais sofisticada, numa coleção feita inteiramente com recurso a malhas. «A marca tem vindo a crescer, continua a ser uma coleção trendy, mas é necessário sofisticá-la», destacou o criador. Prova dessa evolução é que no átrio da entrada daquele que foi o monumento mais visitado da cidade em 2014 desfilaram mulheres mas também homens. Subindo ao primeiro piso do Palácio da Bolsa, à opulência deliberada do Salão Árabe, a remeter para o mundo mágico das “Mil e Uma Noites”, Estelita Mendonça contrastou com a sobriedade de uma coleção inspirada no vestuário de trabalho, com cores escuras e sóbrias a refletir a intemporalidade do uniforme. Os manequins desfilaram ainda com acessórios a lembrar placas identificativas sem nome, criados pela Taka-Mau. Momentos antes, Susana Bettencourt voltou a arrojar nos estampados, a preto e branco e tons terra, e em silhuetas fluídas, com acessórios cobre a complementar um visual para uma mulher forte e destemida. «É o fechar do meu ciclo do homem versus natureza e aqui a natureza ganha. Daí começar em preto, branco e cinzento e depois de repente começar a explodir o cobre, a cor e os tons terra. É a natureza a apoderar-se da nossa humanidade», explicou a criadora. As riscas, em todas as direções, marcaram as propostas da tripla Klar, numa coleção dominada pelo preto e branco, mas também com azul claro, rosa velho, vermelho vinho e bege, onde a identidade da marca criada por Andreia Oliveira, Alexandre Marrafeiro e Tiago Carneiro sai reforçada, bordada, colada e estampada nas peças. Pedro Neto sentiu-se em casa no seu segundo desfile individual na plataforma Bloom. “Inhabitation”, como apelidou a sua coleção para a estação fria do próximo ano, levou ao Salão Árabe uma mulher forte, sóbria nas cores – pretos e cinzas com apontamentos de musgo – mas dramática nas formas, com coordenados que se pautaram pelo conforto. «É uma coleção eu, eu, eu», afirmou o designer, atualmente a concluir o curso de design de moda no Modatex. Tudo em jogo A “Hora do Chá” chegou à hora de jantar ao Palácio da Bolsa, pelas mãos experientes de Anabela Baldaque. Um átrio repleto viu a mulher casual e com espírito rock que a criadora quis mostrar para esta estação fria. A música, com forte batida, acompanhou o ritmo das manequins e os coordenados. Depois da primeira jogada na estação passada, no outono-inverno 2015/2016 Carlos Gil aposta tudo. “All in” resume as propostas do criador, num desfile onde até a lua, que espreitava por entre a claraboia, não quis faltar. Os looks desportivos surgiram ocasionalmente, regressando uma mulher sofisticada, «forte mas que gosta de brincar» nas palavras do criador. À coleção que apresentou em Paris, Diogo Miranda acrescentou vestidos de gala, «que fazem todo o sentido em termos de vendas em Portugal», referiu o criador. No átrio do Palácio da Bolsa, desfilaram criações sofisticadas, dignas das verdadeiras parisienses. «Na estação passada a mulher Diogo Miranda tinha ido a um safari. Agora é como se regressasse a Paris, com um vestido elegante e um casaco oversized», afirmou. O homem e a mulher Miguel Vieira encerraram o terceiro dia – com uma coleção já apresentada em Madrid e na ModaLisboa – num adeus, ou até breve, ao Palácio da Bolsa. «Este cenário é maravilhoso. Acho que foi um grande salto que o Portugal Fashion fez, de mostrar, já desde o ano passado, a cidade do Porto. E fico tão feliz porque há sítios maravilhosos, coisas tão bonitas, que os estrangeiros ficam sempre encantados», referiu.