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PF ousa em Lisboa

Coube a Susana Bettencourt e Hugo Costa a abertura da passerelle da 32.ª edição do Portugal Fashion, a que se seguiu o desfile de Andreia Lexim, Estelita Mendonça e Daniela Barros. No espaço da Carpe Diem Arte & Pesquisa, onde a fotografia tem lugar de destaque em exposições e workshops, a arte em forma de moda entrou, literalmente, pela porta que deu acesso à passerelle, num conceito mais informal como é característico dos desfiles do Espaço Bloom, dedicado aos jovens criadores. As malhas jacquard e racladas preencheram parte da coleção “Fragmented Oxidation” apresentada por Susana Bettencourt, inspirada «na ideia de deterioração dos objetos como ponto de partida». Bege ocre, azul-esverdeado e cinza arroxeado são as cores dominantes da coleção. «Esta coleção foi uma luta muito grande, é preciso mesmo muita determinação e, como diz a minha irmã, uma dose de loucura», afirmou a criadora aos jornalistas. Também as malhas, mas neste caso jerseys e tricots, estiveram presentes nas propostas de Andreia Lexim para o próximo outono-inverno, conjugadas com tecidos tecnológicos e crepes, em peças influenciadas pelos trabalhos do escultor Richard Serra e do designer japonês Issey Miyake. Cortes geométricos preencheram os vestidos e camisolas, numa «relação entre vazio e conteúdo», explicou a jovem criadora, que optou pelo branco, preto e azul na paleta de cores. O corte e a construção das peças assumiram o papel principal na coleção “Vada” de Daniela Barros, gerando uma silhueta feminina forte mas ambígua, sempre muito estruturada. «O corpo, nesta coleção, surge como base e inspiração, assumindo uma face etérea, sublime, mas rígida, frívola e imprevisível», revelou a criadora. O preto continuou a dominar, nas calças e saias, embora tenham surgido coordenados em branco e até um casaco solto, assimétrico, em camel, na passerelle. Na moda masculina, Hugo Costa e Estelita Mendonça exploraram o sportswear, embora de formas diferentes. O primeiro foi beber inspiração à Floresta, numa coleção que «tem origem na necessidade de reflexão sobre a relação entre a natureza e os espaços urbanos. Da natureza refletem-se as cores, os brilhos das florestas densas e os tons próximos mas tão diferentes. Nos espaços urbanos destaca-se a necessidade do sentido prático e da identidade», explicou. O preto e o verde assumiram-se, assim, como cores dominantes, em peças clássicas reinventadas com influências do streetwear. Já Estelita Mendonça aprofundou o conceito de habitat portátil – desenvolvido na coleção passada – recorrendo aos tipicamente portugueses mas quase extintos “cobertores de papa”, transformados em sobretudos, em coordenados onde o conforto e o sentimento de proteção estiveram em destaque. As gabardinas impermeáveis com um toque de streetwear foram uma das peças-chave das propostas de Estelita Mendonça, que conseguiu uma coleção adaptada ao homem moderno. Na Brand Gallery, os veteranos Manuel Alves e José Manuel Gonçalves mostraram propostas fiéis ao ADN da dupla, com mais de 25 anos de história. «É a continuação do nosso trabalho, que tem a ver com a vulnerabilidade e com o lado mais intimista, o lado mais frágil da mulher», explicou Manuel Alves sobre a coleção reminiscente dos anos 40 e 50, com uma silhueta ampla e materiais estruturados, muito feminina, onde a cintura foi marcada por cintos em couro preto, por cima de casacos e vestidos que variaram entre o preto, por vezes com apontamentos de azul forte, e o vermelho, mas também o dourado, o camel, o verde tropa e o rosa-velho. A fechar o primeiro dia, Fátima Lopes regressou, 21 anos depois, ao lugar onde tudo começou – o Convento do Beato –, local onde realizou o seu primeiro desfile em 1992. Lado a lado, as propostas da criadora madeirense para homem e senhora calcorrearam a passerelle, com vestidos e saias lápis até ao joelho em oposição a formas mais volumosas, para elas, e blazers, calças, casacos até ao meio da perna ou mais curtos e streetwear, conjugados com camisolas de gola alta ou camisas brancas, para eles. Nas cores, o preto misturou-se com o azul forte em tecidos de lã, caxemira, couro, camurça, seda crepe ou jersey. Hoje o Portugal Fashion regressa à Alfândega do Porto, com os desfiles de Katty Xiomara, Júlio Torcato e Anabela Baldaque a partir das 20h30.