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Platforme quer ser a Tesla da moda

A empresa tecnológica portuguesa quer revolucionar a moda da mesma forma que a Tesla mudou o paradigma nos automóveis. Ainda sem clientes em Portugal, a Platforme serve já grandes nomes do sector, incluindo o LVMH e a Hermès.

Gonçalo Cruz

O projeto, nascido há cerca de cinco anos, permite criar um produto em 3D de forma realista. «O José Neves falou-me sobre a possibilidade de digitalizar e eventualmente customizar online uma coleção para uma marca que ele tinha. Fizemos umas experiências e percebi que aquilo tinha muito potencial», explica Gonçalo Cruz, fundador da Platforme, ao Jornal Têxtil

A empresa está centrada no mercado da moda, para a qual consegue criar imagens «hiper-realistas» dos produtos e trazer vantagens evidentes. «O modelo de negócio da moda foi desenhado há 100 anos e não funciona. Historicamente, temos educado os clientes de maneira errada – fazemos stocks e depois fazemos descontos, saldos, estamos a depreciar margens e o valor da marca», aponta Gonçalo Cruz. «Há uma grande fatia desse processo que pode ser automatizada e otimizada se se inverter o desenho», acredita.

A ideia é criar o produto apenas digitalmente, promovê-lo da mesma forma e só depois passar à produção. «Podemos ter muito mais noção do que é que vende, do que é interessante e depois ter a cadeia produtiva a reagir a indicadores mais sólidos», salienta. «Não estou a sugerir que isto é binário, que tem que ser tudo digital, mas se melhorarmos a indústria em 10%, que é pouco, há um ganho quântico de recursos, tempo que se poupa, capacidade de fábricas, etc. É uma pecinha de um puzzle para revolucionar a indústria», considera Gonçalo Cruz.

A Platforme tanto presta o serviço diretamente como disponibiliza e forma os recursos na própria empresa. «Treinamos, com consultadoria ou workshops, como as pessoas podem lá chegar sozinhas, a identificar as ferramentas certas. Depois, e é o trabalho mais interessante, como é que toda a cadeia produtiva pode tornar-se mais ágil», destaca, acrescentando que a tecnologia permite uma «comunicação bidirecional, quer da fábrica para o ponto de venda, quer do ponto de venda para a fábrica. Somos uma plataforma tecnológica para fazer circular a informação», resume.

Clientes de renome

Atualmente, a Platforme conta com um leque de clientes que inclui o LVMH, o Kering, a Hermès, a YSL, a Nordstrom, a Farfetch e a Ermenegildo Zegna, entre outros. «Começámos a trabalhar muito proximamente com grupos de luxo, alguns deles chegaram ao ponto de ser mais do que nossos clientes: alguns são parceiros, acionistas, investidores», refere o fundador da empresa. «Quando alguém investe é porque acredita verdadeiramente na nossa palavra e quer fazer um caminho em conjunto», realça.

Para a Louis Vuitton, por exemplo, a empresa criou imagens fotorrealistas de um casaco. «Nunca o vimos fisicamente, nunca lhe tocámos, nunca recebemos uma amostra e a partir de uma fotografia que vimos num website representamos a peça puramente em 3D», indica, sublinhando que vai mais além do que apenas uma imagem, com a explicação das características físicas do produto mas também como ele veste e assenta, assim como a construção do mesmo. «São coisas que só podemos mostrar com tecnologias 3D de ponta e é isso que chamamos de elevação do produto pelo digital», revela.

Isto também permite a produção por encomenda ou até a customização do produto, como fez a Gucci com uma camisola que os consumidores podiam comprar online e selecionar as cores e até uma letra decorativa. «Esta tecnologia ligada às fábricas pode permitir fazer modelos made to order, ou seja, não estou a produzir para stock, estou a produzir encomendas que já são reais», esclarece.

Em Portugal, além do trabalho inicial que está a ser realizado com a Impetus, a empresa não tem ainda clientes. Mas, garante Gonçalo Cruz, há um grande potencial de aplicação na indústria portuguesa, apesar da escassez de marcas lusas. «Verdadeiramente estamos na quarta revolução industrial», sustenta, pelo que «falar numa empresa ter um website é como dizer que uma fábrica tem eletricidade – não faz sentido em 2020», evidencia. «Estamos numa outra fase e a digitalização e a transformação digital já estão uns passos à frente de ter presença online. Esta quarta revolução industrial, que muitas vezes se liga à robotização, à informação em tempo real, à informação do ponto de venda, à informação de fábrica, diluir estes canais e ter tudo automatizado e em tempo real já está a acontecer e, inacreditavelmente, temos imensas convergências de valor para Portugal, porque, como somos super ágeis, conseguimos reagir com uma naturalidade inacreditável», afirma o fundador da Platforme, que assume como principal papel, enquanto cidadão, «motivar a discussão e mostrar que isto existe», embora, «sendo dos melhores do mundo, [a Platforme tem] todo o gosto em ajudar».

Motor de mudança

A meta traçada para a empresa, de resto, é maior do que apenas ter clientes de renome. «Isto tem de ser impactante em termos mundiais. Não quero ficar conhecido, um dia quando não estiver cá, como alguém que trabalhou com clientes muito giros. Quero ficar conhecido como alguém que provocou um impacto e que ajudou a mudar algo que estava francamente mal resolvido e desenhado», admite. «A nossa grande missão é reduzir drasticamente o desperdício que há na moda em geral, pelo digital e pelas ferramentas tecnológicas que vão ajudar a comunicar tudo isto», assegura Gonçalo Cruz.

Neste caminho para «sermos conhecidos para a moda como a Tesla é para os carros», a Platforme espera que nos próximos cinco a 10 anos «haja muito mais gente a utilizar a tecnologia em geral, a nossa ou de outras empresas que fazem coisas parecidas ou complementares às nossas», adianta Gonçalo Cruz. Já em termos práticos, «o nosso objetivo é sermos os melhores do mundo e continuarmos a liderar no desenvolvimento, investigação e tudo o que pode facilitar a adoção da tecnologia, escalar para sermos uma empresa global também no sentido de impacto e chegarmos a um ponto em que eu não consiga medir quantos clientes temos», conclui o fundador da Platforme.