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Plano de recuperação têxtil para o Egito

A indústria têxtil e vestuário egípcia tem conhecido grandes dificuldades. A maioria das fábricas perde dinheiro e mostra descontentamento com os reveses da economia. Criar postos de trabalho e aumentar a capacidade de produção são algumas das metas do plano de recuperação do governo.

A empresa Misr Spinning & Weaving Co, sediada na cidade Al-Mahalla Al-Kubra, na região do Delta do Nilo, é um dos exemplos que integram o plano do governo, que visa recuperar empresas nacionais que registem perdas financeiras. Ter um historial neste sentido é requisito para integrar o plano de resgate.

Este projeto de recuperação mostra que o governo quer reverter a tendência de dar mais importância às empresas do sector privado do que às empresas públicas, implementado pelo presidente Hosni Mubarak, que deixou a presidência em 2011, após críticas e protestos da população. Pelo contrário, o atual governo quer duplicar o apoio às empresas estatais.

O novo plano deverá também ser um teste necessário para medir a capacidade que a indústria egípcia tem na criação de postos de trabalho, no momento em que termina o programa de reformas de três anos financiada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os economistas assumem-se confiantes com as reformas que contribuíram para a estabilidade e crescimento de 5,6% no terceiro trimestre. No entanto, à exceção do sector de energia, a economia está em queda.

A história da fábrica Misr Spinning & Weaving Co, em Mahalla, reflete um declínio a longo prazo. As instalações foram criadas por empresários egípcios em 1927 com o objetivo de produzir têxteis a partir do reputado algodão de fibra longa do Egito que, até então, era totalmente exportado para produtores estrangeiros. No entanto, no início dos anos 60, o Estado nacionalizou esta matéria-prima, assim como a maior parte da indústria do país. Como consequência, o sector têxtil egípcio foi ultrapassado pela concorrência asiática. Além de um breve período de contratação depois dos períodos de agitação política em 2011, a empresa parou de contratar novos trabalhadores durante décadas, o que reduziu a força laboral, resultado da aposentação e da demissão de trabalhadores. Alguns trabalhadores revelam que as três unidades industrais da empresa estão a operar com uma capacidade inferior a 40%. «As máquinas pararam e as três fábricas não são produtivas. Todos os meses, os salários atrasam 10 dias e os bónus anuais tardam», afirma, à Reuters, um trabalhador da empresa, que pediu para não ser identificado.

Inversão

No início do ano, o Ministério das Empresas Públicas anunciou um plano de investimento de 21 mil milhões de libras egípcias (cerca de 1,18 mil milhões de euros), a 30 meses, para reanimar a indústria têxtil, responsável por 65% da produção têxtil do país.

O Ministério planeia fundir 23 empresas têxteis em apenas 10, transferir operações e também algumas fábricas para outras mais próximas e ainda encerrar determinadas unidades industriais para concentrar a produção em Kafr al-Dawar, perto de Alexandria, Helwan, no sul do Cairo, e Mahalla, uma cidade com meio milhão de habitantes. A fábrica de Mahalla vai ser responsável pelas operações da empresa adjacente, a El Nasr Spinning, Weaving & Dyeing Co, que regista perdas.

De acordo com declarações, em abril, do ministro das Empresas Públicas, Hisham Tawfik, à Câmara Americana de Comércio, o governo quer vender alguns ativos, maioritariamente terrenos, para financiar novas máquinas, de forma a quadruplicar a capacidade produtiva e aumentar a produção de vestuário de trabalho intensivo. A gestão das remunerações será melhorada e estará diretamente associada ao desempenho dos trabalhadores.

Além da indústria têxtil, o governo está a analisar outros sectores com dificuldades como a indústria química, farmacêutica e metalúrgica para implementar planos de recuperação, segundo Hisham Tawfik, que assegurou à Reuters que o plano para o têxtil estava ainda em curso.

De acordo com o FMI, o Egito precisa de absorver 3,5 milhões de novos trabalhadores no mercado laboral ao longo dos próximos cinco anos, mas a abertura ao sector privado – que, segundo os credores internacionais é crucial para o sucesso económico no longo prazo – fracassou.

Os economistas referem que a presença crescente do Estado pode advir do crescimento e que o objetivo de reavivar a indústria estatal parece estar na origem de uma mistura de ideologias, do desejo de apertar o controlo político e económico e da preocupação de que o descontentamento laboral possa causar uma agitação algo maior.

As questões económicas foram amplamente citadas durante os protestos que eclodiram no Cairo e noutras cidades, incluindo Mahalla, em setembro último. Contudo, o Estado enfrenta uma tarefa hercúlea ao tentar dar a volta ao sector têxtil. «Precisamos de entender a economia deles. Que tipo de retorno do investimento é que preveem?», questiona Mohamed Kassem, membro do conselho de administração da Federação da Indústria Egípcia e executivo têxtil. «Se os cálculos não forem corretos, vão perder muito dinheiro. Mas se forem capazes de concorrer com a Índia e a China, vão ter muito sucesso», acredita.

Perda

As 23 empresas de fiação e tecelagem egípcias registaram uma perda conjunta superior a 2,59 mil milhões de libras no ano fiscal que terminou em junho de 2018, de acordo com dados divulgados pelo Ministério das Finanças. Apenas uma empresa, a Port Said, de fiação e tecelagem, teve lucros, de 5,2 milhões de libras.

A fábrica de Mahalla sofreu perdas de 667,2 milhões de libras egípcias no mesmo ano fiscal, com uma receita de apenas 1,07 mil milhões de libras, segundo os dados mais recentes. Os ativos ascendem a 1,57 mil milhões e o passivo a 4,9 mil milhões de libras. O número de trabalhadores cifra-se hoje em 18 mil, indicou Tawfik em abril, abaixo do pico de 35 mil observado nas décadas de 1970 e 1980.

A fábrica, com mais de 2,4 milhões de metros quadrados, tem sido causa de divergências políticas. Os protestos por melhores salários e condições de trabalho em dezembro de 2006 rapidamente atingiram outras unidades de produção e, em 2011, os trabalhadores entraram em greve, antes da queda de Mubarak. Os serviços e as infraestruturas em Mahalla e nas localidades vizinhas, incluindo a rede de esgoto e estradas, estão a deteriorar-se e o desemprego aumentou, admite o trabalhador. «São as condições económicas e de vida que levam as pessoas a manifestarem-se», reconhece.